MP cobra medidas sobre transplantes de órgãos no Rio

Em maio, todos os procedimentos desse tipo de tratamento foram suspensos; cinco pacientes já morreram

TALITA FIGUEIREDO, Agencia Estado

01 Julho 2008 | 19h57

O procurador da República Daniel Prazeres cobrou nesta terça-feira, 1, informações ao diretor do Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Alexandre Pinto Cardoso, para saber quais medidas serão "adotadas em relação ao encaminhamento dos pacientes em na fila para cirurgias de transplante hepático e renal, tendo em vista a paralisação dos serviços de transplantes".   No dia 9 de maio, o diretor encaminhou ofício ao Programa Rio Transplante, órgão da Secretaria Estadual de Saúde, e ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT), do Ministério da Saúde informando que os transplantes e todos os tratamentos e exames ligados ao procedimento estavam suspensos "por desabastecimento da unidade". Desde abril, cinco pacientes já morreram.   O procurador quer saber qual o tratamento que será dispensado aos mais de 700 pacientes cadastrados na unidade que estão na expectativa de receber transplantes. "O paciente precisa ser comunicado oficialmente do problema para buscar alternativas para o tratamento", afirmou Prazeres. Segundo a coordenadora do Rio Transplante, Ellen Barroso, o doente em tratamento numa unidade pode mudar para outra, mas precisa comunicar oficialmente o órgão. No Estado há mais três unidades credenciadas, duas pública e outra particular.   "O problema do Hospital Geral de Bonsucesso, a outra única unidade pública no município credenciada, é que apesar de terem excelente equipe, precisariam de mais profissionais e mais leitos de terapia intensiva e de pós-operatório para tratar dos pacientes que fossem transferidos. A situação é bem delicada. Além disso, há pacientes que se tratam há quatro, cinco anos na unidade e criam uma relação com eles. Muitos têm medo de mudar", afirmou Ellen. Segundo a coordenadora, como a unidade não está realizando os exames nos pacientes, eles não conseguem nem saber se a gravidade da doença aumentou.   Vidas paradas   Ontem, cerca de 30 pacientes da unidade fizeram um protesto na frente da unidade, que fica na Ilha do Fundão, na zona norte do Rio. A doceira Vanda da Penha Amorim, de 64 anos, contou que convive com a expectativa do transplante há mais de quatro anos. Há cerca de oito, ela teve diagnosticada uma cirrose hepática por hepatite C. "Eu não quero morrer, quero ver minha neta, que tem 11 anos, completar 15 anos.   Sempre fui tão ativa, agora não consigo nem lavar a xícara do café que tomo. Eles não estão me dando a chance de viver", disse chorando. A filha de Vanda, Ana Lúcia Castro, de 39 anos, conhece muito bem o sofrimento da mãe. Ela, que morava em Vitória, teve que se mudar para o Rio para cuidar da doceira. Depiladora, precisou largar o emprego para se dedicar exclusivamente à Vanda.   "Nas crises, ela fica desorientada, não consegue se mexer e precisa até usar fraldas. Nessas horas, ela diz: filha, eu não quero morrer. Você imagina o tamanho do sofrimento para uma família? O custo dos remédios também é alto, chegamos a pagar R$ 2.500 por mês só de remédios. A gente adoece junto, abandona os amigos, o emprego, tudo. Quase não participo da infância da minha filha, para cuidar da avó dela. Mas temos esperança de que isso vai mudar. Ela tem que ter direito à chance que o transplante dá, à chance da vida", afirma.   Lilia Borges, de 23 anos, espera por um fígado há um ano e dois meses, desde que recebeu o diagnóstico de câncer no órgão. Ela não suporta as dores da doença e a espera. "Estou muito nervosa com tudo isso e sem saber se vou viver o suficiente para receber o transplante", disse com os olhos marejados de lágrimas. Lilia é a segunda na fila de transplante de pessoas de sangue O positivo na unidade, tamanha a gravidade de sua doença.   Cadastrado no SNT desde 1999, o Hospital do Fundão, como é conhecida a unidade, tornou-se referência para transplantes de fígado, mas opera também outros órgãos. Em janeiro desde ano, o credenciamento do hospital no SNT expirou. Mesmo assim, segundo informações obtidas pelo Estado, a unidade pode continuar fazendo transplantes, apenas não receberia o pagamento do Sistema Único de Saúde. No Estado, há mais de 7,6 mil pacientes aguardando transplante. Apenas no Fundão, há mais de 700 pessoas.   Por meio de nota à imprensa, o diretor do hospital esclareceu que a situação de "desabastecimento está sendo vencida e o hospital está retomando progressivamente as suas atividades". Ele afirmou que ainda esta semana realizará um transplante de medula óssea. Segundo a nota, o transplante hepático depende de nova equipe técnica, que está sendo definida e poderá voltar a trabalhar em breve.

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