O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Anderson Torres negou ter prestado assessoramento jurídico ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no plano de golpe. Torres é um dos réus do “núcleo crucial” da trama golpista e está sendo interrogado nesta terça-feira, 10, no processo criminal.
O ex-ministro reafirmou que não escreveu a minuta golpista apreendida na sua casa. Ele alega que era comum levar documentos do gabinete para casa, por causa da sobrecarga de trabalho, e que a cópia deveria ter sido “destruída há muito tempo”.
“Na verdade, ministro, não é a minuta do golpe, eu brinco que é a minuta do Google, porque está no Google até hoje. Esse documento foi entregue no meu gabinete no Ministério da Justiça e eu levava diariamente duas pastas para a minha residência, uma delas contendo a agenda do dia e outra com documentos gerais que vinham no ministério“, disse Torres. “Isso foi uma fatalidade. Eu nunca trabalhei isso. O documento era muito mal escrito. Não sei quem fez, não sei quem mandou fazer e nunca discuti esse tipo de assunto.”
A sessão do STF será retomada à tarde com depoimento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Urnas eletrônicas
No interrogatório, Torres foi cobrado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a explicar os questionamentos às urnas que fez na reunião ministerial de 5 de julho de 2022.
Em sua defesa, o ex-ministro negou ter encontrado indícios de fraude nas urnas e declarou que todas as opiniões que emitiu foram baseadas nas recomendações de segurança feitas por peritos da Polícia Federal (PF).
“Eu nunca questionei a lisura do processo eleitoral. Todas as minhas falas são em relação às sugestões de melhorias que os peritos trouxeram naqueles documentos”, argumentou.
Anderson Torres pede desculpas a Moraes por xingamentos: ‘faltei com a polidez’
Ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro é um dos oito réus em processo por tentativa de golpe.
O ex-ministro afirmou também que, quando questionado pelo ex-presidente e por outras autoridades do governo, sempre defendeu que não havia pairava nenhuma suspeita sobre o sistema de votação.
“Tecnicamente falando nós não temos nada que aponte fraude nas urnas. Nunca chegou essa notícia até mim. E quando era questionado pelo presidente ou por qualquer autoridade eu sempre passei isso. Que nós não tínhamos tecnicamente nada a dizer sobre as urnas eletrônicas.”
Torres participou da transmissão ao vivo feita por Bolsonaro no dia 29 de julho de 2021, no Palácio da Alvorada, que segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) marca o início da trama golpista. Na live, Bolsonaro fez acusações sem provas contra as urnas e a segurança do processo eleitoral.
Na reunião ministerial, Torres também atacou o Supremo Tribunal Federal. A Moraes, o ex-ministro justificou que era um momento “muito acirrado na relação entre o Executivo e o Judiciário” e se desculpou pelo tom.
“Eu fui um dos que mais me esforcei para que essa relação não se esbagaçasse. Eu tentei de todas as formas manter o diálogo, mas eu sentia uma pressão muito grande”, declarou.

Leia também
Almirante Garnier nega ter colocado tropas à disposição de Bolsonaro para o golpe: ‘ilações’; veja
Assista aos principais trechos do primeiro dia de interrogatórios no STF sobre a trama golpista
8 de Janeiro
Anderson Torres também precisou explicar por que não trouxe o celular quando se entregou à PF para ser preso preventivamente em janeiro de 2023, após os atos golpistas na Praça dos Três Poderes. Ele alegou que perdeu o aparelho e que isso prejudicou sua defesa.
“Foi momento mais duro da minha vida. Saí daqui como secretário de segurança e saiu minha prisão. Isso me deixou completamente transtornado. Eu perdi equilíbrio completamente com aquela notícia da prisão”, desabafou. “Eu não tinha nada a esconder. Tanto que forneci a senha da nuvem do celular à Polícia Federal.”
Anderson Torres diz que estava na Disney e culpa ‘falha de protocolo’ da segurança do DF no 8 de Jan
Ex-ministro da Justiça é interrogado nesta terça-feira na ação da trama golpista no STF.
Na época, ele era secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, mas estava de férias com a família nos Estados Unidos. Torres alegou que a viagem estava marcada desde julho de 2022. Ele é investigado por suspeita de omissão no 8 de Janeiro.
“Eu viajei, de certa forma, tranquilo, adotando todas as providências necessárias”, defendeu. “Do jeito que eu deixei as coisas em Brasília é inimaginável que acontecesse o que aconteceu no dia 8 de Janeiro. Houve uma falha grave no cumprimento do protocolo de ações integradas.”





