Por que o aeroporto do Campo de Marte, na zona norte de SP, cortou quase 200 árvores?

Concessionária aponta segurança operacional para retirar vegetação; Prefeitura diz que haverá replantio em outros locais

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Foto do autor Gonçalo Junior
Atualização:

Quase 200 árvores removidas chamaram a atenção de quem passava perto do aeroporto do Campo de Marte, zona norte de São Paulo, nos últimos dias.

Árvores cortadas, próximo da cabeceira da pista do aeroporto Campo de Marte, podiam ser vistas da Avenida Braz Leme, na zona norte, na última segunda Foto: Felipe Rau/Estadão

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A quantidade de troncos empilhados podia ser vista da Avenida Braz Leme por cima do muro do aeródromo na semana passada.

A Pax Aeroportos, concessionária responsável pelo aeródromo desde 2023, diz que a remoção da vegetação foi motivada por questões de segurança operacional, atendimento aos Regulamentos Brasileiros da Aviação Civil (RBACs) e obrigações previstas no contrato de concessão.

O objetivo, segundo a empresa, foi “eliminar obstáculos que atualmente comprometem as superfícies de aproximação e de transição da pista, impactando diretamente a segurança de pousos e decolagens”.

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Já a Prefeitura afirmou que novas mudas serão plantadas em outros locais (leia mais abaixo).

As chamadas superfícies de aproximação e de transição ficam em torno da pista e estabelecem limites para objetos que possam interferir nas operações aéreas. Elas garantem espaço livre para as manobras das aeronaves.

O Campo de Marte tem média de 180 movimentos (pousos e decolagens) por dia. De tempos em tempos, ressurgem debates sobre a viabilidade e a segurança de manter o terminal perto de áreas tão densamente urbanizadas - residenciais e comerciais.

Na avaliação de especialistas, o Campo de Marte registra poucos acidentes aéreos. Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) no início de 2025 apontavam 127 ocorrências em voos com origem no aeródromo nos últimos dez anos, mas a maioria delas não foi grave.

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Na última ocorrência, em fevereiro, duas pessoas morreram e outras seis ficaram feridas após a queda de um avião de pequeno porte na Barra Funda, na zona oeste.

Árvores removidas serão compensadas

As árvores removidas do Campo de Marte serão compensadas com o plantio de mudas nativas em locais aprovados pela Companhia Ambiental do Estado (Cetesb) e pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, órgãos que autorizaram a remoção. Todas as árvores serão substituídas, conforme a secretaria.

Prefeitura de São Paulo diz que todas as árvores cortadas no aeroporto Campo de Marte serão repostas pela concessionária Foto: Felipe Rau/Estadão

A retirada foi permitida “devido ao estado fitossanitário (saúde das plantas), risco de queda e espécies invasoras com propagação prejudicial aos biomas existentes no município”, informa o órgão municipal.

Entre os exemplares removidos estão 102 da espécie leucena (cerca de 52%), classificada como exótica invasora. Também há paineiras, cedrinhos, árvores frutíferas e um exemplar de araucária. Para a substituição, serão realizados plantios de espécies nativas da cidade, além do replantio da araucária retirada.

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As mudas devem ter diâmetro do tronco medido a uma altura padrão de 1,30 metro acima do nível do solo. O plantio compensatório, que vai ocupar cerca de 52 hectares, tem prazo máximo de 12 meses. O local do plantio deve ser o Parque do Campo de Marte, que será criado na região.

Especialistas apontam prós e contras

Após a compensação ambiental, o monitoramento das novas árvores é importante, na opinião de Rafael Bitante Fernandes, gerente de restauração da SOS Mata Atlântica. “Se alguém plantar e virar as costas, a efetividade do programa é zero. É preciso monitoramento e fiscalização sobre o real efeito das árvores nos serviços ecossistêmicos”, alerta.

Já o professor Giuliano Maselli Locosselli, que atua no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena USP), ressalta a diferença dos benefícios de uma árvore adulta e outra de menor porte.

“Algumas espécies crescem relativamente rápido, e isso poderia levar de 10 a 20 anos. Mas outras, de crescimento mais lento, podem levar algumas décadas até atingir o porte das árvores cortadas”, destaca.

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“Uma alternativa é o plantio de mudas de qualidade de maior porte, o que acelera o processo de recomposição dos benefícios”, completa.

Aline Cavalari, coordenadora do curso de Arborização da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pondera que o balanço das compensações pode ser benéfico.

“Toda muda leva até cinco anos para desempenhar o papel ecológico, porém, quando existe risco de queda ou risco ao processo ecológico do bioma, é indicada a supressão e substituição, pois o balanço ainda assim será positivo”.

Aeroporto foi concedido à iniciativa privada em 2023

O aeroporto do Campo de Marte foi concedido à iniciativa privada após leilão do governo federal em 2022. A concessionária PAX Aeroportos assumiu a gestão em agosto de 2023, com um contrato de 30 anos. A concessão inclui o aeroporto de Jacarepaguá (RJ).

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Antes da concessão, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) chegou a um acordo com o então presidente Jair Bolsonaro (PL) para extinguir a dívida de São Paulo com a União em troca da cessão do Campo de Marte à Aeronáutica.

A área de dois quilômetros quadrados era objeto de disputa há quase 90 anos, quando o então governo de Getúlio Vargas tomou posse do local durante a Revolução Constitucionalista de 1932.

Pela proposta, o terreno passou para o governo federal a partir da extinção da dívida de R$ 25 bilhões do Município.