Tensão faz ônibus deixarem de circular e causa toque de recolher na periferia

No Parque Bristol, zona sul, motoristas de viações transformaram 83ºDP em ponto final; PM decide pôr agentes à paisana em coletivos

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Por Bruno Paes Manso , , William Cardoso e Ricardo Valota
Atualização:

Texto atualizado às 02h25.

 

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SÃO PAULO - Em meio a onze ataques a ônibus em menos de uma semana, o 11º registrado no final da noite, sete linhas deixaram de circular nesta quarta-feira, 27, após as 20 horas, na região do Sacomã, periferia da zona sul de São Paulo, apesar da promessa da polícia de colocar PMs à paisana nos coletivos. Na área do Parque Bristol, a mesma onde está o Sacomã, moradores e comerciantes acusaram policiais militares de decretar toque de recolher e jogar bombas de efeito moral na noite de terça-feira, 26, para evitar gente nas ruas. A PM nega. Ainda na zona sul, já na madrugada desta quinta-feira, uma base da PM foi alvo de atiradores.

 

Na tarde desta quarta, a empresa Via Sul anunciou que retiraria de circulação sete linhas de ônibus para evitar atentados. Até as 20h, a São Paulo Transporte (SPTrans), que controla o sistema de transporte coletivo da capital, não informou se seria acionado algum esquema especial para atender as linhas que deixassem de circular. Durante o dia, pelo menos três linhas transferiram seu ponto final para as proximidades do 83.º DP, por temor de ataques. Por volta das 18h30, um ônibus que fazia a linha Jardim Maristela-Santa Cruz foi atacado com três coquetéis molotov (um deles não acendeu), na Rua Professor Silas Matos, altura do n.º 700. O coletivo, que estava sem passageiros, teve dois bancos queimados e três vidros quebrados.

 

Os problemas não se resumiram à zona sul. De madrugada, usuários de ônibus da Viação Sambaíba bloquearam a Avenida Cruzeiro do Sul, ao lado do Terminal de Ônibus de Santana, na zona norte da capital, para reclamar da falta de condução. A Sambaíba recolheu veículos na noite de terça, após o registro de três atentados no Tremembé em menos de duas horas. Por volta da 1 hora, dezenas de passageiros revoltados seguiam no terminal. Era o caso de Liliane Aparecida, de 26 anos, que dizia não ter como voltar para casa, no Jardim Felicidade, zona oeste de São Paulo. "Estou desde as 5h da manhã fora de casa. Eles não têm ônibus para levar os trabalhadores para casa."

 

À paisana. Já a PM determinou nesta quarta que homens à paisana fossem espalhados pelas linhas de ônibus para evitar novos ataques ao transporte público. A estratégia foi elaborada depois de uma reunião na cúpula da segurança pública. "Os incêndios aos ônibus ocorreram nas zonas norte, sul e leste, quando os carros passam por lugares ermos, com pouca gente no veículo, três ou quatro pessoas", explicou o coronel Marcos Chaves, do Comando de Policiamento da Capital.

 

Apesar do reforço, Chaves acredita que a situação "não é tão grave". Segundo ele, ainda não foi identificada a autoria dos ataques. "Essa facção (Primeiro Comando da Capital) foi desarticulada pelas ações policiais e os líderes estão isolados nas prisões. Ainda não conseguiu se reestruturar", ressaltou. O coronel acredita que as ações podem estar sendo feitas por bandidos querendo se passar por integrantes da facção ou até mesmo por policiais ligados a quadrilhas criminosas. Desde terça, 31 pelotões da Força Tática estão indo para as ruas em ações que se concentram entre as 18 horas e a 1 da manhã. As ações priorizam os lugares com maior incidência de homicídios. Foi justamente essa operação da Força Tática que, segundo os moradores do Parque Bristol, teria determinado um toque de recolher desde segunda-feira, 25.

 

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Portas fechadas. Segundo comerciantes da Rua Manuel de Aires, PMs da Força Tática determinaram o fechamento das portas às 19h30 da terça-feira. Na intenção de obrigar as pessoas a sair das ruas, PMs teriam até atirado bombas de efeito moral. "Puxaram a minha mulher pelo braço e a jogaram na parede. Um deles gritava ‘Eu mandei vocês saírem da rua’. Acho que não precisava de nada disso", afirmou um cobrador de 27 anos.

 

Às 23h35, um ônibus foi incendiado na região. Mas, segundo os próprios moradores, foi uma resposta de pessoas insatisfeitas com a ação policial de horas antes. Segundo o titular do 83.º DP, Enjolras Rello Araujo, não há motivo para apreensão. "Estou desde as 6h em serviço e garantimos a segurança da população." Já o coronel Leonardo Ribeiro, do Comando de Policiamento da Capital, negou que os policiais da Força Tática tenham agido de forma violenta. "As operações têm o objetivo de garantir a presença das pessoas na rua, não determinar toque de recolher". Segundo o coronel, também não foram lançadas bombas de efeito moral.

 

"Não houve nenhum tipo de registro." No entanto, o clima de tensão no bairro seguiu durante todo o dia. O medo de novos tumultos fez, por exemplo, que pais de alunos da creche São Savério buscassem os filhos mais cedo, no início da tarde.

 

Ferraz -  O 11º ataque ocorreu por volta das 22 horas desta quarta-feira, 27, na Rua Américo Trufelli, no Parque Dourado, próximo a um conjunto habitacional da CDHU, em Ferraz de Vasconcelos, na região leste da Grande São Paulo. Cerca de 20 adolescentes, um deles armado com uma pistola, forçaram a parada do coletivo, da Viação Radial, que opera linha intermunicipal 460 (Vila São Paulo - Metrô Artur Alvim), e alguns invadiram o veículo.

 

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Após roubarem cerca de R$ 40,00 da catraca, os criminosos, que também carregavam um galão com gasolina, começaram a espalhar o combustível no ônibus e encharcaram também a roupa do cobrador, ameaçando atear fogo nele. Mas a vítima, assim como os passageiros e o motorista, conseguiram abandonar o ônibus antes dele ficar em chamas. Os bombeiros foram acionados e apagaram o fogo, que destruiu o coletivo.

 

Até as 2 horas desta madrugada de quinta-feira, 28, nenhum suspeito havia sido detido por policiais militares da 3ª Companhia do 32º Batalhão. Segundo a polícia, no ataque ao ônibus ninguém ficou ferido. O caso foi registrado no Distrito Policial Central da cidade.

 

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