A vida das mulheres com câncer de ovário depende de melhorias urgentes no manejo da doença no SUS

A efetiva incorporação de novas tecnologias e a criação de linhas de cuidado específicas representam passos fundamentais para transformar a realidade das pessoas com câncer de ovário no Brasil

Por Andrea Paiva Gadelha Guimarães

Terceiro tumor ginecológico mais incidente entre as brasileiras, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de ovário apresenta desafios significativos desde o início da jornada da paciente. A falta de um método de rastreamento eficaz, a não existência de um exame específico para diagnóstico e a inespecificidade dos sintomas estão entre os principais fatores responsáveis pelo alto número de diagnósticos tardios, correspondendo a 77% dos casos, bem como pela alta taxa de mortalidade da doença.

Tendo em vista esse cenário alarmante, faz-se necessário avaliar os cuidados atuais oferecidos às pacientes com câncer de ovário no Sistema Único de Saúde (SUS), identificando desafios e gargalos, além de fomentar estratégias de melhorias que garantam às pessoas com câncer de ovário maior equidade, agilidade e qualidade no cuidado oncológico.

Nesse sentido, foi criado o Projeto Agnes, conduzido pela consultoria PEV, com apoio de entidades como Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), Instituto Oncoguia e Instituto Vencer o Câncer (Ivoc) e patrocinado pela AstraZeneca, para analisar os principais entraves da jornada do câncer de ovário no Brasil, a partir da perspectiva de especialistas, como oncologistas, ginecologistas, cirurgiões, gestores e representantes de associação de pacientes. Entre os pontos críticos identificados estão: a baixa valorização dos sintomas iniciais por pacientes e profissionais de saúde, limitações na qualidade da avaliação diagnóstica por imagem, escassez de recursos para exames anatomopatológicos, acesso restrito a testes genéticos e longos períodos de espera para consultas, cirurgias e início de tratamento especializado.

Dados de 2014 a 2019 do Registro Hospitalar de Câncer corroboram os achados, visto que o tempo médio entre a primeira consulta com o especialista da atenção primária até o diagnóstico do câncer de ovário era de 45 dias. Já a média de tempo entre diagnóstico e tratamento foi de 44 dias. No Brasil, a Lei 13.896/2019 determina que o tempo de diagnóstico deve ser de até 30 dias e a Lei 12.732/2012 determina que o tempo para início do tratamento, a partir do diagnóstico, deve ser de até 60 dias.

Para aprimorar esse percurso, o Projeto Agnes propõe a criação de uma Linha de Cuidado Integrada para Câncer de Ovário, inspirada no modelo já existente para câncer de mama no SUS, que trouxe benefícios comprovados. Além disso, sugere a implementação de uma Política de Estruturação de Centros de Referência, voltados ao cuidado rápido, eficaz e integral. Essa proposta deverá ser apresentada ao Ministério da Saúde para avaliação.

Outro avanço relevante é a recente recomendação da Conitec para incorporação do teste genético para BRCA no SUS, junto a uma nova opção terapêutica para pacientes com mutação. Considerando que o câncer epitelial corresponde a 95% dos casos de câncer de ovário e que cerca de 25% destes estão associados a mutações em BRCA1 e BRCA2, a testagem genética tem papel fundamental no diagnóstico precoce, prevenção em familiares e definição de terapias personalizadas.

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Assim, recomenda-se que mulheres com câncer de ovário epitelial e/ou histórico familiar de câncer associado a mutações em BRCA1/2 realizem avaliação genética. A identificação dessas alterações germinativas permite: prever riscos individuais e familiares, indicar estratégias de prevenção, otimizar o prognóstico, direcionar precocemente para biópsia diagnóstica, e definir terapias personalizadas com maior eficácia e menores taxas de recidiva.

Em outubro de 2024, a inclusão dessas tecnologias foi aprovada pela Conitec. Pela legislação, o Ministério da Saúde teria até abril de 2025 para efetivar a oferta, mas o processo de disponibilização plena ainda não foi concretizado. Isso reforça a necessidade de definir uma Política Nacional e uma Linha de Cuidado para Câncer Hereditário, que estabeleça fluxos de coleta e análise de amostras, disponibilização de resultados, qualificação de profissionais e oferta de aconselhamento genético, orientação de estratégias personalizadas, com apoio de ferramentas diversas, dentre elas, a telemedicina.

A efetiva incorporação de novas tecnologias e a criação de linhas de cuidado específicas representam passos fundamentais para transformar a realidade das pessoas com câncer de ovário no Brasil.

Opinião por Andrea Paiva Gadelha Guimarães

Oncologista clínica, líder da Oncoginecologia do A.C. Camargo Cancer Center, presidente do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA), é membro do Comitê de Relações entre Sociedades da SBOC

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