O trágico erro do presidente

"Odeio a guerra", disse Dwight Eisenhower. "Odeio como somente um soldado que a viveu pode odiar, como quem testemunhou sua brutalidade, sua inutilidade, sua estupidez." E disse também: "Cada fuzil que se fabrica, cada navio de guerra que é lançado, cada foguete disparado, significa, em última instância, que roubamos dos que têm fome e não são alimentados, dos que têm frio e não são agasalhados."

Bob Herbert*, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

02 Dezembro 2009 | 00h00

Acredito que jamais aprenderemos. O presidente Barack Obama iria à TV ontem à noite para anunciar que pretende enviar ao Afeganistão uma força suplementar de milhares de soldados para combater numa guerra que já dura quase uma década e há muito foi perdida.

Depois de longas consultas, o presidente chegou a uma decisão da qual nunca ninguém duvidou, mas que se revelará um erro trágico. Para o presidente, foi também a opção mais fácil.

Para Obama, teria sido muito mais difícil olhar esta conturbada nação nos olhos e explicar por que é do nosso interesse começar a diminuir o permanente estado de guerra herdado de George W. Bush. Para o comandante-chefe, teria sido um ato autêntico de coragem parar de atirar nossos jovens soldados no incansável triturador de carne que é o Afeganistão e encarar o terrível custo que a guerra está exigindo.

Este ano, houve um número muito maior de suicídios entre soldados do que em qualquer um dos anos para os quais dispomos de registro. Mas, agora, os militares conseguem recrutar porque os jovens, homens e mulheres que se alistam, não conseguem emprego na vida civil.

Os EUA estão falidos - a educação formal se deteriora, a economia está em frangalhos, o número de sem-teto e da pobreza cresce sem parar - e, no entanto, estamos construindo uma nação no Afeganistão, enviando para lá centenas de milhares de jovens economicamente sem perspectivas.

Ouço continuamente que os americanos estão preocupados com déficits orçamentários cada vez mais fantásticos. A ideia de que é possível controlar déficits crescentes combatendo, ao mesmo tempo, em duas guerras, sendo que para financiá-las não se pode elevar impostos, é um absurdo gritante.

Os políticos raramente são honestos quando falam publicamente da guerra. Em 1965, quando fazia planos para a primeira grande expansão das forças americanas no Vietnã, Lyndon Johnson sabia que não havia possibilidade de mudar o resultado da guerra.

Em um recente programa americano, foi ao ar uma fita em que Johnson comentava com o secretário de Defesa Robert McNamara: "Não há um só infeliz que esteja convencido de que 50 mil ou 100 mil (soldados americanos) conseguirão acabar com esta guerra." E McNamara concordava. Nada disso foi transmitido ao público na época e Johnson e McNamara mandaram mais garotos para o triturador de carne do Vietnã.

FRACASSO

O Afeganistão não é o Vietnã. Havia todas as razões para que as forças americanas invadissem o Afeganistão após o 11 de Setembro. Mas, aquela guerra fracassou graças ao pessoal de Bush e Obama não tem uma varinha mágica para fazer a situação melhorar.

Embora Obama afirme que tem em mente uma estratégia para transferir a condução da luta para um bando de militares afegãos sem energia, é evidente que as forças americanas continuarão envolvidas naquele país durante muitos anos.

A opção mais difícil para o presidente seria dizer ao público que os EUA são uma nação que se defronta com terríveis problemas internos e está na hora de começar a dar um fim a esta guerra. Mas, para tanto, precisaria de uma enorme coragem política e ficaria vulnerável a acusações de fraqueza e traição das tropas.

Nas fitas, Johnson relata ao senador Richard Russell, presidente do Comitê das Forças Armadas, o comentário feito por um fazendeiro nos dias que antecederam o envio de novas tropas para o Vietnã. O rancheiro disse a Johnson que o público perdoaria "tudo, menos que o presidente se mostrasse um fraco". Russell respondeu: "É um comentário muito profundo."

Ainda não aprendemos a reconhecer a verdadeira fortaleza, e, portanto, muitas vezes parece que a opção mais fácil para um presidente é não mandar soldados para a guerra.

* Bob Herbert é especialista em política e temas internacionais

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