Uma crise de última hora ameaça a montagem do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio Grande do Sul, quinto maior colégio eleitoral do País. O motivo é que, nesta terça-feira, 7, a cúpula do PT decidiu enquadrar o diretório estadual: em troca de um acordo com o PDT, a ordem é intervir para lançar a advogada Juliana Brizola (PDT), e não um petista, ao Palácio Piratini.
A decisão está provocando uma rebelião interna porque o PT já começou a fazer campanha para o ex-presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) Edegar Pretto à cadeira do governador Eduardo Leite (PSD). Há até mesmo um slogan: “Levanta, Rio Grande”. Se não houver mudança de rota, será a primeira vez que o PT não terá candidato próprio ao governo gaúcho.

“Aqui ninguém aceita intervenção. Isso é contra tudo o que construímos até agora e um desrespeito à nossa trajetória”, afirmou o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro. Ex-ministro da Justiça, Tarso também disse que, ao contrário do que possa parecer, a questão não é somente regional.
“O que está em jogo é qual o tipo de frente que, no Rio Grande do Sul, pode dar sustentação para elegermos, mais uma vez, o presidente Lula”, destacou ele, que também já presidiu o PT.
Em reunião plenária com militantes, antes da decisão do comando nacional do PT, Tarso observou que custava a crer em um enquadramento. “Não acredito que eles tenham coragem de fazer uma intervenção para dizer à militância do Estado que a nossa candidata é de outro partido, e não (um nome) do nosso partido, que já foi consagrado, escolhido e legitimado politicamente”, protestou o ex-governador.
O que está em jogo é qual o tipo de frente que, no Rio Grande do Sul, pode dar sustentação para elegermos, mais uma vez, o presidente Lula
Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro
O presidente do PT, Edinho Silva, ainda tenta um acordo para estancar a crise. Na prática, porém, a orientação para o enquadramento partiu do próprio Lula, que deu a senha para o PT “rifar” candidatos próprios em nome da aliança nacional. No caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, o arranjo envolveu a cabeça de chapa exigida pelo PDT para apoiar Lula em outros Estados.
Ex-deputada, Juliana Brizola está à frente de Pretto nas pesquisas de intenção de voto. Quem lidera todos os levantamentos, no entanto, é o deputado federal Luciano Zucco (PL-RS), aliado do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência.
Para se opor à mudança de candidato, dirigentes petistas do Rio Grande do Sul argumentam que o PDT integra a base de sustentação do governo Eduardo Leite, definido por eles como “de direita”. Brizola, por sua vez, assegura que todos os cargos já foram entregues.
“A quem serve irmos, mais uma vez, divididos para a eleição?”, questionou a ex-deputada. “Qual o preço que o nosso campo está disposto a pagar por essa fragmentação? Marcar posição e eleger parlamentares é importante, mas é a nossa prioridade nesse momento?”
Após conversar com Edinho, nesta terça-feira, Pretto disse que, na condição de pré-candidato escolhido “por unanimidade” no encontro do PT gaúcho, quer a convocação do diretório estadual para tratar do assunto. Nem ele nem seu grupo político mais à esquerda no espectro ideológico do PT estão dispostos a desistir da candidatura própria.
“Democracia é construção, não imposição. Não pode ser seletiva, precisa ser respeitada em todas as instâncias”, escreveu Pretto. A mensagem foi postada no grupo de WhatsApp do Diretório Nacional do PT. “A instância partidária que definiu a tática eleitoral no Rio Grande do Sul é soberana para decidir o meu papel nas eleições deste ano”, acrescentou.
Apesar do simbolismo da decisão tomada em um Estado que já foi governado várias vezes pelo PT, o Rio Grande do Sul não é o único caso no qual a direção do partido vai enquadrar seus pares.
No Ceará, Lula também orientou o PT a fazer tudo o que o senador Cid Gomes (PSB-CE) – irmão e hoje adversário do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) – está pedindo para aderir à campanha do governador Elmano de Freitas (PT). Ciro é, atualmente, o principal desafiante de Elmano.
“O PT não pode querer ter todos os senadores, todos os prefeitos, todos os governadores. Nós temos que compartilhar com os outros partidos a montagem de uma chapa, para que os outros partidos se sintam à vontade em participar conosco”, insistiu Lula, na semana passada.
O recado teve endereço certo: para apoiar Elmano à reeleição, Cid exige que o PT avalize o nome de Júnior Mano (PSB) ao Senado. O deputado está sob investigação da Polícia Federal, acusado de chefiar uma “rede estruturada de corrupção”.
Se Mano for candidato, quem terá de desistir da disputa para uma vaga na Casa de Salão Azul será o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE).
“Pode escrever: eu não abro mão da minha candidatura de jeito nenhum”, disse Guimarães à coluna. Detalhe: o líder do governo Lula é justamente quem coordena o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) petista. Como se vê, o PT tem um grande desafio pela frente...


