Gerando resumo
A chegada de um filho costuma ser celebrada como um dos momentos mais felizes da vida. Mas, ao lado da alegria, surge uma transformação profunda na rotina, na identidade e na dinâmica do casal. Entre noites mal dormidas, novas responsabilidades e a necessidade de cuidar de uma vida que depende integralmente dos pais, a relação amorosa frequentemente deixa de ocupar o centro das atenções. “A chegada de um filho costuma ser uma das maiores transições que um relacionamento pode atravessar”, afirma o psicólogo e terapeuta de casais Elídio Almeida.

Segundo ele, muitos casais se preparam para a gravidez e para os cuidados com o bebê, mas poucos conversam sobre o impacto que a parentalidade terá sobre a própria relação. “Na prática clínica, observo com frequência casais que planejaram a gravidez, organizaram o quarto do bebê, pensaram em questões financeiras e pesquisaram tudo sobre gestação e cuidados infantis, mas que raramente investiram em conversas sobre como enfrentariam as noites mal dormidas, o aumento das responsabilidades, as mudanças na rotina e a sobrecarga emocional, nem sobre como manteriam viva a relação enquanto aprendem a exercer a parentalidade”, diz.
Não por acaso, os primeiros anos da parentalidade estão entre os períodos mais desafiadores para a vida conjugal. O tempo para a intimidade diminui, o desejo sexual pode sofrer alterações e conflitos relacionados à divisão de tarefas tornam-se mais frequentes. Ainda assim, especialistas afirmam que as dificuldades não são necessariamente um sinal de crise, mas uma etapa de adaptação que exige diálogo, parceria e investimento consciente na relação.
Muitas vezes, a mudança é interpretada como perda de amor ou de desejo, quando, na verdade, reflete uma adaptação natural a uma nova fase da vida. Segundo Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), “é importante saber que o sexo fica em segundo plano nesse início da formação de uma família, mas isso não significa menos amor”. O problema surge quando um dos parceiros não compreende essa mudança e passa a encarar a diminuição da vida sexual como rejeição.
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Quando a mulher deixa de ser vista além da maternidade
Entre as transformações mais profundas da parentalidade estão aquelas vividas pelas mães. “A mulher passa por alterações hormonais, físicas, emocionais e identitárias que, muitas vezes, fazem com que ela precise se reencontrar consigo mesma antes mesmo de reencontrar o desejo pelo parceiro”, explica Denise Figueiredo, doutora em psicologia clínica pela PUC e fundadora do Instituto do Casal.
Segundo a especialista, uma das queixas mais frequentes no consultório é a sensação de deixar de ser vista como mulher para ser reconhecida apenas como mãe. Quando isso acontece, autoestima, autoconfiança e desejo sexual podem ser afetados.
Almeida observa que muitas mulheres passam a acreditar que deixaram de ser desejadas justamente em um momento de maior vulnerabilidade emocional. Ao mesmo tempo, a queda da libido costuma estar muito mais relacionada ao cansaço, à sobrecarga mental e às exigências dos cuidados com o bebê do que a uma perda de interesse pelo parceiro. “Frequentemente não falta amor, não falta desejo pelo parceiro nem interesse pela relação. Falta energia emocional para sustentar todas essas demandas ao mesmo tempo”, afirma.
Por isso, ele enfatiza que é importante que ambos compreendam que nem sempre haverá espaço para intimidade sexual, especialmente nos primeiros meses, mas gestos de carinho, apoio, reconhecimento e validação emocional ajudam a preservar a conexão do casal. “Quando o parceiro compreende que essas mudanças fazem parte de um processo e não interpreta tudo como rejeição pessoal, a tendência é que essa fase seja atravessada com menos sofrimento e menos conflitos”, diz.
O psicólogo também considera fundamental que a mulher possa continuar ocupando outros lugares além da maternidade. “Oferecer condições para que a mulher mantenha vínculos, interesses, projetos e espaços de cuidado consigo mesma é uma forma de cuidar da sua saúde emocional, da qualidade da relação e do bem-estar de toda a família”, destaca. “Afinal, ser mãe transforma profundamente a vida de uma mulher. O problema começa quando ela deixa de encontrar espaço para continuar sendo tudo aquilo que também é. Porque uma maternidade saudável não deveria exigir que a mulher desaparecesse para que a mãe pudesse existir”, completa.
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O peso invisível da sobrecarga
Se existe um tema que aparece de forma recorrente nos consultórios de terapia de casal é a divisão desigual das responsabilidades domésticas e dos cuidados com os filhos. Um levantamento realizado pelo Instituto do Casal com 730 casais apontou justamente essa questão como o principal motivo de conflitos conjugais.
Segundo Denise, quando um dos parceiros assume a maior parte das tarefas, surgem exaustão, ressentimento e redução do desejo sexual. “O desejo não depende apenas de atração física; ele é profundamente influenciado pela forma como nos sentimos dentro da relação.”
A sobrecarga feminina continua sendo um dos principais pontos de tensão. Embora a participação dos homens tenha aumentado nas últimas décadas, a chamada carga mental ainda recai majoritariamente sobre as mulheres.
“Quando a mulher se vê tendo que pedir algo que poderia ser naturalmente percebido pelo companheiro, e voluntariamente realizado por ele sem a necessidade do pedido, ela deixa de admirá-lo, o que diminui seu desejo sexual”, afirma Marina.
Agora, o inverso também é verdadeiro: “Quando o parceiro é proativo e toma iniciativa com os cuidados da casa, dos filhos, mostrando estar atento ao que a dinâmica da família precisa, a mulher se sente olhada, cuidada, e fica bem mais satisfeita, o que aumenta sua admiração e gratidão por estar numa relação em que é respeitada, valorizada. Seu desejo sexual certamente terá mais chances de reacender após os primeiros meses do parto, assim como o clima de afeto e amor entre o casal se fortalecerá com a convivência”, completa a terapeuta.
Casal ou apenas equipe de logística?
Outro risco comum após a chegada dos filhos é que o relacionamento passe a funcionar apenas em torno das demandas práticas do cotidiano. “Quando o casal deixa de conversar sobre si, para de compartilhar momentos a dois e passa meses funcionando apenas como uma equipe de logística familiar, é um sinal de alerta”, afirma Denise.
A especialista costuma lembrar aos pacientes que “o primeiro filho do casal é a relação”. Quando toda a energia emocional é direcionada aos filhos e quase nenhuma ao vínculo amoroso, a conexão entre os parceiros pode enfraquecer gradualmente.
Almeida observa que muitos casais passam a falar apenas sobre escola, contas, consultas médicas e tarefas domésticas. Perguntas simples, como “como você está?” ou “do que você precisa?”, desaparecem da rotina.
O afastamento nem sempre se manifesta por meio de grandes brigas. Muitas vezes, ele acontece de forma silenciosa, por meio da falta de conversas, da ausência de demonstrações de carinho e da redução dos momentos de qualidade compartilhados.
Mas vale destacar que preservar a conexão não exige necessariamente grandes viagens ou programas sofisticados. Pequenos rituais cotidianos podem fazer diferença. Um café juntos, uma caminhada, alguns minutos de conversa sem distrações ou uma mensagem de carinho durante o dia ajudam a manter vivo o sentimento de parceria. “Não se trata de quantidade de tempo, mas da qualidade da presença”, resume Denise.
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Quando a parentalidade é vivida sozinho
Se criar filhos em dupla já exige reorganização constante, os desafios se tornam ainda maiores para mães e pais que enfrentam a parentalidade sem um parceiro. Além das responsabilidades financeiras, emocionais e práticas, muitos precisam lidar com a culpa de dedicar tempo à própria vida afetiva.
“Na clínica, vejo muitas pessoas que adiam indefinidamente novos relacionamentos acreditando que precisam esperar os filhos crescerem”, afirma Denise. “Entretanto, também é importante reconhecer que o adulto continua tendo necessidades emocionais, afetivas e projetos pessoais”.
Segundo Almeida, as dificuldades são especialmente intensas para mães solo, que frequentemente acumulam o cuidado com os filhos, a gestão da casa e a vida profissional. “Muitas passam anos cuidando de todos ao seu redor e deixando suas próprias necessidades emocionais em segundo plano”, avalia.
O tempo disponível, a existência de uma rede de apoio e a qualidade da guarda compartilhada influenciam diretamente a possibilidade de construir novos relacionamentos. Também existe o receio de apresentar um novo parceiro aos filhos antes que a relação esteja consolidada.
Os especialistas concordam que esse processo deve acontecer de forma gradual, respeitando o ritmo das crianças e a consistência do vínculo amoroso.
Outro desafio importante é o preconceito ainda associado à maternidade e à paternidade solo. Mães solteiras frequentemente enfrentam julgamentos relacionados à sua disponibilidade para um relacionamento ou à decisão de reconstruir a vida amorosa. Já pais solteiros, em muitos casos, recebem reconhecimento excessivo apenas por exercerem responsabilidades que deveriam ser consideradas básicas. “Essa diferença revela como ainda esperamos coisas diferentes de homens e mulheres, mesmo quando ambos exercem responsabilidades semelhantes”, aponta Almeida.
Apesar das dificuldades, os especialistas defendem que parentalidade e vida amorosa não são projetos incompatíveis. Pelo contrário: adultos emocionalmente realizados tendem a oferecer relações mais saudáveis também aos filhos.
“É possível cuidar dos filhos com dedicação e, ao mesmo tempo, construir uma relação afetiva saudável”, afirma Denise. “O amor amadurece quando existe equilíbrio: cuidar dos filhos sem abandonar a si mesmo, investir na família sem esquecer o casal”, conclui.


