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Pega-rapaz

Por que o roteirista das novas 'Adventures of Superman' se transformou em vilão diante do movimento gay

Juliana Sayuri, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2013 | 15h52

Santa controvérsia, Batman! Querem trancafiar o Superman no armário? Talvez transformá-lo num herói californiano marrento a la Arnold Schwarzenegger? Macho alfa da cultura pop norte-americana, o Superman se tornou alvo de questões polêmicas sobre sexualidade nos últimos dias, após a editora DC Comics divulgar a contratação do escritor Orson Scott Card para redigir histórias para a revista Adventures of Superman a partir de abril, com ilustrações de Chris Sprous e Karl Story. Mas, para o alto e avante, por que tanta discussão sobre as preferências íntimas do homem de aço?

Eis Orson Scott Card, o x da questão. Premiado por histórias de ficção científica, o escritor americano é um declarado arqui-inimigo do movimento gay. Nascido no verão de 1951 em Richland, Washington, Card já rubricou obras com sete pseudônimos: Byron Walley, Brian Green, Dinah Kirkham, Frederick Bliss, Noam D. Pellume, P. Q. Gump e Scott Richards, por razões diversas – da simples gambiarra à identidade marqueteira. Mas id, ego, alter ego à parte, Card cresceu entre Arizona, Califórnia e Utah. Passou pelo Brasil na década de 1970, como missionário mórmon por cidades como Campinas, Itu e São Paulo. De volta a Utah, casou com uma namoradinha antiga, em 1977. Atualmente vive com a família em Greensboro, Carolina do Norte, onde escreve ensaios, peças, romances, poesias, roteiros. Estreou no universo das HQ com Ultimate Iron Man, da Marvel, em 2005. E, agora, prepara o lápis e o laptop para escrever o primeiro capítulo da nova antologia do paladino da justiça.

Neto de Charles Ora Card, fundador de uma colônia mórmon canadense, o roteirista per se é um personagem complexo, com criptonita própria: mórmon fiel, mas amante de fantasia, ficção científica e romances bíblicos; democrata desde criancinha, mas apoio declarado ao republicano John McCain no primeiro round contra Barack Obama em 2008; autor da saga Ender’s Game (1977), protagonizado por um garoto que aprende a lidar com a alteridade e amar aos inimigos, mas intolerante com questões, digamos, delicadas. "Os direitos dos gays são uma ilusão coletiva", declarou certa vez, em memorável entrevista à Salon, em 2000. Quase dez anos depois, Card se tornou um dos diretores da National Organization for Marriage, um movimento que faz campanha aberta contra o casamento gay, que, diz Card, levaria ao "fim da democracia" na América.

"Superman é um cara legal. Mais que isso, ele é ‘o’ cara", diz Andrew Wheeler, no britânico The Guardian. Rabiscado pela primeira vez pelo escritor Jerry Siegel e pelo artista Joe Shuster em 1938, o "real" Clark Kent é considerado um arquétipo do super-herói: um homem poderoso que protege os desprotegidos. "Para citar uma famosa frase da série no rádio na década de 1940, ele defende ‘a verdade, a justiça e o american way’", continua Wheeler. "É difícil conciliar os princípios de Superman com os valores de Orson Scott Card." Assim, a escolha da editora surpreendeu muitos fãs, que não demoraram a tricotar com os simpatizantes e militantes do movimento LGBT uma petição para demitir o roteirista – foram 12.345 signatários até sexta-feira. Noutra petição, fãs fiéis defendem o roteirista – 116 a favor de Card. Em resposta diplomática do tamanho de um tweet, a editora disse apenas: "Nós apoiamos firmemente a liberdade de expressão. No entanto, visões pessoais dos indivíduos associados à DC Comics são apenas isso: visões pessoais. E não da companhia."

É quase paradoxal, porém, a escolha de Card em tempos de arco-íris nas histórias em quadrinhos. Foram três revelações em 2012: a DC Comics arrancou Alan Scott/Lanterna Verde do closet; a Marvel, editora rival, divulgou o casamento do mutante Northstar, do X-Men, com o namorado de longa data; e, em entrevista à Playboy americana, o roteirista Grant Morrison confirmou a suspeita que ronda a batcaverna há tempos: sim, o playboy Bruce Wayne é gay – e Robin dispensa apresentações.

Nos últimos tempos, super-heróis – um tanto quanto másculos, ai e com M maiúsculo, já indicava o visionário Robocop Gay – estão conquistando mais "liberdades" sexuais. Mas a história é mais antiga: "Os comic books sempre foram gays", diz o escritor Noah Berlatsky, colunista cultural de revistas como Slate e The Atlantic. Para Berlatsky, a Mulher Maravilha é certamente gay, desde sua estreia, em 1942. Mas Superman é uma incógnita, apesar dos indiscretos olhos de raio X e do pega-rapaz almofadinha que não desmancha nem na hora de salvar o mundo de meteoros gigantes. "E a ideia de identidades conciliadas se destaca: por um lado, o alien fantasiado Superman se ‘passando’ por Clark Kent; por outro, o afeminado Clark Kent se ‘passando’ pelo viril Superman", pondera Berlatsky.

"Superman é um ícone da cultura pop", diz Joseph Darowski, da Brigham Young University Idaho e autor de The Ages of Superman: Essays on the Man of Steel in Changing Times (2012). "Entre outros apelidos, ele é lembrado como ‘o homem do amanhã’. Nos quadrinhos, Metropolis é retratada como uma utopia, uma cidade ideal para o futuro. Então, a HQ precisa se manter à frente do tempo, na curva da tecnologia e da sociedade", diz Darowski. "É extremamente improvável que qualquer história de Orson Scott Card mude essa essência do Superman", arrisca.

Para muitos, a escolha de Card foi uma jogada de marketing da editora, pois o filme Ender’s Game, inspirado no seu best-seller, estreia nos cinemas em novembro. Para outros, foi aposta de um publisher mais louco que o Batman. Até a estreia de Adventures of Superman, o suspense. E a questão que não quer calar: poderá o herói finalmente dispensar a imbatível sunga vermelha por cima da fantasia justa?

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