Papa usa cruz para falar de desafios sociais e políticos

Marcando a Igreja com seu estilo, o papa Francisco deu ontem à via-crúcis um sentido político e social. Dos jovens, cobrou uma atitude de "coragem" para mudar o mundo e, com a cruz, desafiar os problemas vividos pela sociedade. "Você é o que lava as mãos, se faz de distraído e vira para o outro lado?", questionou o papa, aludindo à atitude de Pilatos, que lavou as mãos diante da crucificação de Cristo. "Jesus olha agora e te diz: ?quer ajudar a levar a cruz??", completou.

AE, Agência Estado

27 de julho de 2013 | 07h38

Na Praia de Copacabana, o pontífice levou milhares de jovens para acompanhar a encenação, depois de causar uma verdadeira histeria em seu trajeto pela orla. Hoje, Francisco falará aos políticos brasileiros em um encontro no Theatro Municipal do Rio. O Estado apurou que o papa alertará sobre a pobreza.

Ontem, Francisco optou por transformar a cruz e as imagens das estações do sofrimento de Jesus em alusões aos desafios sociais e políticos. "Com a Cruz, Jesus se une ao silêncio das vítimas da violência, que já não podem clamar, sobretudo os inocentes e indefesos."

Outro alerta de Francisco foi para o desafio da fome, numa crítica explícita ao desperdício de setores inteiros da sociedade, enquanto milhões não têm o que comer. "Jesus se une a todas as pessoas que passam fome, num mundo que todos os dias joga fora toneladas de comida", alertou. Pela primeira vez, ele também falou do racismo, além dos problemas de intolerância religiosa. "Jesus se une a quem é perseguido pela religião, pelas ideias ou pela cor da pele", apontou.

Política

O tradicional ato de devoção da Igreja não escapou ao estilo que o papa começa a aplicar, transformando a Igreja em um centro do debate até mesmo político. "Jesus se une a tantos jovens que perderam a confiança nas instituições políticas, por egoísmo e corrupção, ou que perderam a fé na Igreja, e até mesmo em Deus, pela incoerência de cristãos e de ministros do Evangelho", declarou.

Para o pontífice, os jovens não devem temer e precisam sair a enfrentar esses obstáculos. "Na Cruz de Cristo, está o sofrimento, o pecado do homem, o nosso também, e Ele acolhe tudo com seus braços abertos, carrega nas suas costas as nossas cruzes e nos diz: Coragem! Você não está sozinho a levá-la! Eu a levo com você. Eu venci a morte e vim para lhe dar esperança, dar-lhe vida".

Há dois dias, o papa já havia incentivado os jovens brasileiros a lutar contra a corrupção. Agora, usa o símbolo da cruz para insistir que não podem se dar por derrotados. O papa fez questão de lembrar aos jovens brasileiros que a luta, na forma de cruz, esteve sempre presente na história do País. "O primeiro nome dado ao Brasil foi justamente o de Terra de Santa Cruz. A Cruz de Cristo foi plantada não só na praia, há mais de cinco séculos, mas também na história, no coração e na vida do povo brasileiro."

Apelo

A convocação para que atuem também fez parte da conversa que o papa manteve em um almoço com 12 jovens de todo o mundo. O papa alertou garotos de vários continentes que deveriam abandonar apenas a "visão economista" do mundo e voltar a adotar uma "visão humanista". Apesar de a Jornada contar com centenas de jovens da África, nenhum deles foi convidado para o almoço com o papa no Palácio São Joaquim. O Vaticano não soube explicar porque o continente mais pobre do mundo ficou de fora do encontro com o papa que defende os pobres. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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