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À margem da História

Opinião|Nós e eles temos o costume de desejar feliz ano velho

Do Fusca de Itamar Franco ao pacote de medidas de Lula para as montadoras de carros, Palácio do Planalto é uma antiga máquina que permite aos presidentes uma volta ao passado

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Foto do author Leonencio Nossa
Atualização:

É uma dificuldade, nos primeiros dias de janeiro, evitar o feliz ano velho. Depois das promessas de mudanças no dia a dia e da lista de metas escrita no réveillon, vem uma certa resistência a uma virada real no cotidiano, enxergar um tempo diferente. O olhar pelo retrovisor poderia ser um ato auxiliar para se fazer coisas novas, mas costuma se tornar um remoer de fatos e situações e uma repetição de gestos e atitudes.

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Você promete para si mesmo que tratará aquela pessoa de forma diferente. Entretanto, surge na memória uma história do passado e a vontade de estabelecer uma outra relação, mais próxima ou distante, não importa, vai embora. O mesmo descuido ocorre no cumprimento de mais rigor no orçamento doméstico e na decisão, até então sacramentada, de iniciar um ano novo sem tomar refrigerante.

O fim das festas é a volta da atenção ao noticiário de Brasília. E, quando você faz uma reflexão do que aconteceu nos últimos dias, inevitavelmente, pode pensar que as autoridades também costumam apresentar a mesma mania de gastar tempo no retrovisor. Na verdade, nós e eles, bordão que o presidente Lula costumava repetir nos discursos de seus dois primeiros mandatos, temos essa tendência de virar para trás como resistência de encarar novas formas de viver e agir — a terceira pessoa do plural é uma referência mesmo aos agentes públicos.

Em outubro de 1993, o presidente Itamar Franco visita a fábrica da Volkswagen no ABC. Com o apelo dele, o Fusca voltou a ser fabricado no Brasil Foto: Masao Goto Filho/AE

Talvez o fato de uma outra eleição estar sempre próxima leve um governante a apostar em uma velha receita. No tempo mais recente, Itamar Franco inaugurou a prática no Palácio do Planalto de desejar um feliz ano velho aos brasileiros. Em 1993, ele fez um apelo, que incluía, claro, liberação de impostos, para a Volkswagen voltar a produzir o Fusca. O clássico tinha saído de linha em 1986. Era o primeiro grande incentivo à produção de carro popular e, consequentemente ao uso do transporte particular desde a Eco-92. A imagem de um presidente dentro de um automóvel sempre foi mais comum que num ponto de ônibus ou numa estação de metrô, antes ou depois de Itamar , diga-se de passagem.

Os inquilinos do Palácio da Alvorada costumam ir além de um brinde ao ano que expirou. A impressão é que alguns chegaram a idealizar o passado. Em seu mandato, a presidente Dilma Rousseff pôs diversas vezes um capacete na cabeça para visitar obras de hidrelétricas na Amazônia planejadas ainda pelos chefes do Brasil Grande. A historiografia questiona a herança do desenvolvimentismo especialmente no período da ditadura militar, mas ela insistia, quando visitava o canteiro de Belo Monte, em Altamira, que a conta de luz ficaria mais barata. A hidrelétrica foi construída na mesma curva do Xingu onde o general Ernesto Geisel quis erguer seu projeto de Kararaô. Ainda que não levasse em conta as preocupações dos ambientalistas e os apelos da líder kayapó Tuíra, Dilma poderia ter refletido mais sobre a baixa vazão do rio antes de optar pela obra, avaliam técnicos do setor. Mas ela resolveu seguir a receita de desenvolvimento de um tempo que nem todos consideram essa maravilha toda.

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O cacique Raoni numa manifestação em frente ao Congresso contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no sul do Pará Foto: Ed Ferreira/AE


Michel Temer não escapou de deixar o nome atrelado a posturas consideradas por muitos setores ultrapassadas nas áreas ambiental e política. Quando decidiu liberar mineradoras para atuar numa grande área de floresta intocada no Pará e no Amapá teve de enfrentar uma campanha nacional e internacional que cobrava transparência. A equipe de governo que ele montou no Planalto era formada por clássicos nacionais da velha política. A propósito, Temer não nomeou mulheres no primeiro escalão para dar aquele ar de novidade. Num ponto é preciso reconhecer: o presidente e seu auxiliar para assuntos culturais, Sérgio Sá Leitão, ficaram na História por recusarem um olhar para o passado. É claro que trata-se de uma ironia. Foi na gestão de Temer que o Brasil perdeu o Museu Nacional. Neste caso, o olhar pelo retrovisor não foi no sentido de uma dificuldade de enfrentar o futuro, mas apenas a constatação da falta de compromisso em cuidar do patrimônio dos brasileiros e da humanidade.

Contar o apreço de Jair Bolsonaro pelo tempo perdido não é algo complexo. Ao menos em seus discursos, o presidente considerava que tempo bom mesmo era aquele em que não havia vacina e o voto era no papel. No gabinete do terceiro andar do Planalto, enxergava com nostalgia aquele período em que os oficiais-generais ganhavam penduricalhos pagos pela viúva. Assim, procurou reviver a era da bonança. Depois de perder a disputa pela reeleição, ele abriu o Alvorada a aliados interessados em recuperar a tradição política de que quem ganhava não necessariamente levava. A 8 de janeiro de 2023, o País voltava a testemunhar uma tentativa de golpe — um ano depois, a Justiça ainda está na dívida de apontar para os mentores. A impunidade ainda é um fantasma nacional.

Agora, dias antes da virada do ano, Lula talvez achou que tempo bom era aquele mesmo em São Bernardo do Campo, de muitas ofertas de vagas de emprego. O presidente mais proustiano que a atual geração conheceu mandou sua equipe anunciar que taxaria a importação dos carros elétricos importados e daria incentivos às montadoras instaladas no País. Ainda selou o pacote como investimento “verde”. A dúvida é se ele idealizou os anos finais da década de 1970 e do começo da de 1980, época áurea do setor automobilístico, ou seus dois primeiros governos e o de Dilma.

De 2003 a 2016, o governo brasileiro concedeu bastante subsídios para animar a indústria. Foi uma série de empréstimos abaixo de taxa de mercado, desoneração da folha de pagamento de empresas e redução de imposto das indústrias de automóveis e eletrodomésticos, sem contrapartidas. Em dez anos, as multinacionais repassaram mais de US$ 180 bilhões, segundo dados divulgados na época pelo Banco Central, para aliviar o caixa de suas matrizes na Europa e nos Estados Unidos, que se recuperavam de crises. Não há registros públicos de quanto desse dinheiro voltou em forma de investimentos. Nada é muito claro nesse campo. É certo afirmar que o apoio do Planalto, desde a época de Juscelino Kubitschek, muito justo observar, não garantiu que montadoras estrangeiras funcionassem sem ajuda estatal.

A reflexão sobre benefícios concedidos a um setor da indústria não parte necessariamente de quem considera que só rico deve ter carro ou que o apoio estatal precisa ser demonizado. Afinal, é possível que muitos, Brasil afora, simplesmente apostam em não ter carro e optam pelo transporte coletivo, pelo táxi e pelos serviços de aplicativos. Também não precisa ser um defensor intransigente de novas matrizes para ressaltar a necessidade de contrapartidas mais concretas por parte de quem vai se beneficiar da redução do recolhimento de impostos. Há muitos outros setores, antigos ou de inovação, que precisam de ajuda para produzir.

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Quando um presidente decide idealizar um passado, ele demonstra ser como qualquer um de nós. A diferença é que, quando o chefe do Executivo pisa no Planalto, pode estar mesmo entrando em uma máquina do tempo, com uma ida real ao futuro ou um regresso. Vale ponderar que, no “mercado” da História, a decisão de um mandatário reviver o passado pode ser vista de diferentes formas, de acordo com o gosto do freguês, do cidadão. Nestes tempos de polarização nem se fala. Lembrar fatos históricos, por outro lado, é sempre um bom exercício.

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A propósito, Feliz ano velho, expressão usada nesta coluna, é um dos títulos mais interessantes e bonitos da literatura brasileira. O clássico de Marcelo Rubens Paiva trata de outro contexto e situação, longe de qualquer associação com este texto. Publicado em 1982, é um depoimento forte de um jovem que sofre um acidente e perde a mobilidade. Marcelo transformou uma experiência pessoal num dos best-sellers mais queridos do mercado editorial brasileiro. O relato é transparente, a linguagem é franca. A sinceridade do autor comove e inspira. É o livro de muitas gerações.

Um ano novo tornou-se necessário

O livro Biografia do abismo, de Felipe Nunes e Thomas Traumann, propõe um olhar com mais empatia. Eles observam que o 'monstro é o outro, mas também pode ser um espelho das nossas atitudes' Foto: Leonêncio Nossa

No Planalto ou na planície, talvez não baste nestes dias de polarização intensa olhar para a frente. É preciso olhar diferente para quem está ao lado. O discurso pode parecer simplório, mas seu conteúdo torna-se vital porque o extremismo envolve até o nosso círculo pessoal. Desejar para os outros e, especialmente, para nós mesmos um ano novo é uma exigência política e familiar. Sugestão de leitura: Thomas Traumann e Felipe Nunes acabam de lançar Biografia do abismo, como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil. “Viver em um país no qual a política transbordou é complexo”, escrevem no livro publicado pela Harper Collins. “Lidar com a intolerância requer boa vontade, esse sentimento tão raro no Brasil de hoje, e uma convergência sobre os limites de até que ponto o antagonismo é aceitável.”

Os autores observam que, em uma sociedade “calcificada”, mesmo o cálculo do dois mais dois perde parte de seu sentido. “Um país que se mantém assim será incapaz de enfrentar os problemas econômicos, climáticos e sociais do seu tempo”, avaliam. O livro analisa o comportamento de agentes da opinião pública, da política, da economia e do Judiciário.

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Eles ressaltam, sobretudo, que o extremismo cria monstros de um lado e de outro. Afinal, lembram Friedrich Nietzsche, “quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne também um monstro”. “O monstro é o outro”, dizem os autores, “mas também pode ser um espelho das nossas atitudes”. “O abismo que a sociedade brasileira se defronta hoje pode ser a sensação quase niilista de que não existe saída para esse impasse, de que uma reconciliação nacional é impossível. Ou pode ser o grande desafio a ser enfrentado e superado.”

Opinião por Leonencio Nossa

Editor de especiais do Estadão. Mestre em história e política. Autor dos livros “As guerras da Independência do Brasil”, “Roberto Marinho, o poder está no ar” e “Mata! O Major Curió e as guerrilhas no Araguaia”. Escreve aos sábados.

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