Surpresa é a saúde de orquestras britânicas

Esta década assistiu à negação das previsões sombrias e à constatação de que companhias antes com problemas sérios estão em ótima fase com jovens talentos

Tom Service, The Guardian, O Estadao de S.Paulo

16 Dezembro 2009 | 00h00

A música clássica não morreu nos primeiros anos do século 21 a despeito de todas as previsões sombrias. Muitas de suas instituições entraram no novo milênio acusadas de elitismo social e irrelevância. Dez anos depois, contudo, muita coisa se passou para provar que essas percepções estavam erradas - graças a alguns sucessos espantosos em casa e no exterior. Quem teria pensado que nossas duas maiores companhias de ópera, a Royal Opera House e a English National Opera (ENO), estariam com ótima saúde? Ou que as orquestras britânicas de Londres a Liverpool teriam arrematado os jovens talentos em regência mais badalados - e que a melhor delas poderia rivalizar com alguns dos conjuntos de ponta da Europa? Ou que compositores britânicos de todas as idades estariam entre os mais respeitados e mais executados do mundo? Ou que o público estaria crescendo e se tornando mais jovem e que a educação musical seria ao menos visível na agenda política?

A história da Royal Opera que passou do frangalho gerencial à riqueza artística é o maior sucesso da década. Em 2000, a Covent Garden estava atolada em confusões gerenciais e atrofia artística. A chegada de Tony Hall para a presidência executiva em 2001, e de Antonio Pappano para a diretoria musical um ano depois, foi o lance de dados final da companhia. Houve altos e baixos desde então, mas Hall e Pappano mantiveram a Royal Opera como um lugar onde os melhores cantores - Plácido Domingo, Anna Netrebko, Bryn Terfel - ainda querem ser vistos.

Eles também conseguiram telões gratuitos ao ar livre, retransmissões para cinemas e ingressos baratos para espectadores de primeira viagem. Vergonhosamente, poucas óperas novas foram encenadas na Covent, mas duas obras que ela encomendou foram vencedoras: The Tempest (A Tempestade) de Thomas Ades em 2004; e The Minotaur (O Minotauro) de Harrison Birtwistle, estreada no ano passado. O tiro no pé é seu plano de um posto avançado em Manchester, um esquema caro e frágil que seguramente não sobreviverá a uma mudança de governo.

A década da English National Opera atingiu seu nadir quatro anos atrás quando, numa performance de Lulu de Berg, Paul Daniel, diretor musical de saída foi vaiado pelo diretor de Marketing da companhia. Foi um momento que simbolizou o caos que a administração havia causado: eles tentaram nomear um russo de quem ninguém ouvira falar para assumir o controle, somente para rescindir o convite antes de ele ter sequer pego o bastão; o coro estivera em greve; e algumas produções foram medíocres, tendo Gaddafi da Asian Dub Foundation como o mais baixo dos pontos baixos.

DIRETOR ENÉRGICO

Mas a cia. deu a volta por cima com a chegada de Edward Gardner, o jovem e enérgico diretor musical, em 2007. Com ele, a ENO está fazendo o que deveria: cortejando a controvérsia com óperas dos séculos 20 e 21, como Le Grand Macabre (O Grande Macabro) de Gyorgy Ligeti, e irritando a velha guarda com encenações inventivas de clássicos, como a Turandot de Rupert Goold.

Os padecimentos da Scottish Opera foram os piores de qualquer companhia britânica. A empresa quase desabou em 2005, quando todas as suas produções em plena escala foram canceladas. Mas com Alex Reedjik como seu diretor-geral nos últimos três anos, eles recuperaram a identidade. A Opera North e a Welsh National Opera (WNO), por sua vez, desfrutaram de relativa prosperidade e consolidação artística: a WNO mudou-se para o Wales Millennium Centre em 2004 e a North apresentou um Grand Theatre renovado em Leeds no início deste ano.

A grande história, do ponto de vista orquestral, foi Simon Rattle tornando-se regente principal da Filarmônica de Berlim em 2002. Após uma lua de mel, Rattle começou a ser criticado por seus modos com os repertórios sinfônicos básicos de Beethoven, Brahms e Bruckner. Mas ele agora tem os voluntariosos berlinenses apontando na mesma direção e seu contrato foi estendido até 2018.

Com o trabalho de educação que Rattle capitaneou em Berlim, o repertório contemporâneo que introduziu e gravações como o recente ciclo de sinfonias de Brahms, a parceria é uma das mais saudáveis no ramo. Depois, há o Digital Concert Hall: o mais bem-sucedido projeto de apresentação orquestral ao vivo via streaming na web. É um sinal dos tempos que o conjunto mais marcado pela tradição do mundo seja agora um desbravador na web, abrindo os salões sagrados da Filarmônica de Berlim a uma audiência bem mais ampla.

Não que as orquestras britânicas tenham sido negligentes. Criado em 2000, o LSO Live, o selo de gravação próprio da London Symphony Orchestra, é o primeiro e melhor de seu gênero na Grã-Bretanha. Suas gravações são de primeira ordem e conseguem dar lucro.

Atualmente. a performance mais cintilante veio por cortesia da Orquestra do Festival de Lucerna, criada por Claudio Abbado em 2003, como um encontro amigável anual; seu ciclo de Mahler estabeleceu novos padrões de insight e intensidade. E há o grande fenômeno musical clássico em décadas: El Sistema, da Venezuela, que usa a música como um instrumento de mudança social, transformando as vidas de milhares de jovens, tirando-os da pobreza, dando-lhes esperança - além de demonstrar que a música clássica não precisa ser reduto exclusivo de uma elite social.

Foi somente no fim desta década que El Sistema ganhou destaque na Grã-Bretanha, graças ao virtuosismo da regência de Gustavo Dudamel e o brilho da Orquestra Jovem Simon Bolívar, o conjunto que é o carro-chefe de El Sistema. Sua apresentação no festival Proms, em 2007, foi o acontecimento da década neste país. Até o governo tomou conhecimento, criando projetos-piloto espelhados em El Sistema na Escócia e na Inglaterra, e concedendo à educação musical um orçamento fechado numa escala desconhecida há décadas.

E quanto aos próximos 10 anos? São grandes os desafios. As empresas fonográficas viveram tempos difíceis no setor clássico, tentando encontrar uma maneira de aproveitar a internet e fazer lucro; há grandes dúvidas sobre como a educação musical sobreviverá aos duros cortes orçamentários e a um possível governo conservador; e cada orquestra, casa de ópera e produtor terá de lutar como nunca por financiamentos. Mas há esperança. Os fãs de música clássica jamais estiveram tão bem servidos tanto online como nas salas de concerto. Tudo graças à imaginação e energia de uma nova geração de intérpretes e compositores.

Os Regentes

Nas salas de concerto da Grã-Bretanha, as coisas mudaram para melhor. Pela primeira vez em uma geração, praticamente inexiste um elo fraco em qualquer relacionamento entre os maestros e suas orquestras: a City of Birmingham Symphony Orchestra sob Sakari Oramo e agora Andris Nelsons; a Bournemouth Symphony Orchestra com Kirill Karabits; a Halle com Mark Elder; a Royal Liverpool Philharmonic com Vasily Petrenko; a Northern Sinfonia com Thomas Zehetmair.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.