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Civilizar o progresso: a demanda urgente por uma inovação consciente

Reconhecimento do Nobel de 2025 aos economistas da destruição criativa convida à reinvenção do crescimento; no Brasil, a inovação de impacto mostra que verdadeiro avanço é aquele que une ciência, empatia e responsabilidade com as próximas gerações

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Por Maure Pessanha

O Nobel de Economia de 2025 premiou três economistas por explicarem o crescimento impulsionado pela inovação: Joel Mokyr mostrou que o progresso depende de instituições e valores que legitimem a ciência, enquanto Philippe Aghion e Peter Howitt construíram um racional de como o novo destrói o velho, em um ciclo permanente de destruição criativa.

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Mas esse mesmo motor de crescimento, celebrado desde Josef Schumpeter — economista austro-americano, reconhecido como um dos pensadores mais influentes sobre o papel da inovação e do empreendedorismo no capitalismo moderno —, hoje opera em um mundo que já atravessou seis dos nove limites planetários definidos pela ciência. Nesse panorama, emerge uma reflexão imediata: crescer até onde e a qual custo?

O entendimento é que a tecnologia não gera o progresso automático. É preciso um tecido institucional, uma cultura que tolere ruptura, mecanismos de financiamento e incentivos públicos. Inovação não é destino automático: é ecossistema. Isso significa que, no futuro, olharemos com mais atenção em direção a sistemas de suporte ao inovador.

Vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2025 Foto: AFP PHOTO / Northwestern Univers

Estou falando de instituições de pesquisa, do capital de risco, da regulação ágil e da construção de redes colaborativas — mais do que apenas para as tecnologias em si. Ambientes muito seguros, regulatórios rígidos ou com baixa tolerância ao fracasso tendem a asfixiar experimentações de alto impacto.

Um dos grandes desafios dos ecossistemas emergentes, como o brasileiro, será aumentar a densidade de risco inteligente, permitindo microrrupturas que aceitam o erro como aprendizado. Um ambiente que crie estratégias de descontinuidade organizada para antecipar rupturas internas em vez de apenas reagir às externas.

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A tal destruição criativa implica que inovações substituirão modelos, empresas e padrões anteriores — um processo doloroso para os que ficam obsoletos. Em termos comportamentais, ocorrerão disputas intensas por narrativas de valor, resistência de incumbentes e pressão por políticas de transição justa para trabalhadores afetados.

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Aghion, Howitt e Mokyr lembram que a competição e o risco são combustíveis indispensáveis do ciclo de inovação, e que o verdadeiro papel das políticas públicas é orquestrar as condições para o novo poder florescer sem anular o que ainda é essencial para a coesão social.

A geopolítica da inovação também se impõe. Quem estiver no centro da política tecnológica terá poder: quem define incentivos para inteligência artificial, biotecnologia, energias limpas ou infraestrutura digital, em grande medida, define o futuro econômico. Por isso, observar quem controla os marcos regulatórios, os créditos de P&D e as parcerias internacionais se tornou um novo modo de ler o mapa do poder global. Países que ficarem à margem da liderança tecnológica estão expostos ao risco não apenas da dependência, mas da irrelevância.

Há ainda um risco interno: o avanço tecnológico tende a se concentrar em polos fortes — universidades, clusters, regiões metropolitanas — enquanto outras áreas enfrentam desertificação econômica. O futuro pode se fragmentar em “ilhas inteligentes” dentro de países com bolsões de obsolescência, criando tensões políticas e demandando políticas de coesão tecnológica. Mokyr, por sua vez, recorda que a ciência só prospera quando há legitimidade social para o risco.

Inovar é também um ato cultural: exige confiança nas instituições científicas, narrativas de progresso e tolerância social ao fracasso. Sociedades com medo de errar raramente conseguem transformar.

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Os outros Nobel deste ano reforçam esse chamado à coerência. A Química, premiando tecnologias capazes de capturar carbono e purificar água, mostra que inovação pode regenerar. A Medicina, com descobertas sobre células reguladoras, amplia o alcance do cuidado — mas também escancara desigualdades de acesso.

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A Física, ao premiar avanços em circuitos quânticos, aponta para um futuro de poder tecnológico concentrado. E a Literatura, com László Krasznahorkai, oferece o contraponto poético: um olhar sobre o caos contemporâneo e a necessidade de sentido. Na minha leitura simples sobre os laureados em 2025, eles contam uma mesma história: a inovação precisa reaprender a servir à vida.

Do nosso lado da história, o Brasil vive um momento decisivo. Temos biodiversidade, capital humano e diversidade cultural capazes de inspirar modelos de inovação regenerativa; temos tecnologias que não somente reduzem danos, mas restauram ecossistemas e redistribuem valor.

As inovações — sejam elas incrementais, de manutenção ou criadoras de novos mercados, como sugere o professor Clayton Christensen — têm origem em ambientes e contextos variados, levantando necessidades de diferentes naturezas.

Dada a complexidade e a heterogeneidade do processo de inovação, cabe a governos, instituições financeiras, comunidade acadêmica, órgãos de fomento, empresas e empreendedores a responsabilidade de cocriar e utilizar novos instrumentos que deem suporte ao ecossistema de inovação nacional. O avanço dependerá de coragem institucional: ampliar instrumentos financeiros, aproximar a ciência e a política industrial para garantir que o “direito de inovar” não seja privilégio de poucos. Se o mundo desenvolvido fala em transição verde, o Brasil precisa falar em transição justa: inovar para corrigir desigualdades, não apenas para competir em mercados de carbono.

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Na minha visão, o verdadeiro futuro não será mais veloz — sim, mais sábio. Civilizar o progresso é entender que inovar não é produzir mais, mas com consciência dos limites ecológicos, humanos e morais. O Nobel de 2025, ao celebrar os arquitetos do crescimento, entrega à humanidade um espelho e um alerta: a era das inovações sem freio está acabando.

Nesse novo tempo, os negócios de impacto assumem um papel essencial. São os guardiões de uma consciência que reconhece a inovação como força de comunhão humana — a capacidade de sonhar coletivamente e construir pontes entre mundos.

Empreendedores de impacto não são apenas criadores de soluções, mas curadores de sentidos: trazem o humano de volta ao centro das decisões econômicas e lembram que toda tecnologia é, em última instância, uma escolha moral.

Em tempos fraturados, essa postura ganha ainda mais valor. A futurista britânica Adah Parris define esse espírito como o poder de ser um bom ancestral. Ela nos fala que ao tornar o invisível visível, somos capazes de descobrir conexões e possibilidades ocultas que têm o poder de transformar a forma como vemos o mundo. Trata-se de trazer o passado para o presente e criar um futuro melhor para as próximas gerações.

Os negócios de impacto nos ajudam a escutar esse chamado: o de um progresso reconciliado com a vida, onde inovar é também cuidar, sonhar e legar.

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Opinião por Maure Pessanha

Coempreendedora e presidente do Conselho da Artemisia, organização pioneira no Brasil no fomento e na disseminação de negócios de impacto social e ambiental

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