Todos os jogos da Mostra

O maior evento de cinema da cidade decola sob o signo do futebol, com À Procura de Eric, de Ken Loach, hoje, para convidados. A partir de amanhã e até o dia 5, serão 424 filmes de todos os gêneros e procedências. A 33.ª Mostra celebra a diversidade

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

22 de outubro de 2009 | 00h00

Em ano anterior à Copa do Mundo, a 33ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo inicia-se hoje sob o signo do futebol. O longa de estreia, que abre o evento para convidados, traz a assinatura de um dos últimos - o último?- grandes remanescentes do cinema de esquerda no mundo, o inglês Ken Loach. Não é o primeiro tributo do artista à arte do futebol. Em seu episódio para A Cada Um Seu Cinema, Loach já filmara aquele pai e aquele filho que, indecisos diante das ofertas de um cinema multitelas, preferiam correr ao estádio e ver seu time jogar. Agora, com À Procura de Eric, Loach e seu roteirista, Paul Laverty, voltam ao gramado para metaforizar vida e cinema.

À Procura de Eric conta a história deste Eric Bishop, sujeito cuja vida está uma confusão. No auge da descrença pessoal, o carteiro abandonado pela mulher recebe a visita de seu anjo da guarda e ele é ninguém menos do que Eric Cantona, o astro francês do futebol. Num mundo competitivo - a economia de mercado privilegia a individualidade -, um Eric vem mostrar ao outro o valor da solidariedade. O grupo é mais importante, e no retângulo do gramado, os mais belos gols de Cantona são aqueles resultantes de passes que ele coloca aos pés dos colegas de equipe.

Será um bom, um belo começo para a Mostra, que chega à idade de Cristo não mais como o único evento do gênero no País. O Festival do Rio, um mês antes, tem o mesmo perfil - uma grande mostra internacional de filmes, trazendo as novas tendências do cinema mundial para o cinéfilo brasileiro. São centenas de filmes, mais da metade chega agora aqui de segunda mão, já estreados no País, e muitos críticos acham que não há curadoria nisso. Filmes, filmes, filmes - serão exatamente 424, em 25 locais de exibição, até dia 5. Já virou lugar comum referir-se à Mostra como uma maratona, que é, bem entendido, uma modalidade esportiva (e olímpica). Para continuar no esporte, o futebol estará de volta à Mostra e logo de cara, no primeiro dia para o público (amanhã).

Só que, em vez da celebração da experiência coletiva, o outro grande filme futebolístico nasce do encontro de individualidades exacerbadas - é bom ir logo dizendo, de dois megalomaníacos. Maradona pode não ser o maior jogador do mundo - quem, no Brasil, vai avalizar que o seja? -, mas ele acha que é e seus tietes também, porque o reverenciam como a um santo. Emir Kusturica usa o mito do maior jogador do mundo para falar de si, como o maior diretor do mundo, "king of the world".

Por falar em grandes diretores, a 33ª Mostra traz os novos filmes que você está morrendo de vontade de ver. O novo Pedro Almodóvar (Abraços Partidos), o novo Alain Resnais (Les Herbes Folles), o novo Michael Haneke (A Fita Branca). Como sempre, esses filmes são os primeiros a se esgotar, em termos de ingressos vendidos antecipadamente, mas isso é pura ejaculação precoce dos cinéfilos, porque todos terão distribuição assegurada no Brasil e vão estrear em seguida. Por isso, talvez seja melhor privilegiar as apostas, os filmes talvez menos conhecidos, mas de alta qualidade, como os dez que o Estado aponta para você nas páginas seguintes. Existe até a mais arriscada das apostas - se você tivesse de escolher um, e apenas um destes mais de 400 filmes para ver, qual seria? O Caderno 2 lhe aponta o mapa da mina, o filme que você absolutamente não pode perder.

E existem as homenagens - ao diretor grego Theo Angelopoulos, que a Mostra revelou no País e agora contempla com retrospectiva. A Fanny Ardant, derradeira musa de Truffaut e que estreia na direção com Cinzas e Sangue. O filme é decepcionante, mas Fanny, que desembarca aqui sob os auspícios do ano da França no Brasil, é uma personalidade suficientemente forte para virar, quem sabe, a musa da própria Mostra de 2009. E há o italiano Gian Vittorio Baldi, quase desconhecido por aqui, mas que, além de ator de Renato Castellani em No Limiar da Realidade (Il Sogno nel Cassetto), de 1956 - fazia o médico -, virou documentarista de obras críticas e engajadas. Preparado? Vai ser dada a largada. Corra para a Mostra.

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