Você tem medo de envelhecer? Isso diz muito sobre o mundo em que vivemos – e é uma ameaça à saúde

Ao mesmo tempo em que comemoramos o aumento na expectativa de vida, evitamos nos ver como velhos; geriatra analisa como essa contradição pode prejudicar o bem-estar

PUBLICIDADE

Por Milton Crenitte
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

É impossível falar de medo de envelhecer sem lembrar do recente filme “A substância”, no qual Demi Moore interpreta Elizabeth Sparkle, uma renomada atriz de um programa de aeróbica que, desesperada e confrontada por si e pelos outros por causa de sua idade, decide utilizar uma substância misteriosa capaz de lhe “aprimorar”. Trata-se de um filme de terror gore, marcado por experiências chocantes, e que metaforicamente diz muito sobre o que vivemos – especialmente as mulheres – no sentido de percepções, medos, angústias e estigmas relacionados ao envelhecimento.

PUBLICIDADE

Mas não dá para ignorar um paradoxo: ao mesmo tempo em que continuamos a rejeitar qualquer sinal que nos aproxime “dos velhos”, celebramos o fato de que a população idosa no Brasil subiu para 15,6%, representando 32.113.490 pessoas. Estamos envelhecendo rápido, numa revolução epidemiológica solitária, uma vez que o preconceito – também chamado de idadismo – continua firme e forte.

O fato é que o envelhecimento ainda é ligado a mais valores negativos do que positivos.

O processo de envelhecimento ainda é rodeado de estigmas negativos Foto: Visualmind/Adobe Stock

Há várias possíveis explicações para isso, como um valor exagerado da juventude, o medo da exclusão e da irrelevância, o culto à aparência, a negação da própria vulnerabilidade e também problemas estruturais, como desigualdade social. E, assim, o medo de envelhecer – também conhecido como gerascofobia – se manifesta, resultando em ansiedade, isolamento e outros problemas de saúde mental, além de um aumento nas taxas de realização de procedimentos estéticos. Vale destacar que o Brasil é o segundo país que mais faz esse tipo de intervenção, perdendo apenas para os Estados Unidos.

Publicidade

Minha intenção não é criticar ou cancelar quem tem desejo em realizar uma intervenção estética, mas sim refletir se esse tipo de procedimento está trazendo satisfação ou mais angústia. Será que isso garante felicidade e integração social ou apenas reforça conceitos que relacionam o envelhecimento a perdas, decadência, invisibilidade, marginalização e medo da própria finitude? No filme de Demi Moore, vemos Elizabeth Sparkle viver esse dilema.

 Em janeiro de 2025, um estudo publicado em uma revista científica chamada “Arquivos de Geriatria e Gerontologia” tentou validar uma ferramenta capaz de avaliar o nosso medo de envelhecer, com quatro perguntas. São elas:

Assine o Estadão
  • Eu me sinto preocupado(a) quando penso que minha atratividade física pode diminuir com o tempo?
  • Eu me sinto incomodado(a) quando penso que não serei útil quando envelhecer?
  • Eu me sinto preocupado(a) quando penso que perderei meu valor ao envelhecer?
  • Eu me sinto triste quando penso que as pessoas não valorizarão minha atratividade física quando eu envelhecer?

Os pesquisadores verificaram que quanto maior a pontuação nessas perguntas, maior o risco de desenvolver depressão, ansiedade e estresse. É um achado interessante, e que pode servir de exercício mental para cada um de nós.

Publicidade

Não quero dar nenhum spoiler para aqueles que não viram o belíssimo filme “A Substância”, mas, sendo um exemplo de terror gore, tenho a certeza de que nenhum de nós gostaria de ter uma final como o de Elizabeth Sparkle. Então, de maneira individual e coletiva, há algumas ações para realizarmos, como reconhecer o envelhecimento como parte do nosso curso de vida, valorizar a experiência e contribuição dos mais velhos, transformar a representação cultural da velhice, incentivar relações intergeracionais, preparar toda a população para um envelhecimento ativo e saudável e, por fim, mas não menos importante, convidar cada um de nós a se reconhecer como indivíduos que estão envelhecendo.

Há uma provocação potente de Simone de Beauvoir no livro “A velhice”: “velho é o outro”. Significa que, no imaginário coletivo, o envelhecimento é algo que sempre acontece com “os outros”, nunca conosco, sendo a velhice vista como uma condição externa, distante, quase desumanizada — o que facilita o descaso, a exclusão e o medo.

Por isso, é tempo de relembrar que velho sou eu, velhas e velhos somos nós. Afinal, isso é muito melhor do que não ser, do que deixar de existir ou de ser empurrado para a monstruosidade que a “substância” pode nos causar.

Comentários

Os comentários são exclusivos para cadastrados.

Mais recentes

Loading...Loading...
Loading...Loading...
Loading...Loading...
Loading...Loading...

PUBLICIDADE