'A Cracolândia acabou': vice-governador de SP diz que houve fim do fluxo de usuários
Felício Ramuth nega espalhamento, mas reconhece pequenos grupos no centro. Crédito: Gonçalo Júnior e Léo Souza/Estadão
Semanas após a saída dos usuários de drogas da Cracolândia, em maio, pequenas concentrações de dependentes químicos se espalharam pela região central de São Paulo. Seis meses depois, esses grupos estão ainda menores, mais localizados e dispersos. É bem diferente das cenas de uso e venda de crack a céu aberto, em aglomerações que tomavam até quarteirões inteiros, como na Rua Helvétia e na Praça Princesa Isabel.
Segundo o governo estadual, a maioria dos dependentes químicos que estavam na Rua dos Protestantes, o ponto que abrigou o “fluxo” da Cracolândia até maio, foi internada para tratamento contra o vício. Outra parte migrou para regiões periféricas, conforme relatos de ONGs e moradores.
Na visão de autoridades, as investigações que enfraqueceram uma base do Primeiro Comando da Capital (PCC) no centro, na Favela do Moinho, também contribuíram para o esvaziamento. Isso porque a facção usava a comunidade para abastecer o tráfico na região.
“A Cracolândia acabou e não voltará”, disse ao Estadão o vice-governador Felício Ramuth (PSD), responsável por articular as políticas contra o fluxo de usuários de drogas no centro, um problema na capital paulista desde os anos 1990.

Pela experiência de outras metrópoles que superaram esse desafio, como Nova York e Frankfurt, a combinação de políticas de segurança, saúde e assistência social de longo prazo é essencial para evitar o reagrupamento de dependentes químicos e traficantes.
Na primeira semana de novembro, a reportagem percorreu diversos pontos da região e ouviu especialistas e moradores para entender qual é a nova percepção sobre a Cracolândia.
Um dos grupos de usuários que permanecem na região central fica nas proximidades do Parque Dom Pedro II. Em uma manhã, alguns homens fumavam crack sob uma alça do viaduto Mercúrio, em frente ao Mercado Municipal. Eram 12 pessoas, divididas em pequenos círculos, muitas delas com cachimbos de crack nas mãos. Duas estavam atrás de um guarda-sol, o que impedia perceber o que faziam.
O local é um dos pontos de atenção da Polícia Militar e das equipes de saúde e assistência, segundo Ramuth. “Temos vários locais monitorados. Não são Cracolândias, são pontos de junção de usuários”, afirma.
A Prefeitura informa que equipes de assistência social percorrem diariamente pontos de ocupação momentânea ou periódica para busca ativa de pessoas em situação de rua e vulnerabilidade e 40 equipes do Consultório na Rua dão atendimento em saúde.
Outros pequenos agrupamentos foram vistos pela reportagem nas imediações da Praça Princesa Isabel e da Rua Helvétia, antigos epicentros do “fluxo”. Ali, poucas duplas e trios se movimentam de forma constante, evitando formar novas concentrações.
Os dependentes químicos ficaram muitos anos na região da Praça Júlio Prestes até 2022, quando migraram para a Praça Princesa Isabel. A praça abrigou dependentes químicos por três meses, até uma operação policial que tentou acabar com a Cracolândia, mas acabou frustrada. O resultado foi o espalhamento por várias ruas.
Para fugir da constante ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM), que impede qualquer aglomeração, os usuários hoje estão erráticos, se movimentam mais, param pouco no mesmo lugar. Em geral, eles tentam seguir pequenos traficantes que circulam pelo centro.
Por outro lado, locais que antes reuniam dezenas de pessoas agora estão praticamente vazios. As proximidades da Praça Marechal Deodoro, por exemplo, chegaram a concentrar cerca de 30 usuários até poucos meses atrás. Agora, uma base fixa da Polícia Militar opera desde maio. Só alguns moradores de rua e dependentes ainda circulam sob o Minhocão, onde também há constantes ações da GCM.

Conforme o painel de monitoramento por câmeras da Prefeitura, as cenas de uso da região da Luz registraram média de 134 pessoas durante o dia e 113 à noite, entre os dias 1º de maio e 28 de julho, nas semanas que sucederam o esvaziamento da Cracolândia na Rua dos Protestantes. Desde agosto, não há registros de usuários no entorno da Luz no painel de monitoramento.
Dados de monitoramento da Prefeitura mostram que a média diária de usuários na região em 2023 era de quase 500 pessoas, com picos de até 651 usuários no mesmo dia.
De modo geral, aglomerações de usuários têm sido rapidamente desfeitas com abordagens da PM e da Guarda Civil, a partir do monitoramento das câmeras de segurança dos programas Smart Sampa (do Município) e Muralha Paulista (do Estado). A abordagem é acompanhada por equipes de saúde e da assistência social, conforme o Executivo paulista.
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Para a Defensoria Pública de São Paulo, a fragmentação do fluxo cria novos desafios. O Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos, que presta atendimento itinerante a pessoas em situação de rua, afirma que a dispersão “dificulta o atendimento contínuo e rompe vínculos estabelecidos” com assistentes sociais e profissionais de saúde, por exemplo.
A vizinhança aponta melhora. “Não existe mais aquela aglomeração sem controle. A gente não podia circular por várias ruas. Ainda não está 100% porque há dependentes químicos circulando, mas a mudança foi bastante positiva”, afirma Iézio Silva, presidente da Associação de Moradores Campos Elíseos Melhor.
A região também deve ser impactada com o plano de transferir em 2030 a sede do governo do Estado - hoje no Palácio dos Bandeirantes, na zona sul - para o centro. A expectativa é de que a mudança atraia mais investimentos imobiliários e estabelecimentos comerciais para o entorno.
Especialistas temem que usuários voltem às ruas após internações
A maior parte dos dependentes químicos que fazia parte do fluxo está internada, segundo o Estado. Toda semana, o Hub de Cuidados, espaço de tratamento, acolhimento e encaminhamento de usuários de drogas na região central, tem direcionado uma média de 181 pessoas para hospitais especializados, comunidades terapêuticas e equipamentos de saúde. Só em 2025, foram mais de sete mil encaminhamentos.
Ao longo dos últimos três anos, foram 18 mil internações em hospitais, além de 8,5 mil acolhimentos em comunidades terapêuticas. O governo paulista afirma trabalhar em conjunto com a Prefeitura.
Mas especialistas alertam para o risco de recaída. “Os internados vão receber alta e voltar para as ruas”, diz o psiquiatra, professor e especialista em dependência química Dartiu Xavier, que comandou o programa da Prefeitura para auxiliar viciados em drogas no centro de 2013 a 2016.
Essa é a mesma preocupação de Thiago Fidalgo, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
“O tratamento da dependência química não se resume à internação”, diz. O ideal, segundo o psiquiatra, é cadastrar o endereço do paciente, ter uma unidade básica de saúde (UBS) de referência e articular consultas para o momento posterior à alta. “Isso precisa estar amarrado para que o paciente diminua o risco de recaída e retorno às ruas”, alerta.
Giordano Magri, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole, ligado à Universidade de São Paulo (USP), reconhece a importância da reconquista do espaço urbano para os moradores, mas afirma que os usuários podem se misturar à população de rua, o que dificulta a assistência. “São públicos com carências diferentes.”
Segundo Ramuth, já existe um plano pós-internação. “As equipes de saúde e assistência social possuem uma “jornada de cuidado” dos usuários, fazendo o acompanhamento pelos abrigos, hotéis sociais do município, continuando o trabalho de atendimento qualificado”, diz Ramuth.
Como a Cracolândia ‘sumiu’ em maio
Entre os dias 10 e 13 de maio deste ano, o fluxo de usuários desapareceu após meses na Rua dos Protestantes, surpreendendo comerciantes e moradores. Moradores de cidades vizinhas, como Guarulhos, relataram a chegada de ônibus com usuários vindos de outras regiões, mas as denúncias não foram comprovadas.
Ações policiais em polos de fornecimento de drogas, como na Favela do Moinho, foram fundamentais para esvaziar o tráfico na região, na visão do governo estadual e do Ministério Público.
Em agosto de 2024, a polícia prendeu Leonardo Monteiro Moja, o Léo do Moinho, acusado de ser o chefe do comércio de drogas no centro e ligado ao PCC. A defesa afirma que vai provar a inocência de Moja.
De acordo com a Promotoria, a comunidade era o ponto prioritário para armazenar e distribuir entorpecentes para a Cracolândia. O governo do Estado também está removendo as famílias do Moinho e as enviando para outros locais, de modo a evitar a retomada do território pela facção.








