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Opinião|As revelações da seca extrema

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Há semanas recebo fotografias tiradas da janela de um apartamento em Manaus e em todas elas parece cair uma chuva forte sobre a cidade. “É fumaça, a cidade tá toda cheia de fumaça”, respondeu minha remetente quando o grave quadro da seca no Amazonas, a maior em mais de um século, ainda não havia se tornado notícia nacional. Os relatos vinham acompanhados da surpresa por localidades próximas começarem a ficar inacessíveis, já que os níveis dos rios estavam baixando e a maioria dos trajetos para esses lugares são realizados em barcos.

Cibele Alexandre Uchoa Foto: Arquivo pessoal

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Dias depois começaram a surgir as primeiras notícias nos meios de maior abrangência, incluindo o assunto do momento, as pedras Ühtã Hori (expressão na língua Tukano para gravuras rupestres), que não apareciam desde a seca de 2010, e outros rastros arqueológicos anteriormente submersos. São gravuras rupestres com datação entre mil e dois mil anos em Manaus e em Urucará, urnas funerárias cerâmicas no sítio Costa do Goiabeira, em Anamã, e uma construção do século XVIII conhecida apenas por registros históricos, o Forte São Francisco Xavier, em Tabatinga. Esses vestígios ficaram visíveis após a redução do nível das águas dos Rios Negro, Solimões e Amazonas.

As mudanças climáticas extremas resultantes do aquecimento global têm mostrado diversos vestígios de nossa ocupação no planeta e até anteriores à humanidade. Em 2022 foram diversas ocorrências, e estes são apenas alguns exemplos: pegadas de dinossauros de aproximadamente 113 milhões de anos no Dinosaur Valley State Park, no Texas, voltaram a ficar visíveis, o que não acontecia desde o ano 2000; uma cidade do Império Mitani, de meados de 1.800 a.C., na Idade do Bronze, apareceu no Iraque após o baixo nível das águas do Rio Tigre; as pedras da fome, gravadas para indicar os níveis de água em diversos lugares do continente europeu, voltaram a aparecer no Rio Elba, na República Tcheca, mostrando registros como o que diz “se você me vir, chore”, de 1616.

Essas descobertas arqueológicas e paleontológicas tanto despertam o interesse do público como movem instituições e pesquisadores à análise dos vestígios. Em Manaus, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN já mobilizou recursos e pessoal especializado para o estudo e registro dos locais de interesse. Afinal, não é sempre que esses lugares estão à disposição dos pesquisadores, e quanto mais conhecermos sobre o planeta em que vivemos e sobre o nosso passado comum, melhor.

Acontece que a mobilização desses recursos costuma ser pontual. Mesmo que esses locais fossem acessíveis por boa parte do ano, o interesse dispensado provavelmente seria reduzido a quase zero em questão de semanas, além de os recursos serem limitadíssimos, como ocorre em outros sítios arqueológicos e paleontológicos brasileiros. Se não houver uma comunidade no entorno disposta a resguardar esses bens, é bem provável que ninguém o faça ou que os recursos para proteção e difusão sejam escassos.

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Sítios que deveriam despertar o interesse de diversos públicos acabam recebendo mais visitantes estrangeiros que brasileiros, mesmo com o baixo investimento em preservação e estrutura. Há menos de um mês estive nos sítios Lajedo de Soledade, na Chapada do Apodi, no Rio Grande do Norte, e Vale dos Dinossauros, localizado na Bacia do Rio do Peixe – em Sousa, na Paraíba –, cujo único indício de que em algum lugar há água é a existência de juazeiros, árvores frondosas da Caatinga que mantém suas folhas verdes por suas raízes alcançarem o lençol freático.

Esses sítios têm em comum serem objetos de pesquisas internacionais e a localização no sertão nordestino em lugares onde a água deveria aparecer pelo menos em períodos específicos do ano, além da precariedade, desde a estrutura dos atrativos e dos museus recém reformados e seus condutores até a preservação dos vestígios arqueológicos e paleontológicos propriamente ditos.

Mesmo a Serra da Capivara, que abriga a maior concentração de pinturas rupestres do mundo, detém o título de Parque Nacional protegido pelo IPHAN e consta na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, dependeu de dedicação e luta de forma integral. Não fosse a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, que dedicou 50 anos de sua vida à defesa da região, estabeleceu convênios nacionais e internacionais e integrou a comunidade nas ações de salvaguarda, difusão e turismo, é provável que o parque piauiense estivesse em condições similares ao Lajedo de Soledade, ao Vale dos Dinossauros ou a tantos outros sítios que enfrentam as intempéries da falta de interesse e dos poucos aportes financeiros.

As muitas manchetes dos últimos dias, estampadas com frases iniciadas com “seca extrema revela” mostram o poder humano de destruição da natureza. A seca no sertão nordestino traz à tona o desconhecimento e o desinteresse por nosso próprio patrimônio arqueológico e paleontológico. Quantos sítios veremos (ou nem perceberemos) serem quase esquecidos mesmo quando são referências de estudos internacionais?

*Cibele Alexandre, escritora, pesquisadora, mestre e doutoranda em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza, sócia-fundadora do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais – IBDCult

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