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A política sem segredos

Opinião|Lula ainda carrega santinho de Bolsonaro no bolso e vice-versa, um ano depois da eleição

Presidente e ex-presidente mantêm o fogo-cruzado, uma atitude que só deveria interessar ao derrotado

Foto do author Francisco Leali

Integrantes do governo lembraram com felicidade, na semana que passou, que há um ano Luiz Inácio Lula da Silva estava eleito presidente pela terceira vez. Compartilharam fotos da festa em meio ao alívio de ver o então presidente Jair Bolsonaro derrotado, ainda que por diferença estreita. Era para ser só história para contar, mas Lula ainda segue carregando o fantasma de Bolsonaro por onde vai. O ex-presidente, na condição de inelegível, mantém a cantilena de atirar no opositor dia sim, outro também.

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Tome-se como exemplo a última semana. De sábado, 28, para cá, foi Bolsonaro falando diretamente e mal de Lula; e Lula, sem citar Bolsonaro, mas sempre fazendo referência ao governo passado e à herança que recebeu do ex.

Bolsonaro escreveu em rede social que Lula é “dissimulado”, criticou sua atuação no caso das negociações para libertação de brasileiros na Faixa de Gaza e reclamou do aumento do preço das passagens aéreas. Na segunda-feira, 30, postou: “Lula faz tudo diferente do que nos acusava e dizia que não faria e envolvendo situações muito mais delicadas” e acusou o PT de usar “mentira como combustível”.

Como político sem cargo, resta ao ex-presidente, que ainda sonha em ressurgir nas urnas, bravatear por onde passa. Já para o atual presidente, o adversário segue como referência depreciativa. Um contraponto obrigatório como quem quer sempre lembrar aos demais do que o País se livrou.

Na segunda-feira, 30, Lula começou a semana falando das “mentiras” que o adversário gostava de contar e de como pegou o Brasil “desmantelado”.

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No dia seguinte, o presidente anunciou a queda no desmatamento da Amazônia e fez questão de trazer à lembrança que seu governo estava “mudando a tendência depois de anos de descaso com o meio ambiente na gestão anterior”.

No 1º de novembro, Lula foi mais comedido. Num vídeo, comemorou com o ministro da Educação a sanção de projeto que renegocia a dívida de estudantes vinculados ao Fies. Falou que era um débito de R$ 54 bilhões e perguntou ao subordinado do MEC: “Como deixaram chegar a isso?”. O ministro Camilo Santana pegou a deixa: “Bom, nos últimos anos... esse programa se burocratizou demais”.

Mais tarde, num ato no Palácio do Planalto, foi a fez do recado ser passado pelo ministro da Justiça, Flávio Dino. Depois de Lula anunciar autorização para as Forças Armadas assumirem a segurança de portos e aeroportos no Rio de Janeiro, Dino explicou que o governo federal estava mirando nas “narcomilícias” e apontou o dedo para a gestão que se findou em dezembro de 2022. “Hoje, o que nós temos é um bloco criminoso atuando em grandes metrópoles brasileiras por irresponsabilidade de quem, nos últimos anos, não efetuou o combate sério”, disse Dino.

Os exemplos acima foram tirados de uma semana em que a política seguiu morna. Há um ano o clima pós-eleição era outro. Enquanto Lula buscava apoio parlamentar para o governo vindouro, Bolsonaro ia para as redes sociais postar vídeo pedindo desbloqueio de rodovias para o País não parar. Chegou a dizer que era preciso “ter a cabeça no lugar”.

Mal sabia ele que um ano depois a própria cabeça seria guilhotinada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelos abusos que cometeu no exercício do cargo. Para a Corte, Bolsonaro perdeu o direito de se lançar como candidato por oito anos por ter usado o Alvorada para falsear a embaixadores uma suposta fraude eleitoral e ter se apropriado do 7 de Setembro para fazer campanha.

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Nos salões brasilienses, sabe-se que adversários estão sempre afiados para indicar os erros reais ou fabricados do oponente. Na campanha, isso vai ao ápice. Lula mirou no santinho de Bolsonaro e vice-versa. Um anos depois, os dois ainda parecem carregar os santinhos do antagonista no bolso. Terminada a campanha, só deveria interessar ao derrotado manter a chama acesa. Ao vencedor impõe-se o dever de tocar o País.

Opinião por Francisco Leali

Coordenador na Sucursal do Estadão em Brasília. Jornalista, Mestre em Comunicação e pesquisador especializado em transparência pública. Escreve às sextas-feiras.

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