Pesquisadora no Reino Unido, Rayane Pacheco quer destravar os gargalos do Código Florestal

Paraense usa a tecnologia para automatizar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e preservar a floresta

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Em novembro, a Conferência do Clima (COP 30) será realizada no Pará, e o mundo estará atento aos desafios e soluções que envolvem a floresta. É de lá que vem Rayane Pacheco, pesquisadora de 32 anos que tem se dedicado a desenvolver soluções baseadas em dados, tecnologia e políticas públicas para a região. Pelo conjunto de seu trabalho, ela conquistou uma das bolsas de pesquisa mais prestigiadas do mundo.

Rayane faz parte da série do EstadãoNomes para ficar de olho”, que traz perfis em texto e vídeo de jovens que devem se destacar nos cenários nacional e internacional nos próximos anos.

Pesquisadora no Reino Unido, Rayane Pacheco quer destravar os gargalos do Código Florestal

Paraense usa a tecnologia para automatizar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e preservar a floresta. Crédito: Amanda Botelho e Vitor Zanon

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Nascida na área rural de Conceição do Araguaia, cidade de 40 mil habitantes no sul do Pará, Rayane teve contato desde cedo com a realidade do campo e da floresta. Foi no assentamento onde vivia com a família que conheceu o trabalho dos agrimensores, profissionais responsáveis por medir e demarcar terrenos.

A atividade chamou tanto sua atenção que decidiu fazer o curso técnico em agrimensura no ensino médio. Ali teve o primeiro contato com conceitos como geoprocessamento e sensoriamento remoto.

A graduação veio pouco depois, com a criação do primeiro curso superior no Instituto Federal do Pará, em gestão ambiental.

Rayane participou do desenvolvimento de ferramenta para automatizar o processo de análise do Cadastro Ambiental Rural Foto: Acervo pessoal

Formada, Rayane buscava uma forma de unir os dois campos que haviam guiado sua trajetória até então — a agrimensura e a gestão ambiental. Encontrou essa convergência no mestrado em análise e modelagem de sistemas ambientais, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Lá, passou a estudar a regularização de propriedades rurais, conectando o conteúdo técnico à sua experiência pessoal.

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“Eu morava no interior, vivendo esse ambiente rural, e depois fui trabalhar com a regularização de propriedades para atender ao Código Florestal. Então era, basicamente, um alinhamento com o que eu já conhecia”, diz.

No doutorado, também na UFMG, participou do desenvolvimento de uma ferramenta para automatizar parte do processo de análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR), resolvendo um dos principais gargalos da aplicação do Código Florestal e facilitando a regularização dos produtores — o que, entre outros benefícios, permite acesso ao crédito. A partir de modelagem e imagens de satélite, a CAR 2.0 analisa automaticamente os imóveis inscritos no sistema, identificando pendências.

“Fazemos um diagnóstico da situação dos imóveis: como está a questão da sobreposição, como está a situação fundiária em relação a outras camadas, como unidades de conservação, terras indígenas e florestas públicas não destinadas, áreas onde, por exemplo, não deveria haver registro no CAR. A ferramenta analisa, gera o diagnóstico e fornece às secretarias. A partir disso, conseguimos separar grupos de imóveis que precisam ser corrigidos”, explica Rayane.

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A ferramenta já foi implementada em Minas Gerais e no Pará, onde serve de apoio às secretarias ambientais. Durante o mestrado, sua dissertação sobre a demanda por regularização de passivo de reservas florestais foi premiada pelo Serviço Florestal Brasileiro.

A dissertação de mestrado, sobre a demanda por regularização de passivo de reservas florestais, foi premiada pelo Serviço Florestal Brasileiro Foto: Acervo pessoal

“Rayane teve um papel muito importante. Primeiro no mestrado e no doutorado, ao entender o incentivo do produtor em buscar regularização. E depois, nas análises propriamente ditas, ela tem uma capacidade analítica muito significativa. Inclusive implementou vários algoritmos”, afirma Raoni Rajão, coordenador do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG e orientador de Rayane no mestrado e no doutorado.

“Ela tem uma característica muito interessante: pode não saber algo, mas corre atrás até aprender. Isso é o que define um bom pesquisador”, diz o professor.

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Em 2023, Rayane foi selecionada para o grupo inaugural do Fulbright Amazônia, parte de um dos programas de pesquisa mais prestigiados do mundo, promovido pelo Departamento de Estado dos EUA. Com a bolsa, estudou na Universidade do Texas.

Seu projeto investigou cenários de restauração florestal em propriedades privadas na Amazônia, dentro das regras do Cadastro Ambiental Rural. “Esse grupo reunia pesquisadores dos países amazônicos e dos Estados Unidos. Durante um ano e meio, tivemos encontros nos EUA, na Colômbia e nosso primeiro encontro foi aqui no Brasil, em Belém. Foi maravilhoso. Minha rede de contatos mudou completamente”, afirma a jovem.

Rayane Pacheco com o grupo do Fulbright Amazônia, promovido pelo Departamento de Estado dos EUA Foto: Acervo pessoal

Desse intercâmbio surgiu o convite para atuar como pesquisadora associada na Universidade de Bristol, no Reino Unido. Lá, Rayane integra um grupo interdisciplinar que investiga atividades não formais na Amazônia, como garimpo, extração ilegal de madeira e grilagem, usando dados geoespaciais, modelagem e uma abordagem antropológica para entender como essas práticas se organizam e como podem ser enfrentadas.

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Mesmo longe, ela segue voltada para a região onde nasceu, inspirada pela mãe. “Minha mãe foi uma das razões para eu continuar estudando. Comecei na zona rural e nunca imaginei que um dia estaria morando na Inglaterra, pesquisando justamente o lugar onde já morei.”

Para o futuro, ela quer ver suas pesquisas se traduzirem em políticas públicas que aliem conservação e produção rural. “É um equilíbrio. Pensar em como podemos produzir e também conservar. E é exatamente isso que foi a base da minha graduação: a gestão ambiental.”