Felipe Rau/AE
Felipe Rau/AE

Os avós mudaram, mas conflitos são iguais

Livro ensina a cuidar do neto sem contrariar pais; para especialistas, divergências são boas

Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

Uma velha de mais de 60 anos sentada na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz. A imagem de Dona Benta que Monteiro Lobato descreve em Reinações de Narizinho lembra muito pouco a maioria das avós de hoje. Muitas mulheres da atualidade nem sequer podem ser chamadas de velhas aos 60 anos. Trabalham, dirigem, vão à academia, namoram. Mas uma coisa elas mantêm em comum com as vovós do tempo de Dona Benta: o desejo de serem imprescindíveis na vida dos netos.

Esse é o caso da assistente social Silvia Aguilar, de 57 anos, que se refere à neta Marcela, de 9 anos, como "minha terceira filha". "Quando vi minha caçula, então com 19 anos, voltar da maternidade com o marido e um bebê, fiquei angustiada. Eram três crianças para eu cuidar", relata. Enquanto a filha terminava a faculdade, Silvia assumiu os cuidados com a neta. Ainda hoje Marcela fica boa parte do dia na casa da avó, que "faz tudo por ela" .

"Cuidar dos netos é uma forma de continuar cuidando dos filhos. Nenhum pai ou mãe deixará pela metade todo trabalho investido desde a primeira infância", avalia o pediatra Fabio Ancona Lopez em seu recém-lançado livro Avós e Netos - uma forma especial de amar. A obra é uma espécie de guia de etiqueta, para que os avós possam participar do parto, pós-parto e dividir os cuidados com os netos sem o risco de parecerem intrometidos.

"Tem uma porção de realidades pediátricas que mudou, como as orientações para a amamentação e introdução de alimentos. É preciso se preparar para o papel de avô e avó", defende Lopez. Esse preparo, diz, inclui abandonar a postura "se o que eu fiz deu certo, por que mudar?" e assumir uma linha adequada à conduta dos pais e do pediatra.

Sempre domingo. A personal trainer Daniela Aguilar, mãe de Marcela, reconhece que Silvia lhe ajudou muito, mas também se intrometeu muito na criação da menina. "Já discutimos diversas vezes pelo fato de ela deixar Marcela fazer coisas que eu não queria", conta.

Para Lopez, a liberalidade que existe na casa dos avós não é um problema, mas deixar a criança fazer coisas à revelia da mãe passa uma dupla mensagem. "A criança fica insegura", diz.

Essa ideia, no entanto, é polêmica entre especialistas. Para a terapeuta familiar Lidia Aratangy, coautora do Livro dos Avós - Na casa da avó é sempre domingo?, regras diferentes não são um problema, são a solução. Dessa forma, a criança aprende que o adequado em um determinado lugar não o é em outro. "Essa sabedoria é preciosa. Ao longo da vida ela terá de se adequar a diferentes padrões."

Márcia Almeida Batista, professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, concorda. "À medida em que valorizo quem está cuidando do meu filho, não posso ficar controlando o que essa pessoa faz", afirma. A mãe, continua Márcia, tem de aprender a abrir mão de sua autoridade de vez em quando.

Depois de dar à luz os gêmeos João e Pedro (4 anos) e, logo depois, a Maria Eduarda (3 anos), a empresária Roberta Novaes, de 33 anos, não teve outra saída a não ser aprender a dividir o poder materno e delegar tarefas.

"As avós sabem que dentro de casa valem minhas regras. Mas na casa delas podem fazer diferente. Procuro não criar conflito porque são pessoas que me ajudam muito. E eu sei que são sensatas", conta.

Ela revela, porém, que no início se sentiu sufocada. "Parecia que eu não sabia cuidar dos meus filhos", diz. Essa tranquilidade só foi conquistada após algum tempo de terapia. "Percebi que se você quer tudo do seu jeito, precisa abrir mão de sair, viajar e até de trabalhar. Mas não acho que isso seja o melhor para a criança."

Novo pai. No fundo, afirma Lidia, essas mulheres querem exatamente a mesma coisa: o bem-estar da criança. "Podem ter caminhos diferentes, mas não existe um jeito certo."

Embora a relação entre mães e avós tenha sido historicamente a principal fonte de conflitos na criação dos filhos, o "novo pai" têm entrado recentemente na disputa, revela Lidia. "Muitos homens hoje fazem questão de ficar ao lado da mulher no parto, dar o primeiro banho, trocar a fralda. Tarefas que, no passado, cabiam às avós."

O segredo para uma convivência intergeracional tranquila, afirma Márcia, é o respeito. "O papel de mãe, pai, avó, avô e neto se constrói na vivência dessas relações. Se houver respeito mútuo, não haverá trombadas."

Na média

LIDIA ARATANGY

PSICOTERAPEUTA

"A média de erros que cada geração comete (na criação das crianças) é mais ou menos constante. No fundo, não faz muita diferença. O filhote acaba sobrevivendo"

DICAS DO PEDIATRA E AVÔ FABIO ANCONA LÓPEZ

Quarto do bebê

Deixe o casal montar seu ninho e só dê palpite se solicitado.

Enxoval

Faixas, cueiros e roupas com babados não se usam mais.

Andador

Não é mais recomendado, pois pode causar acidentes e prejudicar o desenvolvimento.

Aleitamento materno

Deve ser exclusivo até os 6 meses. Nada de chás e sucos ou horários para mamar.

Comida

Não faça chantagem emocional ou force a criança a comer. Mais gordo não quer dizer mais forte.

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