Chefe das 142 delegacias da mulher de SP relata escalada da violência: ‘Tudo que se pode imaginar’

Delegada Adriana Liporoni aponta cenário cada vez mais complexo e destaca ciclos de violência que se iniciam a partir das redes sociais

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Foto do autor Ítalo Lo Re

Mulher é atropelada e arrastada na Marginal Tietê

O principal suspeito é um ex-companheiro da vítima, que segue foragido. A Polícia Civil trata o caso como tentativa de feminicídio. Crédito: arquivo pessoal

Foto: Divulgação/Governo de SP
Entrevista comAdriana Liporonicoordenadora das delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo

Duzentos e sete casos de feminicídio foram registrados de janeiro a outubro deste ano no Estado de São Paulo, alta de 10% em relação a 2024, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) reunidos pelo Instituto Sou da Paz. A capital paulista, mais especificamente, contabilizou um a cada quatro dessas ocorrências, recorde em toda a série histórica.

Há pouco mais de um ano e meio na coordenação das delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) do Estado de São Paulo, a delegada Adriana Liporoni busca não esmorecer, mas reconhece que trata-se de um cenário que tem se tornado cada vez mais complexo, até pelos ciclos de violência que se iniciam a partir das redes sociais ou mesmo se propagam por lá.

“Nas DDMs tem de tudo que se pode imaginar: desde casos durante o namoro ou o casamento até depois do divórcio ou quando não há nenhuma relação”, afirma a delegada, em entrevista ao Estadão. Hoje, são mais de 1,5 mil policiais trabalhando nas 142 delegacias focadas em violência contra a mulher – duas delas foram inauguradas na gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).

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O feminicídio é a “ponta do iceberg”. Na última semana, uma mulher de 31 anos teve as pernas amputadas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê, em São Paulo. Tainara Souza Santos sobreviveu após passar por quatro cirurgias, mas terá de reaprender a se locomover. O responsável pela agressão foi preso pela polícia.

De acordo com a Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo, o Estado conta atualmente com 16,9 mil presos pelos crimes contra a dignidade sexual e 7,5 mil presos por crimes relacionados à Lei Maria da Penha, lesão corporal e ameaça – 7,4 mil deles são homens, claro indicador da estrutura em que se propaga esse tipo de violência.

“Muitos autores reagem com violência extrema motivados por frustração, sentimento de posse e uma concepção distorcida de controle. A contenção eficaz dessa violência exige uma estratégia multidisciplinar”, afirma Adriana, que está há mais de três décadas na polícia. Leia abaixo os principais trechos da entrevista com a delegada:

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Qual leitura faz do cenário atual de violência contra mulher, com recorde de feminicídios sendo batido na capital paulista e casos tão brutais, como o da jovem que teve a perna amputada após ser arrastada pela Marginal Tietê?

Os recentes casos não configuram episódios isolados, mas o estágio final de ciclos prolongados de violência. O feminicídio raramente decorre de um ato impulsivo: ele é precedido por agressões psicológicas e físicas, ameaças, humilhações, vigilância e controle, elementos que se intensificam à medida que o agressor busca impor domínio sobre a vítima. Parte do aumento dos registros decorre da maior procura por ajuda e do aperfeiçoamento jurídico na identificação desses crimes. Contudo, há evidências de crescimento real da violência letal contra mulheres, especialmente em contextos de separação, ruptura da relação, disputa por poder e inconformismo com a autonomia feminina.

Qual tem sido o perfil dos casos recentes?

Na maioria das vezes, esse crescimento da violência contra a mulher é visto especialmente quando há uma separação, um rompimento de uma relação, ciúmes excessivo, entre outros fatores. Às vezes, mesmo em um casamento, o homem não se conforma com a autonomia da mulher, muitos inclusive impedem que a mulher trabalhe, que a mulher faça renda. Tanto que, para romper o ciclo da violência, a mulher às vezes deixa de fazê-lo porque ela não tem uma autonomia financeira.

Qual a maior dificuldade para combater esse crescimento?

Embora a legislação brasileira – especialmente a Lei Maria da Penha e a qualificadora do feminicídio – represente um marco internacional, nenhuma lei opera isoladamente. A maior dificuldade está em interromper precocemente o ciclo da violência, antes que ele alcance níveis irreversíveis. Isso exige identificar sinais iniciais, estimular a denúncia, acolher a mulher desde o primeiro atendimento e oferecer uma resposta institucional rápida e articulada por parte de toda a rede de proteção. Quando a violência é percebida cedo, e a vítima é integrada ao sistema de proteção, as chances de evitar desfechos fatais aumentam significativamente. É importante que a população saiba que quando a gente fala em agressão, não é só a física. Hoje há inclusive a violência no meio digital.

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Na maioria dos casos, os agressores estão ali dentro de casa, são pessoas próximas, maridos, namorados, ex-companheiros. Qual a complexidade de combater a subnotificação e, ao mesmo tempo, não expor as vítimas? E quais outros fatores explicam a alta recente de casos?

De fato, é bastante complexo, e só um somatório de fatores ajuda a explicar. Muitos autores reagem com violência extrema motivados por frustração, sentimento de posse e uma concepção distorcida de controle. A contenção eficaz dessa violência exige uma estratégia multidisciplinar, envolvendo ações educativas permanentes, fortalecimento da rede de proteção, atendimento policial especializado e humanizado, agilidade na concessão e fiscalização de medidas protetivas, acompanhamento das mulheres em situação de risco e responsabilização firme dos autores. Programas de reeducação e responsabilização masculina também são imprescindíveis para romper padrões de repetição em novos relacionamentos.

De que forma dinâmicas nos meios digitais, como interações nos chamados ‘chans’ e demais grupos que reforçam a ideia de desvalorização da mulher, acabam contribuindo para alta de modalidades de violência para fora das telas?

Às vezes nas redes sociais o fazem até por brincadeira, são “brincadeiras” advindas da cultura que a gente tem. Ainda é uma cultura estruturante, que a gente só vai conseguir dar uma resposta com um trabalho muito grande, com educação, para demover, para eliminar esse tipo de cultura. Quando vem de uma forma proposital, se torna crime. Hoje em dia isso tem sido combatido veementemente, as próprias mulheres se reúnem para combater esse tipo de movimento. Há cada vez menos espaço para isso. Quando acontecem esses crimes maiores (como no caso do atropelamento na Marginal Tietê), com repercussão, essas pessoas assustam. Está todo mundo falando disso.

Casos de repercussão acabam resultando inclusive em um fenômeno chamado ‘backlash’, uma espécie de reação às normas vigentes. Qual a importância de cobranças públicas para culpabilização de responsáveis por casos de violência contra mulher?

São episódios que causam perplexidade nas pessoas. As pessoas não ficam sabendo de muitos casos e, quando ocorre um de repercussão, geralmente se chocam muito. Nesse caso, realmente aumentam as denúncias, é como se virasse uma chave. As mulheres pensam “peraí, já aconteceu algo parecido comigo”. Pensam que ele (o agressor) poderia ter atropelado também (como no caso recente, na zona norte). As pessoas costumam denunciar mais. Existem canais de denúncia anônima para isso (como o 181, do Estado, ou o 180, do governo federal), inclusive para ligação de terceiros. Acabou isso de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

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Atualmente, e o Estadão até publicou isso recentemente, a Polícia Civil conta com o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), focado em combater esses grupos radicais em diferentes plataformas. Há um tipo de troca das DDMs com esse núcleo para se pensar também num ‘refinamento’ do atendimento às mulheres na ponta?

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Sim, o Noad tem feito um trabalho grandioso capitaneado pela delegada Lisandrea (Salvariego). Isso junto das redes sociais, de mapeamento dos casos de agressão a, principalmente, adolescentes, nesses grupos formados por adolescentes, que incentivam a violência de uma forma bárbara. E tem contribuído, sim, para as nossas investigações, para a solução de casos gravíssimos. Todas essas ferramentas que a Polícia Civil tem, inclusive, os grupos, os núcleos, eles se auxiliam mutuamente sempre no combate à violência. Hoje há uma série de casos que começam no digital. Aquele namoro que começa com aquele jogo, em salas de bate-papo. Depois evolui para um namoro digital, com troca de nudes. Depois evolui para ameaça se não mandar tal coisa, aí começam a mandar (esses nudes) naquelas salas (em plataformas digitais), nas salas chamadas de arenas, onde várias pessoas estão assistindo.

Vocês têm visto casos desse perfil, que surgem a partir das redes sociais, chegando com mais frequência às delegacias de Defesa da Mulher?

Tem bastante, principalmente casos partindo de aplicativos de relacionamento. Nas DDMs tem de tudo que se pode imaginar. Desde casos durante o namoro ou o casamento, depois do divórcio, também. Homens que divulgam vídeos de sexo das próprias esposas ou ex-esposas nas redes sociais. Você nem imagina, tem de tudo: perseguição após término de relacionamento, ameaças ou a própria agressão, casos que muitas vezes culminam em feminicídio. A gente busca ter a maior agilidade possível nos pedidos de medida protetiva. Em casos que começam no online, tem sempre um humano, mas nem sempre aquele que lhe foi apresentado. Porque hoje com a IA (inteligência artificial) há possibilidade de transformar rostos, vozes... É um mundo diferente. Sempre teve de tudo, mas, desse jeito, não.

Em São Paulo, o que mudou depois desses casos recentes? Já teve alguma conversa, por exemplo, com o novo secretário de segurança (delegado Osvaldo Nico Gonçalves) para novas definições de combate a caso de violência contra a mulher? Como esse tema vem sendo tratado?

Essa pauta é uma bandeira da Polícia Civil, da Secretaria da Segurança Pública e do governo (Tarcísio de Freitas). Sempre foi uma bandeira, e a gente está sempre inovando em matéria de políticas públicas. Não é depois do feminicídio (que há ação), a gente tem vários projetos em andamento. Não foi depois dessa pauta que a gente se estruturou. A gente vem se estruturando já há muito tempo, inclusive essas políticas públicas são antigas. Claro que também, no nosso trabalho de ações especializadas, a gente acaba fazendo campanhas de conscientização, palestras em escolas, a gente tem o APP Mulher Segura, da Secretaria de Segurança Pública, que é uma uma forma das mulheres terem acesso a informações que normalmente elas não teriam. Seja nos crimes consumados ou tentados, a Polícia Civil apresenta elevados índices de elucidação.

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Quais modalidades, no caso das DDM aqui de São Paulo, têm chamado mais atenção em termos de registro? Levantamentos a nível nacional apontam crescimento de praticamente todas as modalidades, em especial do stalking (perseguição), até pelo avanço do digital. Essa é uma delas, por exemplo?

Chama muita atenção a violência psicológica, o stalking também e as ameaças. São crimes que vêm crescendo bastante. Porque são crimes que coincidem justamente, penso eu, com o momento que a mulher se conscientiza que aquilo é violência e vai registrar. Nosso dia a dia (das DDMs) é bem marcado por esses tipos de violência. Vale destacar também que o feminicídio, em especial, não é só um problema da segurança pública. Por isso, o governo também tem programas para buscar dar autonomia para as mulheres, aprendizado, para que elas possam exercer algum ofício para se verem livres.