Quem é Jahzara Oná, ativista do Jardim Pantanal que leva a periferia para as Conferências do Clima

Jovem fez parte do Fridays for Future, movimento popularizado por Greta Thunberg, e quer levar experiência no ativismo ambiental até Brasília

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Em janeiro de 2025, o Jardim Pantanal, na zona leste de São Paulo, passou mais de uma semana submerso após uma enchente devastadora. Desde os anos 1980, a região convive com alagamentos frequentes que, nos últimos anos, tornaram-se mais intensos e rápidos, reflexo direto da crise climática.

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Foi ali que nasceu e cresceu Jahzara Oná, ativista que representa o Brasil em conferências internacionais sobre mudanças climáticas. Aos 21 anos, ela defende os interesses da juventude global em espaços como a ONU, com o objetivo de evitar que episódios como o que atingiu seu bairro se repitam com ainda mais frequência.

Ela faz parte da série do EstadãoNomes para ficar de olho”, que traz perfis em texto e vídeo de jovens que devem ganhar projeção nos cenários nacional e internacional nos próximos anos.

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Quem é Jahzara Oná, ativista do Jardim Pantanal que leva a periferia para as Conferências do Clima

Jovem fez parte do Fridays for Future, movimento popularizado por Greta Thunberg, e quer levar experiência no ativismo ambiental até Brasília. Crédito: Amanda Botelho e Vitor Zanon

A família de Jahzara foi uma das primeiras a ocupar a várzea do Rio Tietê, ainda nos anos 1980. Quando sua avó chegou com os 12 filhos em busca de melhores condições de vida, haviam cerca de 40 famílias na região. Hoje, são mais de 45 mil moradores. Seu avô ajudou a erguer as primeiras casas da comunidade, mas morreu antes de ver as ruas asfaltadas.

“Cresci com a minha avó contando essas histórias, sobre a vinda do Maranhão, parando em Brasília com um monte de crianças e, depois, chegando a São Paulo. Ouvindo isso, sempre pensei: é aqui que a minha família escolheu continuar e crescer. Esse território é um pedaço de mim e de toda minha família”, afirma a jovem.

Jahzara no Jardim Pantanal, zona leste de SP, onde nasceu e viu enchentes constantes desde os 6 anos Foto: Acervo pessoal

A primeira enchente que presenciou foi aos 6 anos. Desde então, ela viu o volume e a velocidade das águas aumentarem ano a ano. “Na última enchente, a água chegou a 1,20 metro”, conta. A frequência das tragédias a empurrou para o ativismo ainda adolescente. Aos 15 anos, organizou uma arrecadação após as chuvas destruírem casas em construção. Neste ano, repetiu o gesto, mobilizando doações pelas redes sociais.

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“O lugar onde nasci, cresci e vivo até hoje me tornou essa ativista climática”, diz. “Eu sou uma ativista, mas a minha mãe também é, a minha avó, o meu pai, os meus irmãos, porque a gente luta todos os dias pela nossa comunidade.”

Durante o ensino médio, Jahzara fez curso técnico em Meio Ambiente na ETEC Getúlio Vargas, no Ipiranga, zona sul de São Paulo. O deslocamento diário dentro da cidade revelou um contraste marcante: “Comecei a estranhar. Não é todo mundo que perde um sofá em março, também não é todo mundo que tem de começar a subir as coisas quando chega a época de chuva. Fui enxergando, cada vez mais, que minha realidade é bem específica, e que a gente precisa cuidar para que isso não aconteça mais.”

Ainda no ensino médio ela ingressou no Fridays for Future, movimento climático global popularizado pela sueca Greta Thunberg. “Com eles conheci coisas muito maiores, sobre o que era política pública, o que era uma Conferência das Nações Unidas e o que era fazer parte desses movimentos mais políticos, além do movimento territorial.”

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Aos 21 anos, Jahzara representa geração movida pela ansiedade climática. Na foto, ao lado de Greta Thunberg e outras jovens Foto: Acervo pessoal

Ela faz parte de uma geração de jovens ativistas movidos pelo sentimento de ansiedade climática, que hoje ocupam espaços institucionais nos principais eventos globais, apesar da pouca idade. Jahzara cita algumas das representantes do Brasil que servem de inspiração, como Mahryan Sampaio, Amanda Costa e Marina Guião.

“Muita gente fala que a gente é a geração Greta, mas eu não gosto muito desse nome”, afirma Marina Guião, analista de políticas climáticas. “Estávamos em um momento que se falava muito de clima, e a gente percebeu que as leis não respondiam à urgência do que estava acontecendo.”

”Fiz muitos amigos nessa caminhada, e a gente se apoia. Estamos em espaços diferentes, trabalhando em organizações diferentes, mas é importante ter essas outras pessoas juntas, que começaram com a gente”, afirma Marina, sobre sua relação com Jahzara.

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Estreia na COP

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A primeira participação de Jahzara em uma COP foi em 2022, no Egito. Para custear a viagem, ela precisou fazer uma vaquinha online — e viajou de avião pela primeira vez. “Eu era a única mulher com menos de 20 anos, negra, da periferia, aquilo me deixou em choque e triste. Mas não desisti.”

Na volta, a jovem compartilhou suas experiências com os colegas de escola e com as pessoas de sua comunidade. “O melhor momento da viagem com certeza foi quando voltei e compartilhei tudo o que aconteceu.”

Hoje, Jahzara é presença constante nas Conferências do Clima: participou das COPs 28 e 29, e estará presente na COP 30, em Belém. E ela tem uma mensagem para os jovens que querem entrar no ativismo: o importante é se manter em movimento.

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Na primeira COP, em 2022, no Egito; em novembro, ela também estará em Belém Foto: Acervo pessoal

“Vinte anos atrás não eram citadas crianças e jovens nos acordos (das COPs), e agora a gente é citado. A gente precisa de mais, mas é muito lindo ver como a juventude impulsionou fortemente o movimento climático global”, diz. “Acredito muito que fazendo o mínimo já gera algum impacto, seja dentro de casa, na escola ou em uma Conferência das Nações Unidas.”

Atualmente, ela cursa Geociências na USP, mas seus planos para o futuro são ambiciosos: atuar em Brasília, colaborando com as políticas públicas do País. “Se quiser ver as coisas acontecendo, a gente tem de colocar a mão na massa. Eu espero fazer a diferença nas políticas ambientais e climáticas do nosso País.”