Como Lucy usava os braços

Hoje somos bípedes, mas nossos ancestrais eram quadrúpedes. Quando observamos aquelas figuras clássicas em que os esqueletos de nossos ancestrais estão alinhados, caminhando em fila, nossos ancestrais recentes são representados segurando uma lança. Os ancestrais mais antigos geralmente são bípedes, ainda caminham um pouco curvados, mas não seguram nada nas mãos.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2012 | 02h02

Essa representação reflete uma dúvida que atormenta os cientistas. Uma vez que os braços não eram mais necessários para caminhar, qual foi sua primeira função? A descoberta de um esqueleto quase completo de um jovem Australopithecus permitiu aos cientistas ter uma primeira ideia de como usavam seus braços.

O Australopithecus afarensis viveu no norte da África entre 3,9 milhões e 2,9 milhões de anos atrás. Depois que desapareceu, passaram-se 2 milhões até que o Homo sapiens surgisse, na África. O primeiro esqueleto dessa espécie é a famosa Lucy, descoberta em 1974. Os cientistas não sabem se o Australopithecus é um de nossos ancestrais, mas provavelmente ele fazia parte do grupo de espécies que deu origem aos nossos ancestrais.

Sabemos que Lucy, apesar de seu pequeno cérebro, era bípede. Isso foi deduzido estudando o formato dos ossos de seu quadril. Nos macacos que se locomovem com os quatro membros, o fêmur, aquele osso comprido da perna, encaixa-se na bacia com um ângulo que dificulta a posição vertical do tronco. Nos humanos, esse ângulo permite a posição vertical do tronco. Foi com medidas como essa, tanto no quadril quanto nos joelhos, que os cientistas concluíram que Lucy era bípede.

Não somente ela era bípede como também não era capaz de usar o dedão do pé para agarrar objetos ou galhos de árvore como a maioria dos macacos modernos. O pé já era mais parecido com o nosso, incapaz de posicionar o polegar em frente do indicador. As mãos de Lucy eram semelhantes às nossas e podiam opor o polegar ao indicador, sendo capazes de agarrar objetos. Mas como ela usava seus braços?

Essa dúvida perdurou por décadas, pois o esqueleto de Lucy era incompleto e, apesar de os ossos do braço estarem quase intactos, a escápula, aquele osso na forma de um triângulo plano que está na nossas costas, não foi encontrada. Sem os ossos do ombro, é impossível deduzir como o braço se encaixa no corpo. Nos macacos modernos, esse encaixe permite que o braço se posicione facilmente na vertical, estendido para cima. Isso permite que eles se pendurem nos galhos das árvores e se balancem, pulando de galho em galho.

No nosso caso, o ângulo de encaixe do braço no ombro é mais propício para o braço ficar pendurado para baixo. Podemos erguer o braço acima da cabeça, mas quem já tentou pular de galho em galho pendurado pelos braços sabe como é pouco confortável.

Descobertas. Em 1975, foi descoberto um grupo de 13 esqueletos parciais de Australopithecus; em 1992, foi descoberto o primeiro crânio completo; e, em 2000, foi descoberto em Dikika, Etiópia, um esqueleto bem preservado de uma criança ou jovem Australopithecus chamado carinhosamente de Selan. Entre os ossos de todos esses exemplares estavam algumas escápulas de indivíduos adultos e as duas escápulas de Selan. Foi analisando essas escápulas que os cientistas puderam ter uma primeira ideia de como os Australopithecus usavam seus braços.

Comparando os ângulos de inserção dos braços de macacos e seres humanos jovens e adultos com os ângulos dos Australopithecus jovens e adultos, os cientistas descobriram que os braços dos Australopithecus ainda eram parecidos com os presentes nos macacos modernos.

A conclusão é que provavelmente esses nossos possíveis ancestrais usavam muito os braços para trepar em árvores, apesar de já andarem no solo na postura vertical e serem incapazes de usar os membros inferiores para se agarrar aos galhos.

Se esse resultado estiver correto, isso demonstra que a adaptação para a posição vertical e o caminhar sobre os pés ocorreu muito antes das modificações observadas nos membros superiores. Os Australopithecus provavelmente andavam sobre os pés, na posição vertical, mas ainda usavam as mãos para se pendurar nas árvores. Não eram mais macacos típicos, pois grande parte de sua atividade provavelmente ocorria no solo, mas tampouco haviam abandonado completamente o ambiente arbóreo.

Enquanto hoje os macacos vivem nas árvores e nós no solo, os Australopithecus provavelmente viviam em parte na terra e em parte nos galhos.

* BIÓLOGO

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