Sob briga de Nunes com Enel, SP ainda está longe da meta de enterrar fios de postes

Prefeitura diz que a responsabilidade é da concessionária de energia e das empresas que usam cabos. Enel culpa setor de telecomunicações, que aponta trabalho caro e complexo

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Foto do autor Malu Mões

Oito desafios para a São Paulo dos próximos anos | #Estadão150

Crédito: Edição: João Abel | Imagens: Bruno Nogueirão/Estadão e Motion Array

A cidade de São Paulo chegou a uma nova temporada de chuvas sem cumprir a meta prevista de enterramento de fios de postes, estratégia para reduzir o risco de apagões durante temporais.

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Não é um plano viável colocar toda a rede de fios da capital (cerca de 20 mil quilômetros) sob o solo diante de seu alto custo e da complexidade da operação, mas especialistas defendem ser uma saída eficiente para lugares mais críticos, como aqueles de grande concentração de árvores e onde há serviços essenciais, como hospitais.

Paralelamente, é preciso modernizar a rede elétrica e investir no manejo arbóreo para evitar interferência na fiação. Com as mudanças climáticas, eventos extremos como tempestades e vendavais ficarão cada vez mais frequentes.

Em 2022, a promessa da gestão municipal, sob Ricardo Nunes (MDB), era chegar a 65,2 km até o fim do ano passado. A meta, porém, não foi cumprida. Desde quando foi criado, em 2017, o programa SP Sem Fios enterrou 46,5 km de rede subterrânea até agora.

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Agora, a nova previsão da Prefeitura é ultrapassar os 88 km antes de 2026 encerrar, “dependendo do avanço conjunto das empresas responsáveis pelas obras e pelos aportes financeiros”. E frisa: a responsabilidade é da concessionária de energia elétrica, a Enel, e das companhias de telecomunicações.

A Enel afirma que a conclusão do enterramento depende dessas empresas. A Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (Telcomp), por sua vez, aponta que o trabalho é caro e demorado (leia mais abaixo).

Postes de fios na Alameda Eduardo Prado, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

A Prefeitura afirma que obras desse tipo têm “alta complexidade técnica e operacional, por ocorrerem em áreas com grande concentração de empresas e interferências no subsolo”.

E diz que não cabe ao Município a execução, mas só “a organização do cronograma e o acompanhamento das obras”. Os custos, acrescenta, “são arcados pelas concessionárias ou permissionárias responsáveis pelas redes que serão migradas para o subsolo, além da Enel, que executa a retirada dos postes”.

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Embates públicos entre a Enel e a gestão Nunes têm sido frequentes desde 2023, quando um apagão deixou mais de 3 milhões de imóveis sem energia na Grande São Paulo.

A Prefeitura ainda aponta um entrave jurídico sobre a competência para definir o regramento sobre o tema: se cabe ao Município ou à União, o que “interfere inclusive na eficiência da Prefeitura de cobrar das empresas a execução das metas”.

O Ministério de Minas e Energia afirma que a responsabilidade pela execução e manutenção das redes elétricas é das concessionárias, sob regulação e fiscalização da Aneel, a agência reguladora do setor.

Passarinhos fizeram ninho em emaranhado de fios em poste na Rua Coronel Marcílio Franco, na Vila Mazzei, zona norte de São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

A Enel, por sua vez, diz que “74,8 km de fiação de energia foram enterrados” desde 2017. Mas a empresa contabiliza em seus cálculos apenas os fios elétricos, e não o processo completo, com o enterramento também da rede de telecomunicações e a retirada dos cabos e dos postes das vias.

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Desse total de 74,8 km enterrados, a empresa admite que só 42% dos postes dessas áreas foram removidos. “Para retirar o restante, a Enel aguarda a conclusão dos trabalhos das empresas de telecomunicações, que fazem uso compartilhado do espaço e são notificadas antecipadamente, como prevê a regulamentação”.

A empresa cita o caso da Alameda Santos, na região dos Jardins, onde já transferiu a rede elétrica para o subterrâneo, mas diz esperar as empresas de telecomunicações para retirar os postes restantes até o fim de dezembro.

Para evitar apagões nas épocas de chuva, a Enel prevê investimento de R$ 10,4 bilhões até 2027 para modernizar a rede, além do reforço de equipe e realização de 448 mil podas preventivas até setembro.

Apesar do enterramento de fios, postes ainda não foram retirados da Alameda Santos. Foto: Felipe Rau/Estadão

Para o presidente executivo da TelComp, Luiz Henrique Barbosa, os problemas da fiação são um sintoma do mau planejamento urbano. “A cidade cresce de maneira desordenada. O subterrâneo é todo mal mapeado. Tem rede de água, de esgoto, pluvial, de energia, de gás. Vai demorar dezenas de anos e bilhões de reais para fazer o enterramento em toda a cidade. Não existe milagre”, diz.

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Barbosa cita diversos fatores para a complexidade e demora do processo:

  • Alto custo (segundo a entidade, cada metro de fio enterrado custa, em média, R$ 4 mil);
  • Subsolo mal mapeado
  • Licenças para obras costumam ser noturnas, quando a lei do Psiu proíbe barulhos;
  • Falta de mão de obra qualificada;
  • Incidentes com redes elétricas e de gás, que exigem reparos não previstos;
  • Há ruas com até 26 operadoras de telecomunicações (empresas, com redes distintas de fios), o que torna a negociação e o processo de enterramento mais complexos;
  • Cabos clandestinos e de crime organizado (como o chamado “gato net”) dificultam a remoção das redes.
Galhos de árvores se embolam em fiação aérea na Praça do Pombo, na esquina da Avenida Ibirapuera, na zona sul da capital paulista.  Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O custo total para enterrar os 88 km é estimado em R$ 323 milhões. Segundo a Telcomp, o projeto inclui o enterramento nas seguintes regiões:

  • Alameda Santos, Consolação, Nove de Julho, Vila Olímpia, Major Diogo, José Paulino, Gasômetro — concluídos;
  • Parque da Independência — 5,8 km — concluído parcialmente (falta 1 km);
  • Bela Vista — 5,6 km — em andamento;
  • Higienópolis — 7,6 km — em fase de licenciamento e licitação;
  • Santa Cecília — 11 km — em fase de licenciamento e licitação;
  • Santa Ifigênia — 4 km — em fase de licenciamento e licitação;
  • Mercadão — 12,9 km — não iniciado.

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Além de reduzir a possibilidade de blecautes, a rede subterrânea diminui o risco de acidentes com fios soltos e diminui a poluição visual.

Fiação aérea no bairro de Higienópolis, no centro da capital paulista, região prevista para ter enterramento. Foto: Felipe Rau/Estadão

Para a associação de telecomunicações, dessa vez, a promessa dos 88 quilômetros até o fim de 2026 é viável porque as obras já estão em execução. “Não é algo que vai começar do zero”, afirma Barbosa.

Fio enterrado custa dez vezes mais, diz Aneel

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) diz, em nota, que a escolha do tipo de infraestrutura cabe às distribuidoras. “Visto que o custo de redes subterrâneas é cerca de 10 vezes maior que o de redes aéreas, a adoção poderia provocar uma elevação da tarifa para níveis não toleráveis”, afirma.

A agência acrescenta que, “uma vez que os recursos são escassos, seu direcionamento a projetos não prioritários pode resultar na piora da prestação do serviço”.

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O Ministério de Minas e Energia diz ainda que o enterramento cabe aos municípios e às distribuidoras, sem destinação de verbas federais específicas para isso. “A política, se adotada, deve ser conduzida pelos municípios, que podem buscar parcerias com as distribuidoras e outras prestadoras de serviço, garantindo as fontes de financiamento necessárias sem repassar os custos às tarifas de energia”, continua.

Responsável por inquéritos contra a Enel, o promotor do Ministério Público de São Paulo Silvio Marques participou entre 2022 e 2023 de um grupo técnico com a Prefeitura que analisou o processo de transferir os fios para uma rede subterrânea. “O enterramento evita uma série de problemas, como a queda de árvores sobre os fios, que interrompe a energia elétrica e a transmissão de dados”, diz.

Para Marques, o governo federal é o único com competência legal para exigir o enterramento dos fios.

Emaranhado de fios na Alameda Eduardo Prado, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista. Foto: Tiago Queiroz /Estadão

Pesquisador da FGV sobre regulamentação energética, Diogo Lisbona vê o risco de o enterramento resultar em contas de luz mais caras. “A tarifa de eletricidade no Brasil já é cara para os padrões de um país de renda média, quando comparamos com outros países.”

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Bandeira nacional encosta em fiação na Alameda Eduardo Prado, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Relatório do ano passado do Tribunal de Contas do Município (TCM-SP) sobre o serviço da Enel destaca que “as distribuidoras não podem ser obrigadas a realizar o enterramento de fios e arcar com os custos”.

O TCM afirma que a substituição da rede aérea pela subterrânea é “complexa”, apesar de vantagens:

  • Menor risco de danos por intempéries, como quedas de árvores, ventos fortes, raios e vandalismo;
  • Diminuição do risco de acidentes com fios elétricos caídos, como eletrocussão e incêndio;
  • Maior vida útil da rede, que, por ser subterrânea, ficará mais protegida e deve durar mais.
Esquina da Alameda Santos com Rua Augusta, no bairro Cerqueira César, zona oeste de São Paulo, em 2022, antes do enterramento. Foto: Tiago Queiroz/Estadão