Quase 200 árvores removidas chamaram a atenção de quem passava perto do aeroporto do Campo de Marte, zona norte de São Paulo, nos últimos dias.

A quantidade de troncos empilhados podia ser vista da Avenida Braz Leme por cima do muro do aeródromo na semana passada.
A Pax Aeroportos, concessionária responsável pelo aeródromo desde 2023, diz que a remoção da vegetação foi motivada por questões de segurança operacional, atendimento aos Regulamentos Brasileiros da Aviação Civil (RBACs) e obrigações previstas no contrato de concessão.
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O objetivo, segundo a empresa, foi “eliminar obstáculos que atualmente comprometem as superfícies de aproximação e de transição da pista, impactando diretamente a segurança de pousos e decolagens”.
Já a Prefeitura afirmou que novas mudas serão plantadas em outros locais (leia mais abaixo).
As chamadas superfícies de aproximação e de transição ficam em torno da pista e estabelecem limites para objetos que possam interferir nas operações aéreas. Elas garantem espaço livre para as manobras das aeronaves.
O Campo de Marte tem média de 180 movimentos (pousos e decolagens) por dia. De tempos em tempos, ressurgem debates sobre a viabilidade e a segurança de manter o terminal perto de áreas tão densamente urbanizadas - residenciais e comerciais.
Na avaliação de especialistas, o Campo de Marte registra poucos acidentes aéreos. Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) no início de 2025 apontavam 127 ocorrências em voos com origem no aeródromo nos últimos dez anos, mas a maioria delas não foi grave.
Na última ocorrência, em fevereiro, duas pessoas morreram e outras seis ficaram feridas após a queda de um avião de pequeno porte na Barra Funda, na zona oeste.
Árvores removidas serão compensadas
As árvores removidas do Campo de Marte serão compensadas com o plantio de mudas nativas em locais aprovados pela Companhia Ambiental do Estado (Cetesb) e pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, órgãos que autorizaram a remoção. Todas as árvores serão substituídas, conforme a secretaria.

A retirada foi permitida “devido ao estado fitossanitário (saúde das plantas), risco de queda e espécies invasoras com propagação prejudicial aos biomas existentes no município”, informa o órgão municipal.
Entre os exemplares removidos estão 102 da espécie leucena (cerca de 52%), classificada como exótica invasora. Também há paineiras, cedrinhos, árvores frutíferas e um exemplar de araucária. Para a substituição, serão realizados plantios de espécies nativas da cidade, além do replantio da araucária retirada.
As mudas devem ter diâmetro do tronco medido a uma altura padrão de 1,30 metro acima do nível do solo. O plantio compensatório, que vai ocupar cerca de 52 hectares, tem prazo máximo de 12 meses. O local do plantio deve ser o Parque do Campo de Marte, que será criado na região.
Especialistas apontam prós e contras
Após a compensação ambiental, o monitoramento das novas árvores é importante, na opinião de Rafael Bitante Fernandes, gerente de restauração da SOS Mata Atlântica. “Se alguém plantar e virar as costas, a efetividade do programa é zero. É preciso monitoramento e fiscalização sobre o real efeito das árvores nos serviços ecossistêmicos”, alerta.
Já o professor Giuliano Maselli Locosselli, que atua no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena USP), ressalta a diferença dos benefícios de uma árvore adulta e outra de menor porte.
“Algumas espécies crescem relativamente rápido, e isso poderia levar de 10 a 20 anos. Mas outras, de crescimento mais lento, podem levar algumas décadas até atingir o porte das árvores cortadas”, destaca.
“Uma alternativa é o plantio de mudas de qualidade de maior porte, o que acelera o processo de recomposição dos benefícios”, completa.
Aline Cavalari, coordenadora do curso de Arborização da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pondera que o balanço das compensações pode ser benéfico.
“Toda muda leva até cinco anos para desempenhar o papel ecológico, porém, quando existe risco de queda ou risco ao processo ecológico do bioma, é indicada a supressão e substituição, pois o balanço ainda assim será positivo”.
Aeroporto foi concedido à iniciativa privada em 2023
O aeroporto do Campo de Marte foi concedido à iniciativa privada após leilão do governo federal em 2022. A concessionária PAX Aeroportos assumiu a gestão em agosto de 2023, com um contrato de 30 anos. A concessão inclui o aeroporto de Jacarepaguá (RJ).
Antes da concessão, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) chegou a um acordo com o então presidente Jair Bolsonaro (PL) para extinguir a dívida de São Paulo com a União em troca da cessão do Campo de Marte à Aeronáutica.
A área de dois quilômetros quadrados era objeto de disputa há quase 90 anos, quando o então governo de Getúlio Vargas tomou posse do local durante a Revolução Constitucionalista de 1932.
Pela proposta, o terreno passou para o governo federal a partir da extinção da dívida de R$ 25 bilhões do Município.





