Roseann Kennedy traz os bastidores da política e da economia. Com Eduardo Barretto e Leticia Fernandes

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Tarifaço de Trump é mais guerra contra Moraes por interesse das redes que aceno ao bolsonarismo

Empresas ligadas ao presidente dos EUA processam Alexandre de Moraes por decisões contra redes

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Foto do autor Eduardo Barretto
Atualização:

Tarifa dos EUA acaba com dúvida de que comércio internacional é jogo político, diz Duquesa de Tax

No programa ‘Fala, Duquesa!’ desta semana, colunista do ‘Estadão’ reage à carta do presidente americano, Donald Trump, anunciando tarifa de 50% sobre o Brasil.

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% a produtos importados do Brasil reflete mais uma guerra de Trump com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, envolvendo interesses das plataformas sociais, do que um gesto para fortalecimento do bolsonarismo.

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Embora cite o ex-presidente Jair Bolsonaro, a medida está longe de ser um aceno a aliados do ex-presidente. Uma mostra disso é que o tarifaço impacta setores da direita fortemente ligados ao bolsonarismo, a exemplo do agronegócio. A avaliação é compartilhada por especialistas ouvidos pela Coluna do Estadão.

“O que está em jogo aí é muito mais o embate entre o grupo Trump com o Moraes por causa de decisões em relação a redes sociais do que de fato em relação ao bolsonarismo”, afirmou Rodolfo Teixeira, doutor em sociologia política pela Universidade de Brasília. E completou: “Quando o Trump foi eleito pela primeira vez, ele teve a chance de conversar mais tempo com o Bolsonaro, à época presidente, e não o fez”.

As empresas Trump Media & Technology Group, ligadas ao presidente dos EUA, processam Moraes na Justiça da Florida por supostamente censurar conteúdos publicados nessas plataformas no Brasil. Na terça-feira, 8, Moraes foi citado novamente no processo.

No documento enviado ao governo brasileiro em que anunciou a alta das tarifas de importação, Trump apontou perseguição do Brasil a Bolsonaro e reclamou de decisões do STF contra empresas norte-americanas de tecnologia.

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“(Isso ocorreu) como demonstrado recentemente pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil, que emitiu centenas de ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro”, escreveu o presidente dos EUA.

Agronegócio impactado

Como consequência econômica mais imediata, a tarifa de 50% para produtos brasileiros exportados aos EUA afetará o mercado de café e carne bovina do País, parte do agronegócio brasileiro, alinhado ao bolsonarismo.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que reúne a maior bancada da Câmara e do Senado, andou de mãos dadas com Bolsonaro ao longo do seu mandato em muitas ocasiões, divulgou nota manifestando preocupação com a decisão do presidente norte-americano.

“A medida representa um alerta ao equilíbrio das relações comerciais e políticas entre os dois países”, diz o texto. “A FPA reitera a importância de fortalecer as tratativas bilaterais, sem isolar o Brasil perante as negociações. A diplomacia é o caminho mais estratégico para a retomada das tratativas”, finaliza.

A agropecuária nacional sofrerá um “duro golpe”, afirmou o advogado Luís Garcia, sócio do MLD Advogados. “A tarifa representa um duro golpe para as exportações brasileiras, especialmente do agronegócio e de setores ligados a commodities, aprofundando a crise de confiança em meio à alta dos juros, retração de investimentos e desvalorização cambial”.

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Renata Emery, co-head da área de tributário do escritório Tozzini Freire complementa: “O aumento de tarifas tem especial impacto sobre os principais produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos, como petróleo, produtos semiacabados de ferro e aço, aeronaves e suas partes, café não torrado e carne bovina”.

Presidente dos EUA, Donald Trump Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP

Incômodo de Trump com o papel do Brasil nos Brics

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Para o cientista político Creomar de Souza, CEO da consultoria política Dharma, outro alvo de Trump na carta é a posição geopolítica do Brasil, de aproximação com a China. A medida acontece também dois dias após o líder norte-americano criticar a Cúpula do Brics e ameaçar uma guerra tarifária.

“Trump assumiu com a ideia de declarar guerra comercial a qualquer ator político que representasse, na visão dele, algum tipo de ameaça aos EUA. O Brasil parece ser uma dessas ameaças, ao integrar organizações como o Brics, em que está muito próximo à China, o grande rival americano”, avaliou Souza.

Nesta semana, o Brasil sediou a Cúpula dos Brics. O bloco foi criticado por Trump na segunda-feira, 7. “Qualquer país que se aliar às políticas antiamericanas dos Brics será cobrado com uma tarifa adicional de 10%”, afirmou o presidente dos EUA na ocasião. A tarifa anunciada para o Brasil nesta quarta-feira, 9, foi cinco vezes maior.

Análise por Eduardo Barretto

Eduardo Barretto é repórter da Coluna do Estadão. Passou por O Globo, Época, Metrópoles e Poder360. Colaborou para a Associated Press. Formado pela Universidade de Brasília, com pós-graduação pela London School of Journalism.