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Dez anos das jornadas de junho: do fim da Nova República ao nascimento da República Digital

Manifestações que tomaram as ruas do País, mobilizadas por meio de redes sociais, representaram início de um novo ciclo na história política do Brasil: o nascimento da República Digital

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Foto do author Marcelo Godoy
Foto do author Vera Rosa
Atualização:

Era noite de 21 de junho de 2013 quando o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), telefonou para seu secretário de Governo, Antonio Donato. “A direita capturou o movimento e foi para a rua”, disse ele, insistindo numa narrativa usada pelo PT à época. Abatido, Haddad repetia que seu governo havia acabado. Dois dias antes, fora emparedado por um telefonema da presidente Dilma Rousseff.

“Ô Haddad, o Eduardo Paes (então prefeito do Rio) vai suspender o reajuste da tarifa de ônibus. Só sobrou você”, afirmou Dilma, numa referência ao prefeito do Rio. Haddad, hoje ministro da Fazenda, ainda acreditava que podia resistir, pois pensava que a pauta dos protestos havia mudado, que os R$ 0,20 de aumento não eram mais importantes. Antes do telefonema de Dilma, porém, o próprio Paes havia ligado para ele. “Não vou conseguir segurar. Você vai ficar sozinho”, avisou. O petista teve de voltar atrás.

Manifestantes do Movimento Passe Livre fazem protesto contra o aumento de tarifa no centro de Sao Paulo em 13 de junho de 2013 Foto: Daniel Teixeira/Estadão

De fato, as ruas não estavam mais tomadas apenas por causa dos R$ 0,20. Junho de 2013 foi mais do que uma onda de protestos, a maior desde a redemocratização do País. O mês que abalou a política nacional deu a largada para o fim da Nova República e abriu um novo ciclo. Nasceu ali uma espécie de República Digital, na qual as redes sociais foram fundamentais para mobilizar multidões e tiveram participação em tudo: dos protestos contra a Copa de 2014 aos ataques de 8 de janeiro deste ano, que terminaram com a depredação do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). No meio do caminho, em 2016, houve o impeachment de Dilma.

As obras da Copa, a falta de Saúde e de Educação de qualidade e a raiva contra o governo do PT faziam quem nunca pensou em bloquear avenidas se manifestar. Os partidos tradicionais de esquerda tiveram de aprender que não tinham o monopólio das ruas. Nem mesmo a decisão do Movimento Passe Livre (MPL) de abandonar as mobilizações, a partir do dia 21, surtiu efeito. Os protestos continuaram. E com violência.

Militantes do PT, PC do B e outros partidos se reunem em ato de apoio ao partido na Avenida Paulista e são rechados por jovens que foram à manifestação, tomaram suas bandeiras e as rasgaram Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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As redes sociais tornavam desnecessários os caminhões de som, as estruturas sindicais, os panfletos e as velhas direções partidárias. Após o presidente do PT, Rui Falcão, anunciar que o partido estaria na manifestação para mostrar a “onda vermelha”, militantes da Juventude petista foram hostilizados na Avenida Paulista e tiveram suas bandeiras arrancadas e rasgadas para o júbilo dos que gritavam: “Sem partido!”.

O PT no governo se confundia com a ordem e sofria o repúdio de quem se ressentia de uma cidadania incompleta e de políticos que pareciam representar somente a si mesmos.

A perplexidade diante dos fatos revelava a incompreensão das mudanças provocadas no País pelo avanço da internet. Uma nova classe política saiu desses movimentos para o Legislativo e para o Executivo, levando a esses Poderes a lógica da polarização e das bolhas, não do consenso.

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Furacão

Naquele mês decisivo para o País, Donato estava no olho do furacão. Homem forte da gestão Haddad, ele testemunhou o dia em que a ira popular fez uma multidão avançar em direção ao Palácio Matarazzo, sede da Prefeitura, abandonada à própria sorte pela Polícia Militar. Era terça-feira, 18 de junho.

Manifestantes arrancaram um poste e o usaram como aríete contra uma das portas do edifício, na Rua Doutor Falcão, ao gritos de “Ei, Haddad, tomamos a cidade”. Outros gritavam sem sucesso para os colegas: “Sem violência!”.

Só não tiveram sucesso porque, horas antes, Donato mobilizara uma centena de guardas e havia vistoriado todos os pontos vulneráveis do prédio. “Fizemos barricadas. Encostamos armários nas portas e demos a ordem para que todos se trancassem no prédio, se nos atacassem. No dia anterior, manifestantes haviam depredado a Assembleia Legislativa do Rio. Eu assisti a tudo pela televisão e tive um insight: ‘Vão fazer isso amanhã em São Paulo’.”

A manifestação desceu da Praça da Sé em direção ao Viaduto do Chá. “Quebraram todos os vidros que as pedras puderam alcançar, mas não conseguiram entrar”, afirmou Donato, hoje deputado estadual.

Manifestantes tentam invadir a Prefeitura no 6.º ato contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo realizado pelo Movimento Passe Livre Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Sitiados pelas ruas, os petistas estavam atordoados. Dilma resolveu receber, no Palácio do Planalto, “os meninos do MPL”. Os jovens da esquerda autônoma vinculavam sua atuação aos piqueteiros argentinos e outros grupos que participavam do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, quando uma reunião com uma centena de pessoas decidiu fundar o MPL.

Era 2005. O primeiro ato, no final daquele ano, reuniu pouco mais de 200 pessoas contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo. Eram tão poucos que nem a PM tomou conhecimento do protesto. “Marcamos em uma praça e só depois descobrirmos que ali tinha um hospital e não poderíamos fazer barulho”, contou a geógrafa Mayara Vivian, hoje com 33 anos.

Passe Livre

Aos poucos, o movimento foi ganhando espaço nos jornais e na esquerda até se consolidar como interlocutor quando o assunto era transporte público. A estratégia era parar a cidade em busca da tarifa zero. “A tese do passe livre, que é um direito como a educação e a saúde, e, portanto, devia ser gratuito, é defensável. Mas quem já governou a cidade, e conhece seus desafios, sabe que não é assim. Não há passe de mágica”, disse Donato.

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O PT chegou a 2013 governando a maior cidade do País e encastelado no Planalto, com o terceiro mandato consecutivo na Presidência. Quando as manifestações começaram, o partido se dividiu.

Haddad logo se aliou a Geraldo Alckmin (PSDB), governador de São Paulo, para defender o reajuste do transporte e criticar os manifestantes, em razão dos atos de vandalismo nos primeiros protestos, até que, em 13 de junho, tudo mudou. A tropa de PM saiu do controle e atacou indiscriminadamente quem estava na rua para barrar o caminho de 20 mil manifestantes que saíram do centro em direção ao espigão da Paulista. A violência documentada em vídeos, fotos e relatos nas redes sociais causou uma onda de indignação.

A repórter Giuliana Vallone foi baleada no olho com uma bala de borracha por homens de um carro da Rota, na Rua Augusta. Não havia conflito e nenhuma concentração de manifestantes na ocasião Foto: Diego Zanchetta/Estadão

Jornalistas foram agredidos com cassetetes e balas de borracha disparadas à altura do rosto. A ação da PM deixou mais de uma centena de feridos. “Pode ter havido excesso? Pode. Mas havia necessidade de intervenção da Polícia Militar, pois quem estourou a primeira bomba? Quem estourou não foi a PM, foram os manifestantes. Tivemos até uma base da PM incendiada. Surgiram os black blocs”, destacou o coronel Benedito Roberto Meira, então comandante da PM e hoje vereador pelo União Brasil, em Bauru (SP).

O movimento deixava de ser por R$ 0,20 e se transformava na onda de indignação que tomou conta do País. Em três semanas, a popularidade de Dilma despencou de 57% (ótimo e bom) para 30%. A presidente tentou evitar que a onda a arrastasse como em um tsunami. No dia 24 de junho, ela convocou seis “meninos do MPL” para uma reunião no Palácio do Planalto. Ouviu deles um pedido inusitado: “Presidenta, a senhora sabe o que é repressão. É preciso que a polícia pare de bater na gente. E tem polícia do governo do PT fazendo isso.”

É preciso que a polícia pare de bater na gente. E tem polícia do governo do PT fazendo isso.”

Representantes do MPL em reunião com Dilma Rousseff, segundo relatos ao Estadão

Profecia

Os jovens queriam tirar da petista, ex-presa política durante a ditadura militar, um compromisso a favor da tarifa zero. A resposta de Dilma foi uma confissão. Mayara Vivian estava lá. “Ela disse: ‘Vocês acham que eu consigo convencer o pessoal que a gente pôs na classe média a deixar o carro em casa?’.”

Não era só o PT que perdia o controle da situação. Em breve, o fenômeno vislumbrado por Haddad se mostraria com força. Grupos de direita se apoderaram das palavras de ordem dos jovens autônomos. Uma delas, “Vem Pra Rua”, batizaria um dos grupos que organizaram, em 2015 e em 2016, as gigantescas manifestações pelo impeachment.

Vista aérea da Av. Paulista com manifestantes em ato de apoio ao impeachment da Presidente Dilma Rousseff, a investigacao da Lava Jato e ao Ministerio Publico de São Paulo  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

“Nós aprendemos que era preciso ter foco e uma pauta única: o impeachment”, afirmou o cientista político Renato Battista, dirigente de outro grupo nascido na onda das mobilizações de 2013 e 2014: o Movimento Brasil Livre.

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Com uma letra de diferença em relação ao grupo que foi a faísca inicial de toda a mudança, o MBL tinha um objetivo bem distinto: se opor ao que julgava ser o autoritarismo da esquerda e defender a Operação Lava Jato, uma ação da Polícia Federal só possível depois que Dilma, emparedada pelas ruas, resolveu apoiar a aprovação da Lei das Organizações Criminosas. Foi ela que permitiu que a delação premiada se transformasse no instrumento que jogou a pá de cal no seu próprio governo.

Na medida em que o sistema político não conseguia dar as respostas pedidas pelas ruas, o aparecimento do escândalo de corrupção na Petrobras consumou a hecatombe da classe que dominava o cenário político havia 30 anos. Uma década depois, porém, a explosão antissistema ainda está longe de acabar.

Em março de 2015, por exemplo, o então deputado Jair Bolsonaro tinha 55 mil seguidores em suas redes sociais. Dois anos mais tarde, quando começara a engatar sua candidatura à Presidência, ele já contava com 5,029 milhões de seguidores em suas redes. Político digital, o capitão reformado do Exército se manteve nesse figurino depois de eleito, espelhando-se no então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Em 7 de março de 2019, Bolsonaro se tornou o primeiro presidente do Brasil a fazer uma live para falar com a população (veja o vídeo abaixo).

Ele seguiu a cartilha das redes sociais de mimetizar a existência e começou a transmissão dizendo: “Em Brasília, 19 horas.” Sua voz devia ser, a partir dali, a Voz do Brasil. Até o primeiro turno da eleição de 2022, Bolsonaro faria 186 transmissões ao vivo, reunindo 135 horas de imagens que ajudam a contar a história de seu governo.

Apesar do desgaste de investir no modelo da polêmica, Bolsonaro conseguiu 12 milhões de interações em um único post na véspera do segundo turno da eleição. Quatro anos depois de sair vitorioso nas urnas, em 2018, o capitão deixou o governo reunindo 58,2 milhões de seguidores.

Bloqueio

Os personagens da época têm explicações de sobra sobre por que o País trilhou esse caminho. Para o historiador Lucas Monteiro, um dos dirigentes do MPL, quando em uma democracia há protestos como os de 2013, a resposta dos governos é sempre tentar, de alguma maneira, incorporar essas manifestações e suas pautas como forma de se renovar a democracia.

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“Mas, como as manifestações de 2013 foram bloqueadas, com uma tentativa do governo de não reconhecê-las como aspecto transformador da democracia – e era um partido de esquerda que estava no poder –, criou-se uma espécie de vácuo para a direita organizar essa energia contestatória, também em razão de nossas debilidades”, afirmou Monteiro.

O Movimento Brasil Livre (MBL) organiza ato Fora Bolsonaro na Avenida Paulista. Manifestação teve a presença de diversos políticos de diferentes partidos, como o governador de São Paulo, João Doria Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Depois de 2019, o MBL e outros movimentos que lutaram pelo impeachment de Dilma se dividiram. “Muitos dos movimentos ficaram com a imagem associada a Bolsonaro”, constatou Renato Battista. O cientista político contou que a briga de seu movimento com o então presidente foi quando ele e seus apoiadores convocaram a primeira manifestação golpista.

“Eles camuflaram isso com uma suposta defesa da reforma da Previdência”, disse. Para Battista, a atuação desses grupos ficou cada vez mais “caricata e bizarra” e terminou com “pessoas na frente dos quartéis acreditando na intervenção alienígena”.

A República Digital que o MBL ajudou a fundar levou parte de seus integrantes para o Legislativo. Manifestantes de esquerda de 2013 também foram parar na política tradicional, como a vereadora Luana Alves, de 27 anos, líder do PSOL na Câmara paulistana.

“Eu era estudante de Psicologia e fui para as ruas. Foi nas manifestações que me liguei ao Juntos (movimento do partido ligado à deputada Luciana Genro), aos poucos”, lembrou Luana.

Esquerda e direita digitais estiveram presentes na oposição a Bolsonaro. A última manifestação feita pelo MBL, por exemplo, foi pelo impeachment do capitão, ato que sofreu o boicote do PT.

A volta do PT

Uma década depois, o PT está de volta ao poder. E com Lula em seu terceiro mandato. Na semana passada, Kim Kataguiri (União-SP) e Guilherme Boulos (PSOL-SP) votaram juntos, por motivos diversos, contra a proposta de arcabouço fiscal apresentada pelo governo. Ainda é cedo para saber qual deles mobilizará novamente as ruas e quando.

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Renato Battista, dirigente do MBL (Movimento Brasil Livre) Foto: Werther Santana/Estadão

Mais uma vez, as redes sociais foram acionadas. No diagnóstico de Battista, repetir as cenas da Avenida Paulista lotada é um sonho possível com o governo do PT. “Para o impeachment de Lula está faltando só o momento político. Os indicativos que o governo dá são de que não vai muito longe”, previu. “Lula manteve o orçamento secreto e está com governabilidade igual ou pior.”

As ruas, com seu apelo antissistema, entraram na política, assim como o mundo digital, com suas bolhas e polarização. À esquerda e à direita, todos concordam que a política mudou. E o som das ruas e das redes é agora o que todos pretendem domar.

Confira mais imagens do Junho de 2013: