Para quem está acompanhando minimamente as eleições no País, sabe o quanto essas últimas semanas foram estressantes e, para boa parte da população, continuarão sendo, mesmo depois de decidido o pleito.
Momentos como esse despertam sentimentos de insegurança, ameaça e incerteza, que afetam diferentes aspectos da nossa vida – inclusive a alimentação. A pessoa fica ansiosa, nervosa, desamparada e, quando percebe, está diante da geladeira ou olhando um aplicativo de delivery, pronta para fazer seu pedido.
A busca por comida como forma de lidar com as emoções é chamada de comer emocional, e ocorre por mecanismos fisiológicos evolutivos e processos de aprendizagem dentro de nossa história de vida. Aprendemos a associar determinados alimentos a conforto, prazer e alívio. Em momentos de vulnerabilidade emocional, essa resposta pode se intensificar.
De vez em quando, buscar comida para reduzir um desconforto emocional é normal. Esse comportamento passa a merecer atenção e cuidado quando a frequência e intensidade aumentam e começam a trazer prejuízos e sofrimento.

O que acontece no cérebro quando nos sentimos ameaçados?
Diferentes áreas do cérebro participam da regulação do nosso comportamento. Em momentos de estresse, circuitos relacionados aos instintos de deteção de ameaças e autodefesa são estimulados, sendo a amígdala cerebral uma das principais responsáveis por regular essas respostas instintivas e impulsivas.
Um dos maiores pesquisadores da área, Robert Sapolski, diz que “a amígdala se torna hiperativa e mais acoplada a vias de comportamento habitual”, ou seja, neste caso, aprender a responder a ameaças.
Outra área importante é o córtex pré-frontal, envolvido em funções complexas como tomada de decisões e controle inibitório – a habilidade de conter determinados impulsos e comportamentos.
Em situações ou fases de estresse intenso, o funcionamento dessas regiões pode ser prejudicado, favorecendo decisões mais impulsivas e a busca por recompensas imediatas. Vale ressaltar que nem todas as pessoas respondem do mesmo modo. Enquanto algumas terão um aumento da busca de recompensa por meio da alimentação, comendo mais, outras podem sentir o efeito oposto, passando por uma fase de inapetência.
O modo como interpretamos as situações, as sensações de desamparo e insegurança, além da falta de controle, podem intensificar nossas respostas.
Algumas colunas atrás, escrevi sobre a Escala Social Subjetiva – ferramenta que avalia como a pessoa percebe sua posição na hierarquia social em comparação a outros indivíduos dentro da sociedade em geral, ou em relação a determinados grupos. Imagine uma escada de dez degraus, na qual os degraus superiores representam as posições de melhor situação social e os inferiores, as de pior situação. Estudos mostram que pessoas que se sentem mais inferiorizadas nessa escala tendem a preferir alimentos mais ricos em açúcar e gordura e apresentam maior probabilidade de piores desfechos de saúde, como aumento do risco de obesidade e síndrome metabólica.
É muito comum o paciente dizer uma frase como “o problema é que eu gosto muito de comer esse tipo de alimento”. A verdade é que todos nós gostamos. Nossa preferência por alimentos energeticamente densos e hiperpalatáveis tem componentes evolutivos. Além disso, ao longo da vida, aprendemos a valorizar determinados alimentos, reforçando ainda mais seus efeitos no centros de prazer e conforto.
Some-se a isso o comer emocional: aprendemos a comer para lidar com nossas emoções, como um modo de fugir delas. Em situações de estresse, tristeza ou alguma outra emoção negativa, o comer pode aliviar – momentaneamente – esses sentimentos. Com o tempo, ao nos depararmos com situações difíceis, a probabilidade de repetirmos esse comportamento aumenta.
Leia também
Jantares, doces e outras ‘escapadas’ do cardápio são mais comuns do que se imagina; veja o que fazer
A solidão engorda?
Como lidar com isso no dia a dia?
Existem algumas estratégias capazes de ajudar.
A primeira delas é reconhecer a diferença de fome física e vontade de comer. O episódio de comer emocional pode ocorrer mesmo na ausência de fome física. Identificar e nomear o que estamos sentindo é o primeiro passo para poder responder de modo mais adequado às nossas necessidades. Se houver dúvida se está com fome física ou emocional, vale fazer essa pergunta em voz alta: “Estou com fome ou estou ansioso, triste, irritado, frustrado ou cansado?”
A partir da resposta, procure meios de lidar com o que está sentindo. Se estiver desemparado, tente entender como pode buscar acolhimento. Se a sensação for de sobrecarga, pense em como distribuir melhor as tarefas. Está nervoso? Busque aquilo que costuma trazer calma.
E, quando perceber que comeu para lidar com uma emoção, vale fazer outra reflexão: você realmente gostou do que comeu? A experiência foi tão prazerosa quanto imaginava? Trouxe o conforto ou o alívio que estava buscando? Como você se sentiu depois? Muitas vezes o alívio pode vir, mas ele dura pouco. Entender o real efeito do alimento no seu corpo e as emoções que ele provoca ajuda a contextualizar seus efeitos.
A segunda atitude é não se colocar em situação de risco, organizando o ambiente para facilitar as escolhas que desejamos fazer e dificultar as mais impulsivas. Estudos mostram que utilizar a chamada “arquitetura da escolha” pode ser bastante eficiente. Ela consiste em implementar algumas ações no dia a dia, tais como não ter muita comida “tentadora” à disposição, comprar porções pequenas, usar utensílios de tamanho adequado, manter opções nutritivas e práticas ao alcance das mãos, entre outras.
A terceira atitude é aprender outros modos de regular as emoções. Atividade física, sono adequado, uma boa conversa, um banho relaxante, conversar com alguém e até chorar podem trazer alívio mais duradouro que a comida.
As eleições são apenas um exemplo de acontecimento que desperta sentimentos intensos, mas isso ocorre em diferentes circunstâncias na nossa vida. E quanto maior nosso repertório de estratégias para lidar com as emoções nesses períodos, mais recursos teremos para enfrentar momentos difíceis com consciência, sem atacar a geladeira.



