O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para um quarto mandato, enfrentará um cenário político desafiador com 16 dos 27 governadores eleitos apoiando seu adversário, Flávio Bolsonaro. A perda de aliados em regiões como Sudeste e Norte pode complicar a cooperação em políticas públicas. O cientista político Cláudio Couto destaca que a redução de governadores aliados pode impactar negociações no Congresso. Já Carlos Ranulfo minimiza o impacto, afirmando que governadores dependem da União e são pragmáticos.
BRASÍLIA - Eleito para um quarto mandato neste domingo, 25, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontrará um cenário político mais hostil nos governos estaduais a partir de janeiro, com 16 dos 27 governadores eleitos apoiando publicamente seu adversário nas urnas, Flávio Bolsonaro (PL).
Em 2022, o petista saiu das eleições com 11 governadores alinhados em três das cinco regiões do País - sem aliados apenas no Centro-Oeste e no Sul. Quatro anos depois, perdeu espaço também no Sudeste, depois que Renato Casagrande (PSB), eleito senador, foi substituído no Espírito Santo por Lorenzo Pazolini (Republicanos), que declarou voto em Flávio.

No Nordeste, o petista viu seu candidato ao governo de Alagoas, o ex-ministro dos Transportes Renan Filho (MDB), ser derrotado pelo ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas (PSDB). Ele foi apoiado pelo senador eleito Arthur Lira (PP), adversário da família Calheiros no Estado.
O petista também sofreu um revés no Maranhão, onde Orleans Brandão (MDB), sobrinho do governador Carlos Brandão (PSB), perdeu para o ex-prefeito de São Luís Eduardo Braide (PSD). Nos dois casos o petista conseguiu minimizar os danos, pois tanto JHC quanto Braide adotaram a neutralidade nas eleições. Raquel Lyra (PSD), reeleita em Pernambuco, também não manifestou apoio a nenhum dos dois candidatos à Presidência.
No cômputo geral, Lula terá o apoio dos governadores petistas Elmano de Freitas (CE), Jerônimo Rodrigues (BA), Cadu de Lula (RN) e Rafael Fonteles (PI), assim como de Fábio Mitidieri (SE), do PSD, e de Lucas Ribeiro (PB), do PP.
A base de governadores aliados a Lula também encolheu no Norte. O petista perdeu aliados no Pará, onde foi eleito Dr. Daniel (Podemos), e no Amapá, que será governado por Dr. Furlan (PSD). Mas ganhou apoio no Amazonas, com a eleição de Omar Aziz (PSD).
Nas outras três regiões do País, Lula não terá governadores aliados. Todos os eleitos no Sul, Sudeste e Centro-Oeste apoiaram Flávio Bolsonaro nas eleições.
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Cooperação dificultada
O cientista político Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, avalia que a redução no número de aliados pode dificultar a negociação de políticas que dependem da cooperação entre a União e os Estados.
“Pode ter alguma interferência em políticas que requerem uma lógica de cooperação em algum nível entre o governo federal e os governos locais”, afirma.
Couto lembra que os governadores costumam pressionar suas bancadas e parlamentares de seus partidos para influenciar decisões do Congresso.
“É claro que muito que venha ou não a ser decidido vai depender dessa articulação política. Assim como o lobby de setores da economia e da sociedade contam quando assuntos de seus interesses estão tramitando, a mesma coisa vale para esse lobby de governos, de governos subnacionais. E aí, ter menos governadores alinhados é um fator que tem algum peso”.
A segurança pública é uma das áreas que dependem dessa cooperação. Atualmente, o Congresso debate uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que busca ampliar a participação da União no combate ao crime e integrar a atuação das forças de segurança federais, estaduais e municipais.
Saúde, educação e infraestrutura também exigem atuação conjunta dos governos federal e estaduais.
Já o cientista político Carlos Ranulfo minimiza o baixo número de governadores alinhados a Lula. “A questão de governadores eu acho menos importante. Porque governador não quer dizer governabilidade. A Presidência não precisa de governador para governar o País”, afirma.
Ele lembra também que os governadores são pragmáticos, especialmente porque dependem da União em alguma medida, como para renegociar dívidas. “Acho pouco provável que façam oposição. Governo do Estado precisa do governo federal. Não me preocuparia muito com isso”, diz.



