Japoneses à brasileira

As várias faces daqueles que carregam a herança de ancestrais japoneses

Fernanda Aranda, Jornal da Tarde

22 de setembro de 2007 | 20h36

Uns têm pele morena. Outros, cabelos loiros. Há também os que falam com resquícios do sotaque arretado do Nordeste. Mesmo em meio a tantas diferenças, as semelhanças se destacam: eles são mestiços e trazem nas feições e na alma, em maior ou menor grau, a herança de seus ancestrais japoneses.    Veja também: Galeria de fotos Belezas diferentes que encontramos todos os dias na padaria, na estação do metrô, na fila do cinema. Mescla que só vemos por aqui. E que o Jornal da Tarde decidiu reunir em homenagem à quase centenária imigração. Conheça o rosto e a história dos nossos japoneses. Japoneses à brasileira.  Hachebe Silva Exóticos. Excêntricos. Diferentes. Os irmãos Thuane e Pietro, de 16 e 18 anos, estão acostumados a não passar despercebidos. E o assombro aumenta quando eles explicam a mescla genética por trás do visual único. Para que os dois chegassem ao mundo com belos pares de olhos verdes, boca carnuda, madeixas negras e bronzeado natural, sem precisar de muitos dias de praia ou de piscina, foi preciso unir os Hachebes aos Silvas.  Mas não foi só. A mãe dos dois, Lucimara Yukie Hachebe, deu contribuição adicional. Ela própria tem no rosto a herança do pai - "japonês do Japão" - e da mãe descendente de italianos, nascida na Itália paulistana. "Foi uma boa briga de etnias. Eu já tinha traços italianos e casei com um negro de olhos verdes", conta Lucimara. "Meus filhos vieram essas belezuras." O percurso até essa tão harmônica mistura, porém, foi permeado por obstáculos. Primeiro, Hachebe teve de vencer a resistência dos parentes japoneses para se casar com a italiana dos Ferreis. Sem acordo nos jantares de domingo, a solução encontrada pelo casal foi fugir. Três filhos depois, parecia que a primeira parte da miscigenação estava resolvida.  Foi então que a única mulher entre os três anunciou o casamento com Gilson Silva. Apesar de ter sofrido na pele o mesmo problema, décadas antes, o patriarca dos Hachebes encrencou. "Um negro na família! Por essa eles não esperavam", lembra Lucimara. "Não conseguiam aceitar." Ao contrário dos pais, ela não precisou fugir. E a união de 20 anos com Gilson mostra que Lucimara estava certa. "Acredito que o Pietro e a Thuane são a prova de que o amor fala mais alto e vence todas as diferenças." Kuriki Kovacs Quem repara nos cabelos claros e teimosamente lisos de Thaís, de 12 anos, já desconfia. Desconfiança que só aumenta na presença da irmã caçula dela, Mariana, de 11, com seus olhos cor de mel, um tanto puxadinhos. "Quando me olham, as pessoas sabem que tem mistura. Mas não imaginam o que é", diz Thaís, mexendo na cabeleira lisinha que tanto adora.  Mariana completa: "Meus amigos até tentam adivinhar. Arriscam russo, alemão, italiano", conta a garota. "Mas húngaro e japonês nunca ninguém falou." Apesar de terem vindo de países tão diferentes quanto Hungria e Japão, as famílias Kovacs e Kuriki têm em comum parte de sua história: escolheram o Brasil como remédio aos horrores da Segunda Guerra Mundial. E encontraram abrigo em São Paulo, onde Átila Kovacs e Marina Kuriki se uniram. "Mesmo quando eu não conhecia o Átila, sabia que as minhas filhas seriam exatamente como são", conta Marina.  "Nunca fui chegada em um homem japonês. E sempre fui apaixonada pelos loiros." Quando Thaís nasceu, eles tiveram uma surpresinha adicional. Era ruiva a penugem na cabeça do bebê, apenas uma das muitas marcas da descendência húngara.  Moraes Nakada "Somos legítimos jabaianos", dizem Ralph e Rodrigo, de 20 e 19 anos. "Pode escrever isso." São mesmo. E se orgulham da exótica mistura. Os genes japoneses foram passados pelo pai, Rubens Nakada. E o jeitão nordestino - de Salvador, especificamente - veio da mãe, Fátima Moraes.  A miscigenação deixou fortes marcas no rosto de Rodrigo, bem nipônico. Mas os olhos de Ralph saíram ao lado baiano - e não têm nada de puxados. "As pessoas nunca imaginam que o meu pai é japonês", diz Ralph. "E também custam para acreditar que o Rodrigo é meu irmão legítimo, filho do mesmo pai e da mesma mãe."  Pode até parecer estranho, mas de toda a turma reunida para a reportagem, é justamente Ralph que fala melhor o idioma japonês e já tem planos para tentar a vida em Tóquio, no ano que vem. Enquanto a carreira de dekassegui não deslancha, os irmãos investem na música. Axé? Canções típicas japonesas? Se engana redondamente quem pensa no óbvio. Os dois gostam mesmo é de um bom pagode e fazem parte de uma banda há três anos.  Tomie Alves Uma pitada de Tomie. Outra de Alves. Mais dois ingredientes imprescindíveis para o rico caldeirão que é a história dos 100 anos de imigração japonesa no Brasil. A receita começa assim: uma mãe já mestiça de japonês com italiano resolve se casar com um mineirinho.  O primeiro resultado foi uma bela morena, Fernanda, de olhos grandes, mas bem puxadinhos. Anos depois, chegou Arthur, um japonesinho de cabelo loiro. Na casa da família, quase não há espaço para a culinária japonesa. "Gosto mesmo é de uma asinha de frango bem fritinha", disse Arthur, de 5 anos, lambendo os beiços. A irmã, Fernanda, de 13, também torce o nariz para os yakissobas e sashimis. "Acho que fui influenciada só pela parte italiana da família. Gosto mesmo das massas."Por sinal, o único realmente adepto dos peixes crus é Vitor Alves, o pai. "Meu marido não tem olhos puxados e, por ironia, adora comida japonesa", conta Priscila, mãe dos garotos. "Quer mais mistura do que isso?" Empate técnico Essa nova geração de "olhos puxados" esteve na sede do Jornal da Tarde, na Zona Norte, para fazer as fotos que acompanham esta reportagem. Resolvi perguntar quem, na opinião deles, era o mais típico representante da "brasilidade japonesa". Ninguém conseguiu apontar. Arthur, com a sabedoria de seus 5 anos, pôs um ponto final na discussão: "Aqui dá empate técnico."

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