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Cuidados para um sono de qualidade 

Cuidados para um sono de qualidade 

Eliana e o marido dormem separados: quando o ‘divórcio do sono’ pode fazer bem?

Dormir separado não é o problema. Ignorar o ronco pode ser

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Foto do autor Andrea Bacelar

A recente repercussão na mídia sobre a decisão da apresentadora Eliana e de seu marido, Adriano Ricco, de dormirem em quartos separados em algumas noites trouxe novamente ao debate uma expressão que vem ganhando espaço: o chamado “divórcio do sono”.

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Apesar do nome provocativo, não estamos falando necessariamente de crise conjugal. O termo “sleep divorce” é utilizado para descrever a decisão de casais que passam a dormir em camas ou quartos separados com o objetivo de preservar a qualidade do sono de um ou de ambos.

Dormir separado não significa, obrigatoriamente, estar emocionalmente distante. Em determinadas situações, pode representar uma escolha negociada para proteger algo essencial à saúde: dormir bem.

A apresentadora Eliana revelou que ela e o marido dormem em quartos separados Foto: @@canalgnt via X

O tema está longe de ser uma particularidade de casais famosos. Pesquisa divulgada pela American Academy of Sleep Medicine (AASM) mostrou que 31% dos adultos norte-americanos já optaram por dormir em outra cama ou espaço da casa para acomodar as necessidades de sono do parceiro.

No Brasil, dados do ELSA-Brasil apresentados em 2026 ajudam a dimensionar o fenômeno. Entre 901 participantes casados ou em união estável avaliados, 16,5% relataram dormir separados de seus parceiros. Entre aqueles que adotaram essa prática, 75% apontaram o ronco intenso ou a apneia do sono entre os motivos; 60,7% citaram horários incompatíveis e 58,9%, a movimentação excessiva durante a noite. Além disso, 71,6% consideraram a estratégia vantajosa.

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Antes de transformar quartos separados em tendência ou solução para noites ruins, existe uma pergunta que considero fundamental: “Por que esse casal não consegue dormir bem junto?”

O roncador não deve ser simplesmente “expulso” para outro quarto

Roncar pode parecer apenas um incômodo para quem divide a cama, mas, principalmente quando é frequente e intenso, merece investigação, pois pode estar associado à apneia obstrutiva do sono, condição caracterizada por episódios recorrentes de obstrução da via aérea durante o sono.

Por isso, quando alguém muda de quarto porque não consegue dormir ao lado de um parceiro que ronca, precisamos pensar além do desconforto provocado pelo barulho.

Separar os quartos pode preservar o sono de quem é acordado pelo ronco, mas não necessariamente resolve o problema de quem ronca. O quarto separado pode ser uma estratégia, mas não deve se transformar em uma maneira de silenciar sintomas.

Esse é um cuidado especialmente relevante diante da popularização do chamado “divórcio do sono”. A solução encontrada pelo casal para dormir melhor não deve substituir a investigação da causa que levou à separação dos quartos.

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Se o motivo for ronco intenso, pausas respiratórias percebidas pelo parceiro, engasgos durante a noite, sono muito agitado, despertares frequentes, cansaço ao acordar ou sonolência excessiva durante o dia, é recomendável buscar avaliação especializada.

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Quando existe um distúrbio do sono, mudar de quarto pode reduzir o incômodo de quem está ao lado, mas não trata a condição de quem apresenta os sintomas.

Dormir junto não é sinônimo de dormir bem

Durante muito tempo, consolidamos culturalmente a ideia de que casais felizes necessariamente dormem na mesma cama. A ciência do sono nos convida a olhar para essa questão com mais individualidade.

O sono é um processo biológico sensível a uma série de estímulos. Temperatura do ambiente, luminosidade, ruídos, movimentação, características do colchão, horários e hábitos do parceiro podem interferir na continuidade do descanso.

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Há pessoas que têm sono mais leve e despertam diante de pequenos estímulos. Outras se movimentam muito durante a noite. Algumas precisam dormir cedo, enquanto seus parceiros trabalham ou permanecem acordados até mais tarde. Há ainda casais com cronotipos distintos, nos quais um indivíduo naturalmente tende a dormir e acordar mais cedo e o outro, mais tarde.

Quando essas diferenças provocam privação ou fragmentação crônica do sono, as consequências não ficam restritas à madrugada.

Uma noite mal dormida pode repercutir no dia seguinte em forma de cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações de humor, redução da disposição e prejuízos cognitivos. Quando o problema se torna recorrente, seus efeitos podem atingir a saúde e também a própria convivência do casal.

Separar as camas pode preservar o relacionamento?

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Quando a decisão é conversada e não representa afastamento afetivo, dormir em quartos separados pode ser uma estratégia para preservar o descanso e, consequentemente, favorecer uma convivência mais saudável durante o dia.

Assim como não existe uma única rotina de sono adequada para todas as pessoas, também não existe uma configuração ideal de quarto para todos os relacionamentos.

Para algumas pessoas, compartilhar a cama é parte relevante da intimidade, da sensação de segurança e da conexão afetiva. Para outras, dormir separadamente proporciona um descanso muito superior.

O ponto central não deveria ser “casais devem ou não dormir separados?”, mas: essa organização está permitindo que ambos durmam bem e preservem sua saúde e sua relação?

O chamado divórcio do sono pode ser uma escolha legítima e até positiva para alguns casais, desde que não seja utilizado como substituto para diagnóstico e tratamento quando existem sinais de alerta.

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Quando a separação acontece por incompatibilidade de horários, preferência de temperatura, movimentação ou necessidade de ambientes distintos, o casal pode encontrar uma organização que funcione para ambos.

Mas, quando existe ronco intenso, pausas respiratórias, engasgos durante o sono, despertares frequentes ou sonolência excessiva durante o dia, é preciso investigar.

Como especialistas do sono, nosso papel é ajudar cada pessoa a compreender o que acontece durante aproximadamente um terço de sua vida e encontrar estratégias para que esse período seja realmente restaurador.

Opinião por Andrea Bacelar

Diretora médica da Clínica Bacelar, doutora em Neurologia, especialista em Medicina do Sono e membro titular da Academia Brasileira do Sono (ABS)

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