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Como é o golpe da falsa imobiliária: ‘Incrédulo’, diz vítima de anúncio na Vila Nova Conceição

Em alguns casos, criminosos cobram o adiantamento de falsas taxas a apartamentos reais anunciados por terceiros; em outros, focam em falsos financiamentos

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Foto do autor Ítalo Lo Re
Atualização:

André (nome fictício) tinha pressa para achar um apartamento. Após um período morando no interior de São Paulo, o administrador disse “sim” a uma proposta de emprego para regressar à capital paulista. Foram dias atrás de um imóvel para alugar, até que encontrou o anúncio dos sonhos em uma plataforma online. “Já visualizei meus quadros pendurados”, disse.

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Ele entrou em contato com os responsáveis, mas descobriu que era alta a concorrência pelo imóvel, na Vila Nova Conceição, zona sul. Se quisesse prioridade, teria de pagar com antecedência uma taxa de R$ 3,1 mil, equivalente à soma do primeiro aluguel com o condomínio. Não pensou duas vezes.

Ao chegar no prédio para finalmente fazer a primeira visita, em 21 de outubro, a surpresa. “Na portaria disseram que sequer existia apartamento com o número do que eu havia alugado”, disse. Assustado, ele logo entrou em contato com a corretora que o acompanharia, mas as mensagens sequer chegaram. Havia caído no golpe da “falsa imobiliária”, em caso agora investigado pela Polícia Civil.

Homem teve prejuízo de R$ 3,1 mil em golpe da falsa imobiliária; caso é investigado pela Polícia Civil Foto: Léo Souza/Estadão

Falsa corretora: ‘No que eu puder ajudar, irei ajudá-lo’

Operações policiais realizadas nos últimos anos em Estados como Rio e em Santa Catarina indicam que não é um crime exatamente novo, mas com variações constantes no modus operandi. Em alguns casos, por exemplo, os criminosos cobram o adiantamento de taxas falsamente atribuídas a apartamentos reais anunciados por terceiros. Em outros, focam em falsos financiamentos.

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Entre as dicas para evitar cair nesse tipo de golpe, estão desde tentar visitar o apartamento antes de fazer qualquer transferência até conferir se os preços descritos não destoam tanto de outras ofertas na mesma região – ofertas muito agressivas costumam ser sinal de alerta.

A Polícia Civil de Santa Catarina também indica fazer videochamadas para ver o imóvel – quando não há possibilidade de visitar o apartamento – e conferir os dados dos anunciantes, consultando eventuais perfis nas redes sociais, avaliações online e o registro anunciante no Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci).

André tomou vários desses cuidados. Assim que viu o anúncio do imóvel, supostamente localizado na Rua Dr. Ivo Define Frasca, o administrador correu para ver o status do CNPJ da empresa. Estava ativo. “O registro da corretora também aparecia como regular”, disse ele, de 36 anos.

Foi tudo bem rápido. O anúncio do apartamento foi encontrado na plataforma Viva Real, do Grupo OLX, no dia 19 de outubro, um domingo. No mesmo dia, ele clicou no botão disponível para contatar a imobiliária. Foi automaticamente direcionado para uma conversa por WhatsApp.

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Falsa corretora se mostrou solícita durante atendimento; golpistas se aproveitaram de senso de urgência da vítima Foto: Arquivo pessoal

Por lá, foi respondido por uma falsa corretora, que se apresentava como Ellen Moraes, na segunda-feira, 20, quando passou a manter um diálogo constante com ela. “No que eu puder ajudar, irei ajudá-lo”, escreveu a suposta atendente em uma das mensagens.

A abordagem era minuciosamente pensada. Segundo ela, por conta do interesse de outras pessoas, as visitas àquele apartamento só podiam ser feitas dali a uma semana, mas havia um caminho para abreviar esse tempo.

“Ela disse que eu poderia ter o direito a prioridade no agendamento e no fechamento do contrato se eu fizesse a assinatura de um contrato de reserva daquele apartamento, mediante a aprovação da ficha cadastral e o pagamento adiantado do primeiro aluguel e condomínio”, disse a vítima.

O valor cobrado era de R$ 3,1 mil, cerca de 25% a menos que a média dos valores praticados na vizinhança, que fica a poucas quadras do Parque do Ibirapuera. A oportunidade parecia muito boa, o que aumentava o senso de urgência.

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“Estava fazendo outras coisas no dia, tinha que resolver milhares de coisas ao mesmo tempo”, disse a vítima. “Eu achei estranho o método, mas estava com pressa e decidi que precisava assinar e fazer.”

Pressa para fechar contrato

Ele então recebeu um e-mail de um suposto setor jurídico da imobiliária, com o nome correto da empresa, e enviou a documentação necessária ainda na segunda. Assim que teve o aceite, pagou o boleto.

A pressa para fechar, acredita André, foi decisiva para que ele caísse no golpe – e os criminosos pareciam saber disso. “Estava inseguro porque eu tinha percebido alguns sinais, mas, na ânsia de assinar contrato e me mudar, eu acabei deixando passar algumas coisas”, disse.

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André só percebeu o golpe quando chegou na porta do condomínio. Por lá, foi informado que o apartamento que havia reservado, de número 1.224, não existia. “Pensei que pudesse ser algum erro de digitação”, disse.

Mas a esperança passou rápido, principalmente quando a corretora parou de responder. Os funcionários também não sabiam quem era o homem apontado no contrato como o proprietário do imóvel, o que dificultava qualquer plano B.

Logo em seguida, André fez contato com o banco e se dirigiu à delegacia mais próxima, onde foi orientado a registrar um boletim de ocorrência online. Acionou também um advogado para entrar com uma notificação extrajudicial para os e-mails ligados à Amab Imóveis, empresa na qual a falsa corretora dizia trabalhar.

Ainda não se sabe se a imobiliária em questão é fictícia – ou seja, que foi criada já com o objetivo de ser usada para aplicação de golpes – ou se é uma empresa real que foi usada por terceiros para utilização em crimes. A reportagem tentou contato com a Amab Imóveis, mas não obteve retorno.

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“Minha preocupação maior é o que esses criminosos podem fazer com os dados, já que, para a aprovação da ficha cadastral, eu precisei enviar documentos, como declaração do imposto de renda e comprovante de residência, para comprovar renda”, disse André.

A sofisticação do crime impressionou. “É um nível de mau-caratismo que fiquei incrédulo que alguém se dá ao trabalho de fazer uma conversa como foi feita para ludibriar as pessoas”, disse André, que cobra critérios mais minuciosos para publicação de anúncios em plataformas de locação. “É revoltante.”

Procurada, a plataforma Viva Real afirmou que bloqueou o perfil do usuário e que está à disposição das autoridades para colaborar na apuração dos fatos. Quando se clica no link do anúncio, realmente não aparece mais nada.

“A recomendação da plataforma é visitar o imóvel antes de fechar o negócio, formalizar um contrato e verificar se os dados condizem com o negociado, assim como fazer pagamentos apenas após confirmar a veracidade da existência do imóvel. Caso o usuário perceba que as políticas estão sendo infringidas, contamos também com a sua denúncia para investigar anúncios irregulares e removê-los”, afirmou, em nota.

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A empresa não deu detalhes dos parâmetros de segurança usados. Em linhas gerais, para se cadastrar na plataforma, as imobiliárias precisam ter CNPJ ativo e fornecer informações de identificação e contato.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP) afirmou que o caso foi registrado como estelionato pela Delegacia Eletrônica e encaminhado ao 27º Distrito Policial (Campo Belo), responsável pela área. Segundo a pasta, foi instaurado um inquérito após a vítima ofertar representação criminal referente ao caso citado.

No Rio, falsos financiamentos de imóveis

No mês passado, policiais civis da 15ª delegacia de polícia da capital fluminense (Gávea) desarticularam uma quadrilha que aplicava golpes em vendas de imóveis e prenderam dois suspeitos – um homem e uma mulher – em flagrante por tentativa de estelionato e associação criminosa.

Conforme a Polícia Civil, pelo menos 25 pessoas foram vítimas do esquema pelo qual a dupla é investigada. Elas teriam perdido, cada, entre R$ 7 mil e R$ 25 mil em diferentes tipos de golpe imobiliário.

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As investigações apontam que, na prática, os golpistas se passavam por operadores de crédito imobiliário para intermediar vendas de casas e apartamentos verdadeiramente anunciados em plataformas on-line. Os criminosos, porém, não tinham qualquer autorização dos proprietários legítimos para isso.

Além disso, a quadrilha também é investigada por anunciar imóveis de baixo valor de mercado, apresentando condições facilitadas de pagamento para atrair potenciais compradores. “Uma das estratégias utilizadas consistia em exigir uma entrada de 10% do valor do imóvel, que chegava a R$ 25 mil”, diz a polícia carioca.

As negociações, segundo a polícia, eram conduzidas por uma falsa imobiliária, que direcionava as vítimas para uma suposta operadora de crédito, onde eram convencidas a assinar contratos fraudulentos, que apresentavam um financiamento inexistente. A venda não era concretizada e, assim como no caso de André, as vítimas não conseguiam mais reaver o dinheiro depositado.

Suspeitos já foram presos até em Portugal

No ano passado, dois suspeitos de integrar uma “falsa imobiliária”, que tinha vítimas brasileiras como alvo, foram presos pela Interpol em Portugal. Segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, a dupla já tinha sido alvo de mandados de busca e apreensão em Palhoça, no interior do Estado, após uma pessoa ter sido vítima do golpe um ano antes.

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Após a instauração de outro inquérito policial e a representação pela prisão preventiva dos envolvidos, os mandados foram expedidos pela 2°Vara Criminal de Florianópolis.

“Entretanto, a Divisão de Combate a Estelionatos da Capital (DCE) constatou que ambos haviam fugido do país e estavam no exterior há cerca de três meses”, diz a polícia.

A Polícia Civil, então, representou pela inclusão dos mandados de prisão preventiva da dupla no sistema informatizado da Interpol, com vista à Difusão Vermelha, e teve o pedido acatado no começo do ano passado, quando a dupla foi finalmente presa.

No fim do ano passado, a Polícia Civil de Santa Catarina deflagrou a Operação “Anúncio Fake”, com o objetivo de cumprir seis mandados de prisão preventiva e sete mandados de busca e apreensão nas cidades gaúchas de Porto Alegre, Esteio e Alvorada.

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As investigações apontaram que o grupo integraria uma quadrilha suspeita de aplicar o golpe no litoral norte catarinense, a partir do Rio Grande do Sul, levando prejuízos financeiros e frustrando as férias de quem buscava casas de veraneio em Santa Catarina. /COLABOROU MALU MÕES