Vannuchi diz que há defesa da volta dos DOI-Codis

Ministro compara as críticas ao Programa Nacional de Direitos Humanos a um movimento pró-ditadura

Wilson Tosta, enviado especial em Porto Alegre, O Estadao de S.Paulo

28 de janeiro de 2010 | 00h00

O secretário especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, comparou ontem críticas ao 3º Programa Nacional de Direitos Humanos à defesa da volta dos DOI-Codis, órgãos de repressão do período mais fechado da ditadura 1964-1985, nos quais ocorreram assassinatos, desaparecimentos e tortura de opositores ao regime. Segundo ele, em artigo na imprensa, um jurista, que não identificou, para atacar o PNDH-3 e o próprio Vannuchi, lembrou uma resenha em que crítico literário Agripino Grieco, ao se referir a uma obra de poesia, recomendava que se queimasse o livro e, se seu autor insistisse em escrever, que o queimassem também. Para ele, a frase mostrou uma disposição pró-ditadura, que criticou, durante participação na oficina Trabalho escravo: o quanto já caminhamos e o que falta fazer?, incorporada ao Fórum Social Mundial.

"Não tinha lido, nos últimos anos, uma confissão tão clara de que, se for preciso construir DOI-Codis de novo, vamos construir DOI-Codis de novo", declarou o secretário, em referência aos Destacamentos de Operações de Informações - Centros de Operações de Defesa Interna, organismos de repressão política comandados pelo Exército nos anos 70, sobre cujos ex-integrantes pesam acusações de tortura e assassinato.

Em entrevista, Vannuchi amenizou o discurso. "Puxa vida, 21 anos de reconstrução democrática, e ainda existem pensamentos que ecoam a ideia de que, na diferença, não aceito opinião diferente da minha, e, se a pessoa insistir, queime-se quem faz a defesa. Está errado, é preciso conviver, o Fórum Social Mundial é uma grande demonstração disso, há pluralidade, há divergência."

O secretário afirmou ser bom que "esses segmentos utilizem atualmente o instrumento da notícia na imprensa, de articulação de uma ofensiva como essa, porque em outros momentos da história se utilizaram de dispositivos muito menos democráticos do que esses". Foi nesse contexto que acusou seus críticos de quererem a volta dos órgãos de repressão

MANIFESTAÇÃO

Vannuchi aproveitou a oficina para rebater críticas ao PNDH-3 e para criticar a imprensa. "Fui lembrado como terrorista, uma revista disse "não conseguiu no revólver, quer conseguir na caneta"", reclamou. Ele negou que a proposta de criar a Comissão da Verdade, que investigaria crimes ocorridos na ditadura, tivesse como objetivo revogar a Lei de Anistia. "Bastava ler, está lá, com todas as letras, né, "observadas as disposições da lei 6.683", ou bastava o colega jornalista, quem sabe o editor, ir lá e ler, se quisesse noticiar direitinho, ver que não é contra a Lei de Anistia, havia um amplo consenso de não revisar a anistia." Segundo ele, os ataques que sofreu tiveram, em algumas publicações, "pequenas características de linchamento". "Não vamos reagir com o mesmo espírito de ataque a quem nos chamou de revanchista, procurar uma palavra equivalente, porque em direitos humanos o instrumento é o diálogo, a explicação paciente, perseverante, reconhecendo a alteridade", pregou.

Segundo Vannuchi, a discussão sobre a ditadura não é revanche. "Ninguém está preocupado em jogar ninguém na masmorra, para que morra lá. Pelo contrário, se quer jogar luz, conhecer para não deixar acontecer outra vez", afirmou, sob aplausos. Apesar de elogiar a composição do grupo de trabalho que preparará o projeto de criação da comissão, Vannuchi previu dificuldades internas para chegar a uma proposta de consenso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.