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O resgate de Gaza

Conselho de Segurança da ONU finalmente aprova um plano realista, começando por reconhecer que não é possível reconstruir Gaza se os palestinos continuarem reféns dos terroristas do Hamas

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Por Notas & Informações

Após dois anos de guerra e incontáveis fracassos diplomáticos, o Conselho de Segurança da ONU aprovou, enfim, uma resolução que parece romper o círculo vicioso de Gaza. A Resolução 2803, endossando integralmente o plano de paz de 20 pontos apresentado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é o primeiro texto das Nações Unidas a exigir de forma explícita o desarmamento do Hamas e a desmilitarização da Faixa de Gaza. O que há de novo não é apenas o conteúdo, mas o consenso: 13 votos a favor, nenhum contra, apenas as abstenções de Rússia e China.

O desenho é ambicioso. Um Conselho de Paz – órgão civil e financeiro – supervisionará a reconstrução e a administração provisória de Gaza, em parceria com o Banco Mundial. A segurança ficará a cargo de uma Força Internacional de Estabilização (ISF), composta por países que, em coordenação com Israel e Egito, atuarão para restaurar a ordem, desmantelar arsenais e neutralizar milícias. Trata-se de uma tutela internacional temporária: um regime de transição para preencher o vácuo de autoridade e preparar o terreno para uma futura autogovernança palestina.

É um reconhecimento tardio de que Gaza não pode ser reconstruída sobre o mesmo alicerce que a destruiu. Nenhum investimento, nenhuma escola ou hospital resistirá, se a população de Gaza permanecer refém de terroristas. O desarmamento do Hamas não é um detalhe técnico, mas a condição sine qua non de qualquer processo político viável. A experiência do Líbano – onde a ONU tolerou o rearmamento do Hezbollah sob o pretexto da “estabilidade” – serve de advertência: uma força internacional sem mandato claro acaba protegendo o predador, não a presa.

O desafio é evitar que Gaza se torne outra dessas zonas de “paz vigiada” que congelam conflitos, em vez de resolvê-los. A ISF terá de agir com autoridade real, não apenas patrulhar escombros. O Conselho de Paz precisará combinar transparência financeira e poder decisório, de modo a impedir que a reconstrução seja capturada por facções. E a Autoridade Palestina, corrupta e esclerosada, precisará se comprometer com um processo rigoroso de regeneração. O risco é duplo: a inércia, se o medo de provocar o Hamas paralisar a força internacional; e a ingenuidade, se a pressa em devolver o controle local reinstalar o regime de terror.

Ainda assim, há razões para um otimismo cauteloso. A convergência entre os Estados Unidos, países árabes e a própria Autoridade Palestina indica um pragmatismo inédito. A visita de Mohammed bin Salman a Washington, em busca de um pacto de defesa e de garantias para a transição pós-guerra, sinaliza a possibilidade de a Arábia Saudita assumir, em troca, um papel construtivo na reconstrução de Gaza. A estabilidade do Golfo, a normalização das relações entre árabes e israelenses, a retomada dos investimentos e, no fim do processo, um Estado palestino dependem do êxito desse experimento em Gaza.

Seu sucesso será pavimentado menos por discursos do que por coerência. Se o desarmamento não ocorrer, se a ISF se mostrar tímida, se o Conselho de Paz for minado por disputas internas, o resultado será apenas mais um interregno de ruínas. Mas, se a força internacional agir com determinação e o processo de reconstrução for conduzido com profissionalismo, Gaza poderá – pela primeira vez em uma geração – sair do ciclo de destruição e revanche.

A resolução não é um milagre, mas um teste. Testa a capacidade dos árabes de cooperar entre si, a disposição de Israel de conter sua desconfiança e a seriedade dos EUA e de toda a comunidade internacional em sustentar a própria iniciativa. Testa, sobretudo, a ideia de que a paz pode ser construída sob autoridade legítima, e não sob concessões recíprocas de fraqueza.

O Oriente Médio já viu muitos planos de paz se desfazerem em pó. Este, ao menos, começa do lado certo da equação: o da ordem. Se conseguir transformar tutela em governança, e segurança em convivência, poderá marcar o início de uma era menos cínica. Se não, poderá ser lembrado como o último esforço racional antes que a região volte a ser governada, mais uma vez, pelo caos.