Gerando resumo
BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrará, em seu quarto mandato, um Congresso ainda mais conservador do que os que enfrentou em gestões anteriores, o que exigirá maior articulação com o Centrão para aprovar pautas de interesse do governo federal. O desafio também inclui garantir a eleição de aliados para as presidências da Câmara e do Senado.
O PL de Flávio Bolsonaro elegeu 121 deputados federais, um quarto das cadeiras da Câmara e um recorde histórico — em 1990, o PMDB elegeu 109 parlamentares. No Senado, o partido terá 28 integrantes, formando a maior bancada da Casa.

Partidos de esquerda, por sua vez, elegeram 124 deputados e 16 senadores. O cenário é ainda mais desfavorável do que o enfrentado por Lula em seu terceiro mandato, quando o presidente precisou ceder ministérios a partidos do Centrão para ampliar sua base de apoio no Congresso - e ainda assim sofreu derrotas em temas importantes, como na tentativa de aumentar o IOF (imposto sobre operações financeiras).
Na prática, o presidente teria de recorrer à mesma estratégia, distribuindo cargos a partidos de centro e correndo o risco de não ver isso se materializar em votos. Professora da Fundação Getulio Vargas, Luciana Veiga afirma que o grau de concessão que Lula precisará fazer é maior que a que Flávio Bolsonaro teria de fazer.
“A gente sai das urnas do primeiro turno com o Congresso mais conservador. Então, essa é a cara do Brasil que sai das urnas. Só que, se o presidente fosse Flávio Bolsonaro, a composição seria mais harmoniosa do que no caso de Lula”, diz.
Leia mais
Lula conquista virada inédita em disputa presidencial e se reelege para 4º mandato
Reeleito, Lula vê diminuir base de governadores aliados, enquanto 16 eleitos apoiaram Flávio
Com isso, continua a professora da FGV, o petista é obrigado a fazer mais concessões. “É claro que é saudável distribuir ministérios para partidos da base aliada, mas ministérios para partidos que ficam muito distantes da sua ideologia começam a comprometer mais o seu plano de governo original”, afirma Veiga.
O cientista político Carlos Ranulfo minimiza o impacto do Congresso mais à direita sobre a governabilidade de Lula. Ele lembra que, em seu terceiro mandato, o petista já enfrentou um Parlamento em que mais de 60% dos integrantes faziam algum grau de oposição a seu governo.
“Não tem muita novidade nisso. O Lula atravessou um Congresso difícil, tanto é que perdeu várias vezes. Ganhou algumas, perdeu outras. O Lula já governou com o Congresso hostil”, avalia.
“A direita controla o Congresso, mas controlava antes. O Lula, para quem já governou uma vez, governa duas. Agora, a situação é um pouco diferente dentro de Câmara ou Senado. Na Câmara, eu acho que não vai ter quase diferença nenhuma. A bancada do PL cresceu, mas ela continua sendo uma bancada minoritária. E o Centrão continua sendo a força predominante. Como foi nesse governo Lula 3″, continua.
Senado
Ranulfo lembra que, no Senado, é mais complicado. “A bancada do Senado cresceu muito. Ela tem mais pessoas próximas ao Bolsonaro. Dependendo do assunto, quase a maioria do Senado, dependendo do assunto, vai prevalecer”, diz.
No Senado, a perspectiva de bolsonaristas ganharem o comando da Casa é mais favorável. Com 28 senadores, o PL precisaria de 13 votos de aliados para conseguir maioria simples e eleger o próximo presidente - e o partido tem apoio em legendas como PP, Novo, PSDB e Republicanos. Alguns nomes já são ventilados, como o do coordenador de campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), e o da ex-ministra de Agricultura Tereza Cristina (PP-MS).
Apesar disso, lideranças do Centrão lembram que o atual presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), tem capacidade de articulação que não pode ser desprezada, e que a disputa pelo comando do Senado vai ser acirrada.
Câmara
Na Câmara, o cenário para Lula é mais positivo. O atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), conseguiu costurar, depois do primeiro turno, o apoio de um bloco de sete partidos - União, PP, PSD, Republicanos, MDB, PSDB-Cidadania, Podemos. Depois, aderiram PSB, PDT e PV. Com isso, ele já partiria de 273 deputados.
Alcolumbre e Motta foram aliados importantes de Lula ao longo do ano. O petista e o presidente do Senado estavam rompidos desde abril, quando o Senado rejeitou a indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para ocupar uma cadeira no STF. Lula atribuiu a derrota a uma estratégia conduzida pessoalmente por Alcolumbre, que defendia o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga.
Depois da reaproximação, no entanto, Alcolumbre pautou todos os projetos de interesse de Lula. Motta, por sua vez, declarou apoio ao petista para tentar ajudar seu pai, Nabor Wanderley, a se eleger senador pela Paraíba - ele terminou em terceiro.



