Como uma tragédia piorou a destruição da Mata Atlântica; bioma perde área de ‘2 Paris’ em um ano

Desmate caiu 14% no bioma, mas tempestade recorde no Rio Grande do Sul impediu redução maior; ministério lança plano estratégico

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Foto do autor Juliana Domingos de Lima
Atualização:

O desmatamento na Mata Atlântica recuou 14% em 2024, mas a redução é considerada “tímida” pelo diretor executivo da SOS Mata Atlântica, Luís Fernando Guedes Pinto.

A área vegetal perdida - conforme o Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) da ONG SOS Mata Atlântica - é mais de duas vezes a área de Paris. O total devastado caiu de 82,5 mil hectares em 2023 para 71,1 mil ha.

Rio Grande do Sul perdeu 3.307 ha de Mata Atlântica em 2024 Foto: Cassio Aranovich/SOS Mata Atlântica

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“A gente esperava redução maior”, afirma Guedes Pinto. “É uma situação incômoda, em patamar ainda alto (de área desmatada)"

A agricultura e desastres naturais, sobretudo a tempestade recorde no Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024, foram os principais vetores da destruição.

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Da Mata Atlântica original, de cinco século atrás, só restaram 24%. O bioma é crucial para regular temperaturas e preservar nascentes e rios que abastecem grandes cidades, como São Paulo.

. Foto: Infografia/Estadão

Em maio, o Ministério do Meio Ambiente concluiu em maio um plano contra desmate e queimadas. O documento fixa metas até 2027, em conjunto com Estados e municípios. A estratégia inclui cerco judicial contra criminosos ambientais e investimentos em bioeconomia e ecoturismo.

Desastre gaúcho e agricultura pressionam bioma

A destruição na Mata Atlântica diminuiu em 12 Estados e aumentou em cinco, com base no SAD, considerado o raio x mais completo.

Foram 66.526 hectares perdidos por causa da expansão agrícola - como pasto, eucalipto e soja -, o principal vetor de pressão.

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Grande parte ocorre na transição de Mata Atlântica e Cerrado, ou nas “ilhas” de mata dentro do Cerrado e da Caatinga, principalmente no Piauí, na Bahia e no norte de Minas Gerais.

O ministério diz manter ações antidesmate, como restringir crédito rural para infratores, operações do Ibama e aplicação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo.

Deslizamentos ocorridos em 2024 fizeram desmatamento aumentar no Rio Grande do Sul Foto: Cassio Aranovich/SOS Mata Atlântica

O segundo maior fator de pressão foi o total de 3.307 ha de floresta perdidos no Rio Grande do Sul devido à enchente recorde de 2024.

O desmate aumenta a vulnerabilidade das encostas a deslizamentos sob tempestades, que estão mais frequentes com as mudanças climáticas. Ou seja, novas chuvas podem causar mais perdas.

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A supressão da cobertura vegetal também foi um problema no litoral norte paulista, que enfrentou uma chuva sem precedentes em fevereiro de 2023.

Além de políticas permanentes de fiscalização e restauração da mata ciliar, o governo gaúcho criou duas iniciativas para recuperar florestas após o colapso de 2024, mas que ainda estão na etapa inicial.

Algumas áreas do Vale do Taquari (RS) foram semeadas com espécies nativas da Mata Atlântica, com uso de helicóptero, o que acelerou a recuperação.

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“Lançamos muitas sementes nessas áreas e a recuperação foi mais rápida do que as que não tiveram aporte”, diz a secretária do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul, Marjorie Kauffmann. “Há muitas áreas que podem receber a técnica e estamos conversando com parceiros para viabilizar novas ações.”

Com apoio do Exército, Estado semeou áreas do Vale do Taquari com sementes nativas da Mata Atlântica Foto: Cassio Aranovich/SOS Mata Atlântica

O Estado também capacita viveiristas e cria “casas de vegetação” para produção de mudas mais maduras, para aperfeiçoar a restauração. O plantio deve começar entre o fim do ano e o meio de 2026.

O projeto também foi adotado em Mariana e Brumadinho, em Minas, e tem apoio do Ibama, da Universidade Federal de Viçosa, outras federais, secretarias estaduais e empresas.

O terceiro maior vetor da destruição foi a expansão urbana, muito pela proximidade das áreas de Mata Atlântica das maiores metrópoles do País, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

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Uma boa notícia foi a queda do desmate no Paraná e em Santa Catarina. A SOS Mata Atlântica atribui isso à retomada da fiscalização ambiental nos últimos dois anos e à confirmação da prevalência da Lei da Mata Atlântica sobre o Código Florestal pelo Supremo Tribunal Federal em 2023, derrubando ação de inconstitucionalidade movida pela gestão Jair Bolsonaro (PL).

Responsabilidade compartilhada

A maior parte do desmate na Mata Atlântica é ilegal, principalmente em áreas privadas. A preservação das florestas é competência compartilhada entre União, Estados e municípios. Salvo exceções, os governos estaduais aprovam o manejo e a supressão de vegetação nativa nos imóveis rurais.

Um dos entraves da atuação conjunta é a falta de transparência e integração nacional de dados sobre autorizações de desmate. Uma nova resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), prevista para junho, obrigará os Estados a tornar esses dados públicos.

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O ministério aponta ainda que um cenário de regularização fundiária na região ajuda a mapear e punir responsáveis pelo desmate irregular, mas diz que também há casos de degradação em unidades de conservação e áreas com conflitos fundiários, como no Vale do Ribeira (SP).

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Nesta região, o Estado de São Paulo afirma ter lavrado 631 Autos de Infração Ambiental em 2024 por destruição de vegetação nativa.

Estados da Mata Atlântica podem acessar até 20% da verba do Fundo Amazônia - cerca de R$ 1,5 bilhão - e menos de R$ 250 milhões foram usados até agora, conforme o ministério. Os Estados “serão incentivados a apresentar novos projetos alinhados ao plano”, afirma a pasta.

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística paulista informa, em nota, aguardar a abertura de chamamentos públicos pelo BNDES para avaliar as linhas de financiamento.

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