Rio Claro, em São Paulo, é palco de confrontos entre o CV e o PCC
Membros do Comando Vermelho saem do Rio de Janeiro para executar traficantes rivais no interior de SP. Crédito: Polícia Civil
RIO CLARO - Com 30 anos recém-completados, Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, o Léo Bode, é apontado por autoridades policiais como o principal líder da “filial” do Comando Vermelho (CV) que se formou em Rio Claro, no interior de São Paulo. Apesar de ser da cidade, ainda assim, ele não coordena as ações a partir de lá. Procurada em diferentes horários, a defesa de Calixto não retornou.
Investigações obtidas pelo Estadão apontam que, já há alguns anos, Léo Bode estaria morando em comunidade controlada pelo CV no Rio de Janeiro, cidade que, mesmo a 600 quilômetros de Rio Claro, tornou-se abrigo também para outros criminosos do interior paulista.
São nomes que, assim como Léo Bode, entraram para o CV principalmente por proteção após se tornarem alvo da polícia e serem “decretados” (jurados de morte) pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Depois de um tempo, porém, passaram a usar isso a favor dos negócios, com intensificação até do envio de cocaína para o Rio.
Como já mostrou o Estadão, não é uma migração atípica: integrantes da alta cúpula do Comando Vermelho com atuação na Amazônia, por exemplo, pagam ao menos R$ 50 mil mensais para traficantes do Rio para se abrigar em esconderijos nos complexos da Penha e do Alemão, alvos da operação com mais de 120 mortes no ano passado.
Em nota, a Polícia Civil do Rio afirma que dados de inteligência apontaram que a ida de criminosos de outros Estados para o Rio possibilitou uma aliança estratégica, principalmente do CV, com outras facções de todo o País. Segundo a instituição, mais de 500 suspeitos de outros Estados foram presos pelas forças de segurança do Estado desde setembro de 2024.
A Polícia Civil acrescenta que, por meio de delegacias especializadas e distritais, “investiga de forma contínua a atuação de facções e realiza diligências permanentes para identificar e responsabilizar todos os envolvidos na cadeia criminosa ligada a esses grupos”.

Ainda com a ida de parte dos integrantes para o Rio, os braços da filial paulista do CV se espalham por diferentes regiões, mostram as investigações. Nesta quarta-feira, 11, ao menos cinco suspeitos foram presos em operação conjunta realizada pela Polícia Civil e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado (MP-SP).
Os alvos, que estavam não só em Rio Claro, mas em cidades como São Carlos, Ribeirão Preto e Indaiatuba, seriam diretamente ligados a Léo Bode, de acordo com a Polícia. O chefe do Comando Vermelho na cidade paulista, no entanto, segue foragido, assim como nomes apontados como aliados próximos dele, em cenário que tem desafiado as autoridades com atuação em São Paulo.

Ascensão de Bode
As investigações apontam que Léo Bode despontou no mundo do crime inicialmente como integrante do Bonde do Magrelo, comandado por Anderson Ricardo de Menezes, conhecido como Magrelo ou Teneré – foi o grupo que, formado inclusive por dissidentes do PCC, primeiro teve embates com a facção paulista, a partir de 2021.
“Eram parceiros do PCC, nomes tidos como associados, que vendiam drogas, faziam serviços diversos e até homicídios a pedido deles. Em determinado momento, porém, se desentenderam e começaram a se matar”, afirma o delegado Paulo Cezar Junqueira Hadich, chefe da Delegacia Seccional de Rio Claro.

Teria sido após a prisão de Menezes, há três anos, que Léo Bode entrou de vez para a facção carioca, mudando-se para a capital fluminense. Agora, dita o crime na cidade do interior paulista a partir do Rio por meio de “braços” para executar as tarefas, incluindo execuções em espécie de bate-volta em Rio Claro, como mostrou o Estadão.
Os advogados Mauro Ribas e Renato Soares, responsáveis pela defesa de Menezes, afirmam que o cliente é inocente e nunca “comandou ou participou de qualquer organização criminosa”. Negam ainda que ele tenha envolvimento com assassinatos e dizem confiar na reversão da condenação de Menezes nos tribunais superiores – hoje ele cumpre pena de 23 anos por um homicídio em 2022.
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‘Você eu vou pegar só no fuzil’
Somente nos últimos cinco anos, foram ao menos 30 assassinatos ligados ao crime organizado em Rio Claro – praticamente um quinto dos homicídios dolosos registrados lá –, estima a polícia. Alguns envolvem acertos de conta dentro dos próprios grupos criminosos, mas muitos opõem PCC e CV, em disputa sangrenta no interior.
Em um dos casos mais recentes, Ryan Igor Cândido, de 21 anos, é acusado de executar um homem com tiros pelas costas em agosto do ano passado após pegar um ônibus na Rodoviária do Rio rumo a Piracicaba (SP), segundo investigação da Polícia Civil. O crime ocorreu em Rio Claro, no dia seguinte ao desembarque.
Apontado como um aliado direto de Léo Bode, Ryan teria acesso inclusive a uma arma de grosso calibre com uma bandoleira com as iniciais do Comando Vermelho – CV – cravadas na bandeira de São Paulo. Há imagens com referências ainda à chamada “Equipe Bode”, em alusão a Calixto. A defesa de Ryan não foi localizada.

Predomina a leitura de que uma série de prisões – incluindo a de Magrelo –, além das mortes decorrentes da batalha entre PCC e CV, enfraqueceram as duas facções na cidade, mas a tensão persiste. Apreensões recentes, inclusive de armamentos pesados no fim do ano passado, indicam planos de novos ataques.
O fim de 2024 é apontado como um dos períodos mais delicados. Por volta das 8h30 do 23 de novembro de 2023, um homem de 21 anos foi morto a tiros em uma barbearia localizada no Jardim das Palmeiras. Foram cerca de 30 disparos. Autoridades da região apontam que ele seria próximo do grupo de Magrelo.
Na noite do mesmo dia, veio a resposta: quatro homens foram mortos em nova execução na cidade, desta vez em ação na Avenida dos Costas. Ao menos quatro atiradores participaram da ação. Desta vez, os alvos do ataque seriam nomes ligados ao Primeiro Comando da Capital.
A escalada nos conflitos gerou ameaças de ambos os lados. Em gravação de conversa telefônica obtida pelo Estadão, Léo Bode e Gerlon Ferreira da Silva, o Matraca – que atuaria pela facção paulista na região –, trocam ameaças. “Você eu vou pegar só de fuzil”, ameaça Calixto. “Encosta e vem”, responde Matraca, que foi preso no ano passado. A defesa de Silva não foi localizada.
Rota Caipira
As investigações apontam que os embates, ao menos no primeiro momento, não envolveram a cúpula da facção paulista, mas traficantes ligados a biqueiras e a esquemas locais. Isso não exatamente atrapalhava a importação da cocaína por estradas que vêm principalmente da Bolívia, na chamada “Rota Caipira”.
Com a escalada das mortes, porém, ao menos um nome ligado ao alto escalão do PCC foi identificado na região – era preciso estancar a matança e impedir um maior avanço do Comando Vermelho em território paulista. Próxima de rodovias como a Washington Luís, Rio Claro ocupa posição estratégica na cadeia de importação de armamento e drogas que parte de países vizinhos.
Autoridades afirmam que a entrada de criminosos locais para o Comando Vermelho resultou não só em proteção para o grupo, mas na intensificação de um canal de negócios – não que a facção carioca não tivesse aliados na região antes, mas isso subiu de patamar.
Em março do ano passado, a Polícia Militar localizou, durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão, quase 100 quilos de droga – incluindo cocaína, maconha e dry – em um sítio em Hortolândia que seria usado como uma espécie de entreposto logístico pela filial do Comando Vermelho na região.

Além da droga, foram encontrados no sítio mais de R$ 20 mil em espécie, incluindo em dólar, além de uma pistola, uma espingarda e mais de 200 munições de diferentes calibres. O dono do local foi preso em flagrante. As investigações apontam que ele tinha passagens criminais por crimes de formação de quadrilha e roubo.
Conforme as investigações, o local passou a ser mapeado depois que Léo Bode e nomes como Edvaldo Luis Lopes Júnior, o Gão, tido como seu braço logístico, foram localizados por perto, em meio a idas e vindas entre a capital fluminense e Rio Claro. Chama atenção que parte das cargas estavam inclusive com as iniciais do CV. Procurada, a defesa de Lopes Júnior não retornou.
Idas e vindas
A vida dúbia de criminosos, que passaram a viver entre Rio e Rio Claro, mudou inclusive as dinâmicas dos homicídios na região. Em setembro do ano passado, o Ministério Público denunciou Léo Bode e Gão por homicídio duplamente qualificado consumado e tentativa de homicídio qualificado.
A dupla é acusada pelas execuções de Arthur Henrique Curilla Garcia, o Irmão R, e Marco Aurelio Almeida da Cruz, e pela tentativa de homicídio de Suelen da Rocha Franco, em dezembro de 2024 – Gão, tido como braço direito de Bode, está em prisão temporária, enquanto o chefe da filial do CV em Rio Claro segue foragido.

Conforme os autos do processo, obtidos pelo Estadão, Gão e um comparsa atiraram contra o trio com armamento de alto poder ofensivo, incluindo pistolas e fuzis, quando na Rua 6, em Rio Claro. Depois, abandonaram e incendiaram o Chevrolet Prisma usado perto da Rodovia Fausto Santo Mauro, nos arredores do distrito de Assistência.
As investigações apontam que o crime ocorreu porque Arthur, apontado como integrante do PCC, teria se deslocado até a casa da mãe de Bode e “proferido ameaças contra ela e seu filho”. Quando Léo Bode ficou sabendo do episódio, determinou que seus comparsas executassem Arthur e alguns de seus aliados. Ele e Marco Aurélio morreram no local, enquanto Suelen sobreviveu após ser socorrida.
Segundo o inquérito, Gão se deslocou da cidade do Rio de Janeiro para Rio Claro somente para cometer o crime. Depois, dormiu uma noite em Araras, uma espécie de QG do Bode, e retornou para a capital fluminense. As roupas usadas na data da execução foram queimadas dias depois, segundo a polícia.
“Chegando na rodoviária agora”, escreveu para a mulher por volta das 13h de 9 de dezembro daquele ano. Gão foi preso posteriormente após ser encontrado pela polícia em um endereço alvo de mandado de busca e apreensão, e negou qualquer envolvimento com o crime durante interrogatório.








