Os 8 traços da masculinidade tóxica

Narcisismo, preconceito sexual e sexismo benevolente são algumas das características encontradas em homens que perpetuam comportamentos socialmente destrutivos

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Por André Bernardo
Atualização:
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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*Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

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Para muitos homens, o cuidado é uma atribuição essencialmente feminina. Elas cuidam dos filhos (e da casa) enquanto eles trabalham fora. É o que a ciência chama de centralidade da identidade de gênero. Outros exemplos? O choro e a fragilidade. É por essa razão que, segundo alguns representantes da espécie, o homem não chora nem demonstra fraqueza.

A centralidade da identidade de gênero é o primeiro de oito indicadores de masculinidade tóxica listados em um estudo conduzido por pesquisadores da Austrália e da Nova Zelândia e publicado na revista Psychology of Men & Masculinities.

“Reconhecemos um homem tóxico quando vemos um, mas temos dificuldade para identificá-lo. Afinal, a masculinidade tóxica não é um transtorno que encontramos no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais)”, afirma Deborah Hill Cone, doutoranda da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e primeira autora do artigo. “É um conceito vago, mas bastante usado. Para definir o que é um homem tóxico, nos baseamos em conceitos como narcisismo e homofobia”.

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Os outros sete indicadores são preconceito sexual, desagradabilidade, narcisismo, sexismo hostil, sexismo benevolente, oposição a iniciativas de prevenção à violência doméstica e orientação de dominância social:

  1. Centralidade da identidade de gênero – Quando o homem adere às normas masculinas e rejeita as práticas femininas. Muitos veem o choro, a fragilidade e o cuidado como demonstrações de fraqueza. Outros precisam comprovar que são homens. Como? Adotando comportamentos de risco, por exemplo.
  2. Preconceito sexual – Determinados padrões de comportamento, como a normalização da violência para resolver conflitos e demonstrar força, são impostos aos homens. Quando tais padrões não são seguidos, são discriminados. Homens gays, bissexuais ou afeminados são considerados “menos homens”.
  3. Desagradabilidade – Sentimentos como medo, tristeza ou afeto são associados às mulheres. Por essa razão, precisam ser reprimidos. Virilidade é sinônimo de agressividade. Conflitos devem ser resolvidos através da força, não do diálogo. As mulheres são objetificadas ou ridicularizadas.
  4. Narcisismo – O narcisista é aquele que se acha melhor. No caso dos homens, se julgam superiores às mulheres. Merecem ocupar cargos superiores e ganhar salários melhores. Por terem baixa autoestima, precisam dominar o outro. Desde crianças, são ensinados a competir para provar valor.
  5. Sexismo hostil – Os homens se consideram superiores às mulheres. Mais fortes, mais inteligentes, mais capazes. Para eles, as mulheres não são aliadas, são inimigas. Sentindo-se ameaçados, recorrem a atitudes sexistas e misóginas. Algumas são motivo de piada. Outras viram objeto sexual.
  6. Sexismo benevolente – Mais sutil que o sexismo hostil. Mulheres são vistas como pessoas frágeis e indefesas que precisam ser protegidas por homens viris e indestrutíveis. Reforça estereótipos de gênero que colocam a mulher numa espécie de categoria de segunda classe. O sexista benevolente não acredita que é tóxico. 
  7. Oposição à prevenção da violência doméstica – Os homens culpam as mulheres pela violência que elas sofrem. Se sofreram algum tipo de abuso é porque estavam no lugar errado, na hora errada, com a roupa errada. O homem nunca é culpado de nada. A mulher é sempre a responsável por tudo.
  8. Orientação de dominância social – Há uma hierarquia social que precisa ser respeitada. Os homens, por serem supostamente mais fortes, devem ocupar posições superiores. Os homens têm sempre a última palavra em qualquer discussão. Na cabeça deles, a força física é prova de virilidade.
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Deborah se apressa em explicar que o estudo dela não é um teste online ou um questionário médico do tipo: “Quantos indicadores uma pessoa precisa ter para ser considerada tóxica?”.

“Se eu tivesse que escolher o indicativo ‘mais tóxico’, escolheria o sexismo hostil. Ele se baseia na crença de que as mulheres querem obter vantagens injustas sobre os homens. Indivíduos com alto teor de sexismo hostil buscam punir mulheres que são vistas como violadoras das normas de gênero, como mulheres que ocupam cargos hierárquicos superiores ou que são adeptas do feminismo”, explica a pesquisadora. “Já o sexismo benevolente ocorre quando os homens têm crenças paternalistas de que as mulheres são frágeis ou indefesas. Portanto, precisam da proteção deles.”

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Pai de Instagram

Nina Silva conhece parte desses traços problemáticos. Ela estava no nono mês de gravidez quando o marido resolveu fazer um churrasco em casa. Sem conseguir dormir e com um barrigão daqueles, ligou para uma amiga: “Posso ir para sua casa?”. “Peguei as minhas coisas e fui”, relata. “Estava exausta. Precisava descansar”. Era um indício do que estava por vir.

Quando soube que a Bebel Books, uma editora independente de quadrinhos, estava à procura de histórias reais sobre masculinidade tóxica, Nina resolveu contar a sua, ou melhor, a de Bruna. Na HQ #PaideInstagram, ilustrada por Bennê Oliveira para o livro Boy Dodói, Bruna é uma mãe que, apesar de casada com Rafael, cuida da filha praticamente sozinha.

Quando a menina completa cinco anos, o pai sai de casa e pede a guarda compartilhada. “Todas as fotos do Instagram do meu ex são com a minha filha. Quem não o conhece, pensa até que é o ‘pai do ano’”, ironiza Nina.

Um dia, Bruna resolve “compartilhar” as responsabilidades também. Daquele dia em diante, Rafael tem de agendar as consultas médicas da filha, então com sete anos, e não aguenta por muito tempo. “Não dá, Bruna”, explode ele. “É muita coisa para eu fazer! Não dou conta de tudo.”

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“Acho que ele ainda não leu Boy Dodói. Na época em que a gente morava junto, tinha rompantes de violência e agressividade. Tenho medo da reação que ele pode ter”, desabafa Nina.

Trecho da HQ #PaideInstagram, de Bennê, com relato de Nina Silva. Foto: Reprodução/Boy Dodói

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Homens x garotos

A ideia de reunir relatos de masculinidade tóxica em um livro nasceu em 2022, durante uma conversa de bar em Belo Horizonte. “Tô cansada de tanta história de boy dodói”, desabafou a editora Bebel Abreu para as quadrinistas Helô D’Angelo e Carol Ito. Logo as três criaram uma chamada aberta no Instagram para mulheres e pessoas não binárias.

Das 307 histórias recebidas, entre episódios doloridos, absurdos e tragicômicos, elas escolheram 11 com alguns tipos bastante recorrentes. “Vampiro de autoestima” (“quando o boy não suporta ver a mulher se destacando no que quer que seja”, explicam as três), “Pôdi” (“quando apresenta falta de higiene pessoal e não realiza as tarefas domésticas básicas”) e “Mamãe mandou” (“quando o cordão umbilical com a mãe parece intacto na vida adulta”) são apenas alguns deles.

“Todos os tipos mencionados no livro são tóxicos em alguma medida. Suas ações trazem consequências como a humilhação de não ser assumida em público ou o medo de se relacionar depois de receber um ghosting. Mas a gente priorizou histórias com mensagens otimistas de imposição de limites, de libertação e de retomada do amor próprio. Boy Dodói é um livro otimista, que acredita no diálogo, na reflexão e na melhora de comportamento”, afirma Bebel.

Machismo mata!

Há pelo menos mais dois tipos: os red pills (“pílulas vermelhas”, numa alusão ao filme Matrix, de Lana e Lilly Wachowski) e os incels (“celibatários involuntários”, do inglês involuntary celibates). “São grupos que supostamente denunciam a ‘humilhação’ dos homens, em função das mudanças políticas e sociais de gênero, e valorizam a dominação masculina, a partir do ódio declarado às mulheres”, explica o psicólogo Edgley Duarte de Lima, doutor pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e autor de Homens, Masculinidades e Psicanálise (Blucher, 2023).

Embora sejam de difícil identificação, como admite Deborah, os homens tóxicos têm em comum o controle e a desvalorização sistemática da autoestima do outro. Os sinais mais característicos, apesar de muitas vezes sutis, são: controle excessivo disfarçado de cuidado, afastamento gradual de amigos e familiares, ciúme exagerado em nome do amor e alternância entre demonstrações de carinho e frieza.

Homens com traços de masculinidade problemática podem ter dificuldades de aceitar mulheres ocupando cargos superiores e ganhando salários melhores. Foto: Minerva Studio/Adobe Stock

“Um homem abusivo e dominador só tem sucesso quando encontra sua vítima, ou seja, alguém que o idealize e não perceba o processo lento e gradual de manipulação a que é submetido. O objetivo do abusador é desconstruir qualquer nível de autoestima da vítima e ativar mecanismos de dependência. Isso torna a separação difícil”, alerta a psicanalista Malvina Muszkat, mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autora do livro O Homem Subjugado – O Dilema das Masculinidades no Mundo Contemporâneo (Summus, 2018).

Machismo x masculinidade tóxica

Mas, afinal de contas, o que é masculinidade tóxica? Quem explica é Jacob Johanssen, professor de Mídia e Comunicação da Universidade St. Mary, na Inglaterra. “É um termo complexo e complicado”, admite. “Resumidamente, podemos dizer que designa uma forma extrema de masculinidade. Apesar de ser social e culturalmente inaceitável, a masculinidade tóxica é disseminada e, em alguns contextos, até desejada”, diz.

“Eu diria que o machismo se enquadra na masculinidade tóxica, mas a masculinidade tóxica abrange comportamentos mais extremos. O machismo está mais ligado ao sexismo e à misoginia em um sentido estrito, porque acredita que os homens são superiores às mulheres”, acrescenta o professor.

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Masculinidade tóxica não é o mesmo que machismo, pondera Johanssen, mas há sobreposições. “É uma doença social causada pelo patriarcado. Portanto, não ficaremos curados desse mal enquanto não abolirmos o patriarcado”, observa o autor de Fantasy, Online Misogyny and the Manosphere: Male Bodies of Dis/Inhibition (inédito no Brasil).

“Homem não adoece”

Para entender melhor a cabeça dos homens, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) fez uma pesquisa: 91% dos entrevistados reconhecem que deveriam cuidar melhor de si, mas menos da metade realiza acompanhamento regular; 78% acreditam que as mulheres cuidam mais da saúde e 46% só procuram o médico quando sentem algum problema. Esse percentual chega a 58% entre os que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS).

“O problema não é ser homem. Mas acreditar que ‘homem não adoece’ ou que ‘homem não precisa de ajuda’”, alerta Karin Jaeger Anzolch, diretora da SBU. “O atraso no diagnóstico tem consequências graves. Muitas doenças, de hipertensão a câncer, têm evolução silenciosa. Quando o homem procura ajuda, o quadro já está avançado. Em resumo: o maior fator de risco para a saúde do homem é o próprio comportamento do homem de evitar o cuidado.”

O homem sabe que deveria cuidar mais da saúde. Sabe, mas não cuida. As razões, segundo a médica, são múltiplas: cultura de negação da vulnerabilidade, medo do diagnóstico médico e falta de hábito preventivo. “Ainda hoje, há uma ideia equivocada de que procurar ajuda é sinal de fraqueza”, lamenta Karin. “Na prática médica, aprendemos que procurar ajuda o quanto antes não é sintoma de fragilidade, é sinal de inteligência.”

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A masculinidade tóxica não faz mal apenas para quem convive com o homem tóxico, como mulher ou filhos. Faz mal também ao próprio homem. “Quem descuida da saúde adoece mais e vive menos”, prossegue Karin. Não bastasse, há um impacto familiar (“quando ele cai doente, toda a família sofre”) e um componente psicológico (“reprimir emoções aumenta o risco de depressão, alcoolismo e suicídio”). “É um modelo que cobra um preço alto”, lamenta.

Masculinidade tônica

Ok, a masculinidade tóxica não é uma doença, uma condição ou um transtorno. Não está catalogada no DSM-5, da Associação Americana de Psiquiatria (APA), nem na Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas, se fosse, teria cura? Ou, na melhor das hipóteses, tratamento? Com a palavra, a pesquisadora Deborah Hill Cone:

“Fico pensando: os homens simplesmente nasceram assim? O que realmente significa ser homem? Bem, não sou psicóloga evolutiva, mas sou mãe de adolescente. Dessa perspectiva, espero aprender a cultivar uma masculinidade positiva. Na internet, algumas pessoas já fazem referência à masculinidade ‘tônica’ em vez de ‘tóxica’. Gosto disso. Talvez pudéssemos começar por não brutalizar nossos filhos. Ensinar a eles que demonstrar emoção é sinal de força. Minha esperança é evoluir para uma concepção mais ampla. Há muitas maneiras de ser um bom homem.”

Se a masculinidade tóxica é um comportamento, ele pode ser transformado. Karin Anzolch, da SBU, “prescreve” três remédios: educação em saúde, mudança de paradigma e exemplo social. Primeiro: entender que a prevenção é um ato de responsabilidade. Segundo: sentir medo, dor ou vergonha não é falha, faz parte da condição humana. Terceiro: cuidar da saúde estimula outros homens a fazer o mesmo. “O verdadeiro sinal de força não é negar a vulnerabilidade. É ter coragem de enfrentá-la. Às vezes, o pior inimigo não é o câncer ou o infarto. É a inércia e o silêncio.”

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