Educação pública para as infâncias

É fundamental resgatar a natureza sensível dos professores da educação infantil, favorecendo a eles a conexão com sua própria porção criança

Por Bruna Astrini e Patricia Araujo

As infâncias guardam a potência do olhar inaugural para o mundo. As sensações, pessoas, lugares, cheiros, formas, texturas, cores e cada detalhe de tudo o que uma criança vive têm a intensidade de uma primeira vez. Infância é ponto de partida. Estudos científicos têm demonstrado que as experiências vividas nessa etapa são fundamentais para o desenvolvimento integral de meninas e meninos e, consequentemente, geram impactos positivos para toda a sociedade.

Neste contexto, entende-se que a escola pública é um espaço já organizado em grande escala para acolher diariamente as crianças em todas as suas necessidades, promover boas experiências, lançar desafios individuais e coletivos, exercitar habilidades socioemocionais e ampliar o repertório nos primeiros anos de sua vida. A etapa da educação infantil na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada pelo Ministério da Educação em 2017, prioriza as interações e a brincadeira, evidenciando que são fundamentais para as aprendizagens, o desenvolvimento e a socialização das crianças de até seis anos. O documento destaca seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento que devem ser assegurados ao longo da educação infantil: conviver, brincar, participar, explorar, expressar, conhecer-se.

O Brasil tem avançado no que diz respeito ao acesso à educação infantil. Segundo a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, entre 2005 e 2023 houve um crescimento de 14,4% no total de crianças de até 3 anos matriculadas nas creches e um crescimento de 18% no total de crianças matriculadas na pré-escola. Mais de 90% das crianças de 4 e 5 anos de idade estão na escola. No entanto, para além do ingresso e da permanência, existe uma questão que incomoda e é urgente: quais são os adultos que acompanham diariamente as crianças nas escolas? Como estão sendo formados e acompanhados os profissionais da educação infantil pública no nosso País?

Sob a perspectiva de uma concepção de infância que considera o protagonismo de cada indivíduo, a observação, o questionamento, o levantamento de hipóteses e conclusões como aspectos intrinsecamente relacionados à construção de conhecimento nessa faixa etária, é imprescindível garantir aos professores das escolas de educação infantil uma formação integral.

É fundamental uma capacitação que envolva as dimensões física, emocional, intelectual, cultural e social, que contribua com o resgate de sua própria natureza sensível, favorecendo ao educador a conexão com sua própria porção criança. Para o filósofo Renato Nogueira, este seria o estado de infância. Manoel de Barros falaria de suas raízes crianceiras. A sensibilidade em perceber o extraordinário na vida simples do cotidiano é o principal fio de entrelaçamento do adulto com a criança. A verdade é que a infância é uma fase essencial na constituição de todos nós, principalmente educadores que se comprometem a conviver com os pequenos diariamente na escola. Além de todo o resto, é preciso arte e poesia. É preciso tempo tranquilo e escuta ativa para quem acolhe diariamente o pulsar, o brincar, o olhar curioso, as miudezas e riquezas que permeiam a sala de aula na educação infantil. O encontro consigo mesmo e com seus pares, sem pressa, pode ser transformador. Não há protagonismo das crianças se os professores que as acompanham não estiverem imbuídos de autoconhecimento e responsabilidade para com as infâncias.

A intencionalidade pedagógica nessa etapa escolar consiste na organização e proposição, pelo educador, de experiências que permitam às crianças conhecer a si e ao outro e conhecer e compreender as relações com a natureza, com a cultura e com a produção científica, que se traduzem nas práticas de cuidados pessoais (alimentar-se, vestir-se, higienizar-se), nas brincadeiras, nas experimentações com materiais variados, na aproximação com a literatura e no encontro com as pessoas.

Segundo o professor e doutor em ciências da educação António Nóvoa, os educadores precisam ter garantidos espaços e tempos para um trabalho de autoconhecimento, autorreflexão, de maneira que partam de suas histórias pessoais de vida, da sua subjetividade, para então formar sua identidade profissional. O professor é indissociável da pessoa, é com toda a bagagem de vida que o educador chega ao chão da escola.

Em muitas escolas públicas, observamos crianças sentadas em cadeiras durante quatro horas seguidas, em silêncio, sem grandes interações com o outro ou mesmo com o professor. Não sabem do que gostam, quais são suas dificuldades, não se reconhecem. Um professor que não esteja absolutamente seguro de si e de suas próprias qualidades e desafios não alcança toda a grandeza das infâncias. Formar bem os educadores é permitir que o professor encontre sua melhor versão para conviver cotidianamente com as crianças, sem boicotar a alegria indissociável desse tempo. O futuro da nossa sociedade depende da educação pública para as infâncias. É nosso dever, como sociedade civil, batalhar por esta excelência.

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EDUCADORAS, SÃO COFUNDADORAS DO CENTRO EDUCATIVO IGARAPÉ

Opinião por Bruna Astrini e Patricia Araujo