Gerando resumo
Alguns anos atrás, Marc Provissiero, produtor de cinema que estava se aproximando dos 50 e poucos anos, começou a pensar nas próximas décadas de sua vida. Ele se matriculou em uma clínica de longevidade de alto padrão por algumas centenas de dólares ao mês e começou a monitorar seus exames de sangue, a se alimentar melhor e a cuidar de seu sono. Ele queria se manter ativo à medida que envelhecia: jogar tênis, surfar, fazer trilhas e passar tempo com a filha.
Mas, durante os exames anuais na clínica da longevidade, seu médico, Darshan Shah, fez um alerta preocupante. Apesar dos hábitos saudáveis, o nível de açúcar no sangue de Provissiero estava próximo dos níveis pré-diabéticos. O histórico familiar aumentava o risco de desenvolver diabetes – o que pode reduzir a expectativa de vida de qualquer pessoa em alguns anos. Como uma dieta mais rigorosa e um regime de exercícios não surtiram efeito, Shah prescreveu metformina.
Faz décadas que os cientistas sabem que a metformina reduz o açúcar no sangue. Ela é aprovada pela Food and Drug Administration (FDA, a agência sanitária americana) para tratar diabetes tipo 2 e também é comumente prescrita para perda de peso e síndrome dos ovários policísticos. Mas alguns médicos, entre eles o de Provissiero, apostam que esse medicamento pode prevenir uma série de doenças crônicas antes mesmo que elas se desenvolvam, ajudando pessoas saudáveis a viver mais e melhor.
“A esperança é que propicie mais anos saudáveis”, diz Provissiero, que mora em Malibu, Califórnia. Após um ano tomando metformina, ele disse que se sente menos inchado, com mais energia e com mais controle do peso e do açúcar no sangue.

Estudos sobre o impacto da metformina na expectativa de vida humana são escassos. As pesquisas existentes, muitas das quais foram feitas com camundongos, são “uma confusão”, mostrando efeitos variados a depender do sexo e da espécie dos animais, informa Rafael de Cabo, pesquisador sênior do Instituto Nacional do Envelhecimento, que estuda a metformina em camundongos há mais de duas décadas. Estudos em humanos, que se concentraram principalmente em pacientes com diabetes, apresentam resultados conflitantes sobre os benefícios da metformina para pessoas saudáveis, comenta ele.
Ainda assim, o interesse no potencial de antienvelhecimento da metformina continua alto, à medida que cientistas descobrem evidências inicias, porém promissoras, de que ela também pode controlar ou retardar outros problemas, como doenças cardiovasculares, câncer e demência. “Pode ser que a metformina esteja atacando a raiz” de várias outras doenças cujos riscos aumentam com a idade, potencialmente porque regula hormônios, repara tecidos e alivia a inflamação do sistema imunológico, especula de Cabo.
A promessa de um medicamento que poderia “resolver tudo” faz da metformina um alvo especialmente atraente para pessoas ansiosas por evitar doenças fatais relacionadas à idade, observa S. Jay Olshansky, professor de saúde pública na Universidade de Illinois, em Chicago.
As evidências da capacidade da metformina de ajudar os humanos a viver mais são “fracas, mas não são absolutamente nulas”, acrescenta Richard Miller, professor de patologia da Universidade de Michigan que estuda o envelhecimento.
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Aguardando o grande estudo com humanos
Cientistas ainda estão investigando como a metformina atua no nível molecular. Ela parece reduzir os danos celulares, protegendo os cromossomos da degradação e revertendo as marcas químicas associadas ao envelhecimento, entre outras funções, explica Nir Barzilai, diretor do Instituto de Pesquisa do Envelhecimento da Faculdade de Medicina Albert Einstein.
Originalmente derivado da planta Syringa vulgaris, o medicamento foi formulado pela primeira vez cerca de 100 anos atrás para regular o açúcar no sangue em animais. Médicos começaram a oferecê-lo como tratamento para diabetes em humanos na década de 1950, pois inibe a produção e a absorção natural de glicose pelo corpo, informa de Cabo.
No início dos anos 2000, pesquisadores começaram a notar que camundongos diabéticos e pré-diabéticos que recebiam metformina viviam mais do que camundongos saudáveis que não tomavam o medicamento, sugerindo que ele faz mais do que simplesmente regular o açúcar no sangue, diz de Cabo. Por exemplo, um estudo de 2013 que ele liderou descobriu que uma dose baixa de metformina prolongou a vida de camundongos machos saudáveis em cerca de 5% (por outro lado, uma dose mais alta encurtou sua expectativa de vida). Parecia ter o mesmo efeito que a restrição calórica, que a área do envelhecimento considera uma das possibilidades mais promissoras para prolongar a vida.
Alguns outros estudos têm sido encorajadores. Um deles, do ano passado, sugeriu que a metformina retardou o envelhecimento das células cerebrais de macacos machos em até seis anos. Outro estudo observacional em humanos, bastante citado, publicado em 2014, descobriu que pessoas com diabetes tipo 2 que tomaram metformina apresentaram menor risco de mortalidade do que pessoas sem diabetes que não a tomaram.
Mas outras pesquisas pintam um cenário diferente. Uma análise de 2022, que visava replicar o estudo de 2014, descobriu que pessoas com diabetes que tomavam metformina não apresentavam menor risco de mortalidade do que pacientes mais saudáveis que não tomavam o medicamento. Também há evidências de que o benefício da metformina para pessoas sem diabetes pode ter curta duração, reduzindo o risco de mortalidade por apenas alguns anos antes de este voltar ao normal.
Um importante estudo nacional que examina o impacto da metformina em idosos saudáveis – que poderia finalmente estabelecer a eficácia do medicamento na prevenção de doenças crônicas e mortalidade – foi adiado por anos. Chamado de Estudo Combatendo o Envelhecimento com Metformina (ou TAME, na sigla em inglês), e liderado por Barzilai, o objetivo é comparar a incidência de problemas cardiovasculares, demência, câncer e morte em pessoas que tomam metformina com aquelas que não tomam. Mas, devido a restrições orçamentárias e interrupções, a pesquisa ainda não começou de fato e provavelmente levará anos até que os dados preliminares sejam publicados, destaca Barzilai.
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Dando um “salto de fé”
Não há dados confiáveis sobre quantas pessoas usam metformina exclusivamente para fins de longevidade. Alguns influenciadores antienvelhecimento promovem a metformina como parte de seus regimes, e médicos entrevistados para esta matéria disseram que cada vez mais pacientes (mesmo sem risco de doenças crônicas) estão pedindo que eles prescrevam o medicamento.
Embora os planos de saúde não cubram medicamentos usados exclusivamente para longevidade, a metformina é relativamente barata: pacientes que não a usam para doenças crônicas geralmente pagam de US$ 10 a US$ 30 por mês. (No Brasil, é possível encontrar o remédio a partir de R$ 5)
Especialistas e usuários de metformina afirmam que os riscos do medicamento geralmente são mínimos. Entre os efeitos colaterais mais comuns estão diarreia e dificuldade para ganhar massa muscular, que parecem diminuir quando os pacientes param de tomá-lo. (Alguns entusiastas da longevidade, que foram os primeiros defensores da metformina, a abandonaram, em parte devido ao medo de inibir o crescimento muscular, que, segundo eles, superaria os possíveis benefícios para a longevidade).
No entanto, existe um risco de efeitos colaterais mais graves. O médico de Cabo alerta que o medicamento pode comprometer a função renal em pacientes com doença renal, se não for tomado sob rigorosa supervisão médica.
Pacientes como Provissiero acreditam que os potenciais benefícios compensam os riscos. Ele disse que vai à academia com mais frequência agora que está tomando metformina, para compensar qualquer dificuldade para ganhar massa muscular, embora não tenha apresentado nenhum problema até hoje.
Peter Bernard, 59 anos, executivo de vendas aposentado que mora em Haverford, Pensilvânia, afirma que toma metformina há cerca de sete anos. Embora nunca tenha tido dificuldades para controlar o nível de açúcar no sangue, ele acredita que a metformina pode ajudá-lo a retardar o colapso biológico que vem com a idade. Para Bernard, não há “muitas desvantagens” em tomar um comprimido de 500 miligramas duas vezes ao dia, especialmente porque ele nunca sentiu efeitos colaterais negativos. Embora também não tenha observado benefícios significativos com a metformina, Bernard afirma que seus exames de sangue e peso estão consistentemente na faixa “saudável” e que “o único jeito de descobrir se não funciona é parar”.
Provar que um medicamento ajuda as pessoas a viver mais pode levar décadas, alerta Shah. Provissiero e outros usuários estão dando um “salto de fé” ao acreditarem que a metformina trará benefícios a longo prazo.
Mesmo que não seja um medicamento muito potente, “pode muito bem ser bom para as pessoas” que sofrem para manter o peso ou o nível de açúcar no sangue dentro das diretrizes saudáveis, comenta Miller, acrescentando que é “comprovadamente eficaz” em retardar a progressão do pré-diabetes para o diabetes. Mas, para quem afirma que a metformina retarda o envelhecimento em pessoas “que não têm nenhum traço ou o menor indício de pré-diabetes, eu diria: ‘Preciso de provas’”.
Também é difícil determinar se os benefícios são atribuíveis apenas à metformina, avisa Miller. Alguns pacientes que a tomam para longevidade também usam outros medicamentos e suplementos que supostamente retardam o envelhecimento. Por exemplo, Bernard conta que também toma testosterona, whey protein e magnésio.
E pode ser que o maior benefício da metformina seja simplesmente desencadear uma mudança de comportamento, reconhece Provissiero. Enquanto ele monitora meticulosamente a glicose e faz exames semestrais para inflamação, sua dose de metformina é um “lembrete diário” de que alimentação saudável e exercícios físicos podem reduzir seus níveis de açúcar no sangue, estendendo sua expectativa de vida. Quando se trata de mudanças no estilo de vida, ele frisa, “preciso levar a sério e me comportar”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU


