Uma jovem de 28 anos passou 57 dias internada depois de andar em uma montanha-russa em São Paulo. O caso está sendo investigado. Mas, por trás dele há uma pergunta maior: quem, de fato, fiscaliza se um brinquedo radical é seguro no Brasil?
Júlia Bossoni andou duas vezes na montanha-russa Montezum, no Hopi Hari, em abril. Na segunda volta, saiu desacordada, com hemorragia no cérebro. Ela perdeu parte dos movimentos do corpo. O parque diz que a atração é certificada e segue normas técnicas. O Ministério Público investiga. Nenhuma das duas coisas anula a outra: as duas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
O que pouca gente percebe é que essa certificação, no Brasil, é majoritariamente privada e voluntária, como nos Estados Unidos, onde existe até um apelido para isso: “a brecha da montanha-russa”.

Não existe, aqui, um órgão público único que audite de forma proativa todas as atrações radicais do País, nem um banco de dados nacional de incidentes. Quem descobre o problema, na maioria das vezes, é a própria família, depois que algo já deu errado. Só que nem todo mundo tem recursos para contratar perícia própria ou sustentar um processo longo.
O diagnóstico de Júlia foi de traumatismo cranioencefálico. A ciência confirma que complicações graves como essa são raras, e a literatura médica documenta pouco mais de uma dezena de casos assim no mundo. A maioria em pessoas com algum fator de risco prévio, como uso de anticoagulante ou problema vascular não diagnosticado. Mas “raro” não é sinônimo de “zero”, e sem um sistema público de notificação, ninguém sabe, com precisão, quantos “quase-acidentes” acontecem antes de um caso grave chegar à imprensa.
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Uma revisão publicada nos Annals of Emergency Medicine, em 2002, catalogou, desde 1979: quatro hematomas subdurais, quatro dissecções de carótida interna, duas dissecções de artéria vertebral, duas hemorragias subaracnóideas, uma hemorragia intraparenquimatosa e uma trombose de carótida com AVC — todos associados a montanhas-russas.
Uma revisão mais recente, de 2024/2025, e publicada no Pediatric Neurology/PMC, mapeou 12 casos de hematoma subdural publicados entre 1994 e 2024, em pacientes de 13 a 77 anos: oito sem nenhum fator de risco prévio conhecido; os demais em uso de anticoagulante ou com lesão vascular preexistente, como cisto aracnoide.
Estudos de biomecânica apontam que, na maioria das voltas do brinquedo, o estresse mecânico no cérebro é comparável ao de uma corrida, e inferior ao de uma cabeçada no futebol.
O parque pode estar dentro da norma técnica e, ainda assim, faltar uma camada pública de transparência que proteja o visitante antes, e não só depois, de uma tragédia. Enquanto isso não existir, a segurança de quem entra na fila depende, em boa parte, da sorte e da informação que cada um carrega consigo.


