Lucas Mendes: Andy 'Francis' Rooney

Quem é o brasileiro mais rabugento do nosso telejornalismo?

Lucas Mendes, BBC

06 Outubro 2011 | 08h27

Quem é o brasileiro mais rabugento do nosso telejornalismo? O Arnaldo Jabor é um bom candidato, mas ele tem um lado doce, romântico, tolerante e apaixonado pela vida. O Francis era mais ranzinza, mas também amolecia. E até cantava.

Andy Rooney era o curmudgeon da televisão americana. A palavra, de pronúncia difícil para brasileiros, significa também ranheta e ranzinza, mas há debates entre os lexicógrafos americanos se Rooney era um ranheta, um ranzinza ou um rabugento. Vamos sair da arena semântica.

Andy Rooney debocharia deste debate. Ele passou 33 anos dando broncas, inclusive nos elitistas. Foram exatamente 1.097 esculhambações que iam do trivial ao profundo, de sopas a guerras, mas no último comentário, sua despedida, domingo passado, não falou mal de ninguém, nem dele mesmo como fez tantas vezes.

Aos 92 anos, era o mais velho e, não raro, o mais engraçado e um dos melhores observadores do nosso cotidiano.

Debochava de nomes de carros, controle de armas, livros de receitas, astrologia, mulheres jovens e velhas, dos sem-tetos, programas de TV, índios, brancos, republicanos, resfriados, remédios para resfriados, de suas gigantescas e cultivadas sobrancelhas.

Pense num assunto, e vai encontrar um ensaio num dos 15 livros que ele publicou, a maioria reproduções de seus comentários na CBS no final do 60 Minutes, o melhor e mais antigo programa neste gênero jornalistico na TV americana.

Nas mais de três décadas de insulto, deboche e sabedoria popular, Rooney foi suspenso uma vez, por três meses, em 1990, quando disse que "excesso de álcool, comida, drogas, cigarros e uniões homossexuais provocam morte prematura". Depois de um mês, quando o índice de audiência caiu 20%, foi chamado de volta.

Pediu desculpas aos gays, mas outros insultados, latinos, índios, jovens, velhos, indústrias e produtos não mereceram desculpas.

Antes de ficar rico e famoso pela ranhetice que rendeu três Emmys e outros prêmios cobiçados do jornalismo americano, Andy Rooney escreveu contundentes roteiros de reportagens sobre racismo nos Estados Unidos e um sobre guerras que foi rejeitado pela CBS.

Em protesto, ele se demitiu, mas voltou poucos anos depois como produtor e redator do 60 Minutes. Foi quando veio a transição para os comentários diante da câmera com "Alguns Minutos com Andy Rooney", que se tornou a marca registrada do final do programa.

Antes da televisão, ele trabalhou em dois programas de rádio que também se tornaram líderes de audiência e, antes das rádios, na Segunda Guerra, foi recrutado pelo Exército americano.

Sua arma foi o teclado, escrevendo para o Stars and Stripes, a publicação independente das Forças Armadas americanas. Baseado em Londres, Andy foi um dos seis primeiros jornalistas convidados a cobrir um bombardeio aliado na Alemanha.

Depois estava no ainda mais reduzido grupo de jornalistas que chegou a um campo de concentração. Anos mais tarde contou que por causa desta experiência deixou de ser pacifista: "Há guerras para o bem".

E antes da guerra, no começo dos quarenta, foi preso num protesto contra o racismo, no sul, porque sentou junto com os negros num ônibus.

Eu estive com Andy Rooney em "eventos" de jornalismo e caridade. Andy doava o dinheiro que recebia pela presença para ONGs e era famoso pela pão-duragem. Gostava de uma boca livre. Enchia o prato e sentava sozinho, não queria e nem quer a companhia de fãs.

Na sua despedida pediu um favor: "Quem me encontrar num restaurante, por favor, me deixe comer em paz". Andy tem milhares de citações, mas por trás do deboche sempre houve o jornalista: "Se todas as verdades fossem reveladas sobre tudo, nosso mundo seria melhor".

Como o Francis, Andy Rooney vai fazer falta. Sem ele, o domingo será diferente.

Quando terminava esta coluna veio a notícia da morte de Steve Jobs, que durante anos ajudou, encantou e assombrou meu dia-a-dia com iPod, iPhone, iPad e todos computadores que já tive e me confundem. Nunca saí da Apple e se tivesse comprado ações há dez anos, hoje não estaria com vocês.

Quando tive o primeiro iPod na mão, achei que era a lâmpada de Aladim, mas a tecnologia não deslumbrava Andy Rooney. Ele escrevia numa mesa que ele mesmo construiu e escreveu: "computadores facilitam muitas coisas, mas a maioria das coisas que facilitam sao inúteis". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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