Mais de cem mil pessoas participaram em Londres, no fim de semana passado, de um protesto anti-imigração organizado pelo ativista de extrema direita britânico Tommy Robinson, que conta com o apoio de figuras como Elon Musk, o empresário sul-africano radicado nos Estados Unidos que milita contra imigrantes. Musk, que foi assessor especial por alguns meses do governo de Donald Trump, participou do evento por videoconferência.
Batizada com o sugestivo nome de Unir o Reino (em inglês Unite the Kingdom), a marcha, oficialmente um protesto pela liberdade de expressão, serviu de veículo para Robinson professar a tese infundada de que os imigrantes têm mais direitos que os britânicos nos tribunais e de que o país está perdendo sua identidade nacional.
Quarteirões inteiros da capital britânica foram tomados por manifestantes munidos de bandeiras nacionais e cartazes com a frase “vão embora”, obrigando a polícia local a destacar contingente extra para reforçar a segurança. Participantes mais exaltados partiram para o confronto com os policiais. De acordo com o comissário-assistente da polícia metropolitana de Londres, Matt Twist, “não há dúvida de que muitos vieram para exercer o direito legal de protestar, mas muitos vieram com a intenção de agir com violência”.
Mais uma vez, os imigrantes viraram o bode expiatório de problemas estruturais que atingem diversos países em maior ou menor grau, entre os quais o aumento do custo de vida, o desaparecimento de postos de trabalho tornados obsoletos pelas novas tecnologias, a queda nas taxas de natalidade e o envelhecimento populacional.
Não há dúvida de que a solução para as questões acima é extremamente complexa. Mas se o Brexit, a saída formal do Reino Unido da União Europeia, ensina alguma coisa, é que restringir a entrada de imigrantes não resultou em melhora na vida dos britânicos.
Ao contrário. Após a oficialização do Brexit, em 2020, o Reino Unido enfrentou dificuldade para preencher vagas de trabalho para profissionais de determinadas qualificações, em geral mais baixas, que costumavam ser ocupadas por cidadãos da União Europeia. A falta de caminhoneiros, por sinal, tornou-se um símbolo do equívoco que foi o Brexit.
Mas em vez de propor uma discussão adulta sobre as aflições dos britânicos, não tão diferentes das de brasileiros, canadenses e japoneses, líderes como Robinson valem-se de eventuais crimes cometidos por imigrantes para demonizar os estrangeiros em geral, transformando-os nos responsáveis por todo e qualquer infortúnio que ocorra em seus países.
O Reino Unido, como o mundo, precisa de imigrantes. O Reino Unido, como o mundo, também tem o direito de estabelecer políticas migratórias que busquem garantir o equilíbrio interno. Contudo, fomentar o ódio ao imigrante, insuflando as massas a cometer atos violentos, não só não resolverá os dilemas estruturais das nações, como ainda tem o potencial de transformar em criminosos cidadãos frustrados que, ao fim e ao cabo, são apenas massa de manobra de líderes com pretensões autoritárias.
