Setor de material de construção perde competitividade no Brasil

A indústria de materiais de construção corre o risco de passar por um processo de desindustrialização, a menos que medidas governamentais promovam redução de custos e aumento da produtividade, conforme estudo de competitividade apresentado pelo setor nesta quarta-feira.

VIVIAN PEREIRA, REUTERS

15 Junho 2011 | 15h05

No ano passado, a balança comercial do setor registrou déficit de 1,6 bilhão de dólares (2,7 bilhões de reais), segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendado pela Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Construção (Abramat).

O comércio exterior de materiais e máquinas e equipamentos para a construção evoluiu favoravelmente até 2006, quando apurou superávit de 2,5 bilhões de dólares. Em quatro anos, o setor teve uma reversão de 4,1 bilhões de dólares, segundo o estudo da FGV.

O cenário de deterioração foi composto pela combinação de fatores como aumento da demanda por materiais no Brasil, forte valorização do real ante o dólar e elevação dos custos da indústria de construção civil no país.

"Países que têm escala maior colocam produtos aqui a preços mais competitivos", disse o coordenador da pesquisa na FGV, Fernando Garcia, citando como exemplo, a China, que tem a seu favor o custo energético mais barato. "É preciso buscar saídas que compensem essa deterioração natural."

As indústrias cujo desempenho foram mais afetado nos últimos quatro anos foram aquelas que demandam alto consumo de energia e tecnologia avançada.

O estudo, que será encaminhado à presidente Dilma Rousseff e aos principais ministérios nesta quarta-feira, representa um "alerta" quanto à perda de competitividade do setor, segundo o presidente da Abramat, Melvyn Fox. "Não estamos enfrentando consequências ainda, mas a tendência está muito complicada... Essa tendência gera desindustrialização."

Ele citou como exemplo a fabricação de lâmpadas, que deixou de existir no Brasil após os produtos importados, mais competitivos, dominarem o mercado.

"O custo da tributação trabalhista é muito alto e tem peso muito grande no produto final", disse Fox, citando também elevados encargos sobre a energia.

A carga tributária do setor de construção civil responde atualmente por cerca de 20 por cento dos custos de uma obra. "O governo não vai abrir mão dessa arrecadação, mas tem de buscar meios alternativos".

Segundo Garcia, reduzir custos produtivos é prioridade para impulsionar investimentos no setor e, consequentemente, melhorar a competitividade.

Ainda conforme o estudo, os gastos com mão de obra, que representam uma grande parcela dos custos do setor, podem ser compensados pela desoneração de encargos sociais, sem interferir nos salários, por exemplo.

A contribuição, de acordo com o coordenador, poderia ser substituída por um imposto sobre faturamento, levando a uma redução de custos industriais de entre 12 e 13 por cento.

VENDAS EM QUEDA

Desde o início do ano, as vendas domésticas de materiais de construção vêm registrando queda na comparação anual, o que já levou a Abramat a reduzir a estimativa de crescimento para este ano de 9 para 7 por cento.

Segundo o presidente da entidade, caso o ritmo de desaceleração se mantenha, uma nova revisão da meta pode ocorrer nos próximos meses, para alta entre 5 e 6 por cento.

Em contrapartida, Fox espera que a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para materiais de construção, válida até dezembro, seja prorrogada até, pelo menos, 2014, quando devem terminar as contratações da segunda fase do programa habitacional do governo "Minha Casa, Minha Vida".

"Na realidade nosso pleito é para que o IPI (sobre materiais) seja zerado e a lista de produtos (beneficiados) ampliada", comentou Fox.

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