O que está em jogo nas eleições israelenses

O horizonte provável aponta para uma espiral de pleitos sucessivos, perpetuando Netanyahu no poder interino

Por João Miragaya

Nesta terça-feira, 27, teremos pela 26.ª vez as eleições para o Parlamento israelense (Knesset). Por se tratar de um regime parlamentarista, o pleito decidirá também a composição do próximo governo. A situação é complexa: pesquisas de intenção de voto apontam a derrota de Benjamin Netanyahu – que soma intermitentes 18 anos na chefia do Executivo –, mas não garantem à oposição um cenário claro de substituição. Confirmadas as tendências, os partidos opositores conquistarão a maioria dos assentos, mas carecem de um acordo para selar uma coalizão governista. Em Israel, o processo político nunca termina com a apuração: até que o governo seja empossado, tudo pode acontecer.

Para compreender as singularidades do espectro político israelense, é preciso recorrer à História. Até o início deste século, o país seguia a tendência das democracias liberais: a polarização entre dois grandes blocos, a esquerda trabalhista e a direita conservadora, ambos de forte cunho nacionalista (sionista). A predominância da esquerda até o fim dos anos 1970 deu lugar a uma quase hegemonia da direita nas décadas seguintes. O diferencial do sistema israelense reside nos pequenos e médios partidos, geralmente setoriais, que representam minorias étnicas ou religiosas e gozam de um poder desproporcional. Como as grandes legendas jamais alcançaram maioria absoluta, essas facções menores frequentemente controlavam pautas cruciais, mesmo que contrárias à preferência da maior parte da população – uma dinâmica que persiste.

A queda da URSS e a crise global da esquerda nos anos 90 também afetaram o Partido Trabalhista local. No entanto, ao contrário do que houve em outras paragens, a esquerda israelense soube se reinventar. Parafraseando o historiador Micha Goodman, a identidade de classe foi substituída pela solidariedade entre os povos e a revolução socialista deu espaço à busca pela paz global. Shimon Peres, o ideólogo dessa transição, uniu o sentimento de coletividade clássico a punhados de liberalismo. Sua obra Um Novo Oriente Médio, que previa a paz como destino inevitável após a guerra fria, o transformou em uma espécie de Fukuyama israelense.

A estratégia funcionou, e a esquerda interrompeu a dominância da direita vencendo duas eleições naquela década. O eixo ideológico mudou: a disputa já não opunha socialistas e liberais, mas sim os defensores de acordos de paz com devolução de territórios e os que rejeitavam a proposta por segurança ou dogma religioso. Contudo, o fracasso das negociações em 2000 e a ascensão de forças extremistas religiosas, tanto em Israel como na Palestina, mergulharam a esquerda numa crise tardia.

Desde 2000, salvo por breves hiatos de coalizões de centro, a direita sionista impôs uma sólida hegemonia, quase sempre sob a liderança de Netanyahu. Se na primeira metade da década passada suas alianças ainda incluíam o centro e a centro-esquerda para aproximá-lo do mainstream, o isolamento político decorrente de seus processos por corrupção mudou o cenário. Para sobreviver, Bibi recorreu a grupos extremistas religiosos outrora considerados ilegítimos por seu próprio partido. Seu discurso radicalizou-se, incorporando a incitação contra a esquerda e a minoria árabe. Em contrapartida, a oposição passou a abrigar antigos aliados do primeiro-ministro, como Avigdor Liberman e Naftali Bennett. Gradualmente, a polarização programática tradicional esmaeceu, dando lugar à dicotomia pura entre os blocos pró e anti-Netanyahu.

Hoje, há um consenso claro de que é impossível emergir deste pleito um governo de união nacional. Além do clima de hostilidade cultivado nos últimos anos, os traumas de 7 de outubro de 2023 e a subsequente condução governamental inviabilizaram qualquer conciliação. A total recusa do governo em assumir a responsabilidade pelos erros cometidos, somada à insistência em blindar a população ultraortodoxa do alistamento militar para preservar alianças políticas, tornaram-se pautas intoleráveis. São medidas profundamente impopulares, rejeitadas inclusive por parcelas do eleitorado tradicional de Netanyahu.

Diante de projeções desfavoráveis, o primeiro-ministro acionou sua habitual retórica do medo: alega que a oposição se aliará a partidos árabes – estigmatizados por ele como apoiadores do terror – apenas para derrubá-lo, colocando a segurança nacional em risco. Com essa manobra, ele empareda os rivais e deslegitima o voto árabe, empurrando a própria oposição a declarar, antecipadamente, que não formará coalizão com tais siglas – mesmo que estas tenham condenado as atrocidades do Hamas. Sem o peso desse eleitorado, contudo, a oposição carece de números para consolidar uma maioria.

O horizonte provável aponta para uma espiral de pleitos sucessivos, perpetuando Netanyahu no poder interino. Ao capitular diante dessa estratégia de segregação, a oposição arrisca referendar o jogo de Bibi e desperdiçar uma chance histórica de superá-lo.

Opinião por João Miragaya

Assessor do Instituto Brasil-Israel, é mestre em História pela Universidade de Tel Aviv