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Opinião|Idosos pelo clima

convidado

O Brasil já não é o país do futuro, com jovens que garantirão o adensamento populacional. Por várias razões. Quem tem juízo tem menos filhos. Ou até prefere não tê-los. Quanto custa educar uma criança, um adolescente e fazê-lo chegar ao final da Universidade para depois constatar que o diploma não é tudo? A luta pelo emprego ou pelo trabalho digno e capaz de sustentar o profissional e sua família.

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Também ocorre o lamentável fenômeno de que os jovens morrem mais. São cerca de setenta mil mortos no trânsito a cada ano. Em São Paulo, ao menos um motociclista morre a cada dia. A juventude é mais impulsiva, para não dizer imprudente.

Também são jovens as vítimas das gangues, na luta incansável pelo controle do tráfico. Tudo isso faz com que a faixa adulta, madura, da terceira idade e idosa vá aumentando. Graças também à longevidade que é privilégio de quem se cuida e aos avanços científicos garantidores de tratamentos mais especializados e de vacinas.

Por isso é que a responsabilidade dos mais velhos também aumenta em relação ao mais grave problema global que a humanidade enfrenta: as mudanças climáticas.

Em países de consciência mais apurada, são os velhos que protestam contra a inação de grande parte dos governos e a inércia do empresariado quanto às atitudes urgentes para evitar a catástrofe derradeira.

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Londres, exemplo de democracia concreta, é o palco de inúmeras manifestações dos aposentados. Os londrinos têm abraçado com fervor a causa ambiental. Têm surgido grupos de ativistas ambientais que pregam a resistência civil não violenta. Citem-se o Extinction Rebellion (XR) e o Just Stop Oil, que exigem o fim de projetos ligados a combustíveis fósseis. Dentro desses movimentos, surgem filhotes, como o braço “grandparents and elders” (avós e mais velhos), que se arriscam até a serem presos, mas não deixam de se manifestar contra a omissão governamental.

Os londrinos pedem desde melhor isolamento térmico nas casas para diminuir emissões de carbono e para isso chegam a bloquear o tráfego nas rodovias, sentando-se em silêncio nas pistas. Até pastores participam dessa cruzada, integrando o Christian Climate Action, um grupo de ação climática inspirado pelo Cristianismo.

Eles dizem que têm muito mais medo do que está acontecendo com o planeta do que de virem a ser presos pela polícia inglesa. É aterrador pensar que filhos e netos não terão futuro, exatamente porque nós, que poderíamos fazer alguma coisa, nos recusamos a fazê-la.

Em missas na Catedral de St. Paul têm sido registrados protestos silenciosos contra combustíveis fósseis. Quando pessoas com mais de oitenta anos são entrevistadas nesses encontros, e se lhes indaga porque, nessa idade, ainda têm o destemor de participar de movimentos dos quais podem resultar sanções estatais, respondem: “É gratificante estar com pessoas corajosas e inspiradoras em prol de um objetivo. Por que faço isso? Porque olho para o futuro, o que está acontecendo no mundo: inundações no Paquistão, incêndios na Austrália, fome na África, e penso: ‘estamos loucos’? Não vemos que estamos destruindo o único lar que temos?”.

Os idosos brasileiros poderiam mencionar apenas o que está acontecendo aqui, sob nossos olhos, o que não explica a inércia coletiva: desmatamento em todos os biomas, inclusive na capital paulista, onde tendem a desaparecer os últimos mananciais de água!. Inundações no litoral norte, com mortes dos que ocupavam áreas impróprias para a habitação. São sempre os mais carentes os que mais sofrem! Onda de calor que fez de 2023 o ano mais quente da história, mas do qual ainda teremos saudades, conforme nos advertem os cientistas.

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Espécies extintas, mais de um bilhão de árvores é o déficit brasileiro, as frondosas produtoras de sombra e ar ameno vão cedendo à motosserra, à especulação imobiliária, à força dos ventos que as derrubam. E nada se repõe em seu lugar. A questão climática é a mais tenebrosa.

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Como seria bom que os idosos brasileiros também se dispusessem a abraçar esta causa. Eles podem testemunhar o que era o nosso clima há algumas décadas e o que é agora. Herdaram um Brasil verde e tranquilo. Vão deixar para os seus descendentes desertos calcinantes, falta de água, falta de oxigênio, baixíssimas condições existenciais?

Os aposentados não precisam ter medo de perder emprego. Enxergam melhor do que os jovens, naquela pressa de quem pensa que juventude é um estado permanente e que a velhice não vai chegar. Talvez não chegue para eles. Porque, antes disso, há o sério risco de a vida se acabar nesta maltratada Terra.

Convidado deste artigo

Foto do autor José Renato Nalini
José Renato Nalinisaiba mais

José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo
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