‘Dou consulta até em banheiro público. Medicina é compromisso da vida inteira’, diz Drauzio Varella

Em entrevista ao Estadão, médico e escritor fala do complexo de vira-lata que o brasileiro tem em relação ao SUS, sobre os desafios da área da saúde e de seu encanto pela diversidade e pela escrita

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Foto do autor Stefhanie Piovezan

As lições de Drauzio Varella para os médicos que dão orientações pela internet

Para o oncologista, colegas têm de ter em mente que o objetivo da profissão é aliviar o sofrimento humano.

Foto: Renato Parada/Companhia das Letras
Entrevista comDrauzio VarellaMédico e escritor

Drauzio Varella, de 82 anos, é médico, pesquisador, influencer, divulgador de ciência e um contador de histórias como poucos, capaz de tecer relatos que vão da imensidão dos rios da Amazônia às celas claustrofóbicas das prisões de São Paulo.

Nesta entrevista ao Estadão, ele conta algumas dessas histórias, incluindo o desejo frustrado de ser sanitarista, como tomou a decisão de informar a população sobre a epidemia de aids e por que não aceitou ser ministro da Saúde.

Também avalia a formação dos novos médicos e o Sistema Único de Saúde (SUS). Para ele, não aprendemos a dar valor ao nosso modelo e mantemos um sentimento de inferioridade, preferindo enaltecer iniciativas como o sistema de saúde inglês (NHS). “Nós brasileiros somos muito vira-latas”, diz.

Drauzio passeia pelas pesquisas realizadas nos quase 60 anos de carreira, aponta o grande problema da saúde suplementar e critica a imprensa por não ser enfática no combate ao consumo de álcool.

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Com “mais histórias do que duas manicures”, fala ainda de seu mais recente livro, do sentimento ao abandonar pela primeira vez uma corrida — o médico foi tema do documentário A Vida é Uma Maratona, disponível no YouTube — e de como encara o envelhecimento. “Eu não sou ridículo, daqueles que falam ‘estou melhor do que um menino de 20 anos’”, afirma com a famosa franqueza. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Pesquisa feita pela Fiocruz mostra que o encarceramento em massa contribui para o aumento dos casos de tuberculose na América Latina. Após décadas de atendimento à população carcerária, o senhor vê avanços na atenção à saúde de pessoas privadas de liberdade?

Não, pelo menos não em São Paulo. Atendo no Centro de Detenção Provisória no Belém e a realidade lá é igual à do Carandiru, senão pior. Eles têm cerca de 1.400 presos. As celas têm dois treliches de um lado, um treliche do outro e, no fundo, um chuveiro, o vaso sanitário e uma pia. Eles dormem dois em cada cama, dormem 18 desse jeito. As celas têm 27, 30 pessoas dependendo do momento. O resto dorme no chão, que eles chamam de praia. Tem uns colchonetes e eles dormem ali. Eles passam duas horas da manhã e três horas da tarde numa quadra e o restante na cela. Imagina ficar 19 horas do dia trancado num lugar desses? Você não pode se mexer direito. E aí quais são os problemas? Dermatites, sarna. A sarna é praticamente universal na cadeia. E tem a tuberculose.

Às vezes, as pessoas me perguntam se eu tenho medo. Eu não tenho medo nenhum, tenho segurança total. A única coisa de que tenho medo é tuberculose resistente, porque muitos deles abandonaram o tratamento, aí você tem uns bacilos de Koch que não respondem a nada e levam à morte. É uma realidade muito complexa. Não pode prender tanta gente assim. Eu vejo pessoas desavisadas falando: “Tem que pôr na cadeia, prender tudo que é bandido”. É bonito para ganhar voto, mas como fica a situação depois? Como impedir que eles adiram às facções? Você acha que o Estado, numa cela como essa que eu descrevi, tem condição de oferecer segurança para o preso? Claro que não. Quem vai garantir a segurança do indivíduo ali é a facção.

Por que o senhor continua atendendo em presídios?

Não tenho a menor ideia. Nunca fiz psicoterapia para entender essas coisas. Não sei dizer... Sempre tive uma atração por cadeia, desde menino. Gostava de filme de cadeia quando era garoto e até hoje eu gosto. E depois porque ali você faz uma medicina de guerra, como se estivesse em um campo de batalha. É completamente diferente da medicina no hospital, com todos os recursos. Em um lugar desses você não tem nada. Não tem raio-x, medicação suficiente. É fazer medicina de verdade, com estetoscópio. Tem que examinar e fazer o diagnóstico rapidamente. É claro que você erra muito mais. Aprendi essa medicina que se faz com as mãos, com muito pouco recurso, o papel da clínica médica mesmo.

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E tem o lado pessoal. Porque a nossa tendência é ficar entre os que são semelhantes a nós, isso dá segurança. Você sai com seu marido, vai jantar com amigos. Todos pensam mais ou menos do mesmo jeito. Mas você perde esse contato com a diversidade humana. A diversidade dá um sentido diferente para a vida da gente, uma compreensão muito maior da humanidade, do país em que vivemos.

Sempre tive uma atração por cadeia, desde menino (...). Ali você faz uma medicina de guerra, como se estivesse em um campo de batalha

O senhor também pratica essa “medicina raiz” em regiões ribeirinhas. O que guarda do trabalho nelas?

O que me levou para a região do Rio Negro foi a pesquisa com produtos naturais, iniciada há 30 anos. Eu passava e via as comunidades ribeirinhas, indígenas. Comecei a descer do barco para ouvir as pessoas, entender a forma como vivem. Esse interesse foi me levando mais longe, até São Gabriel da Cachoeira (no Amazonas), que é um lugar lindo. Você chega lá e fica encantado com a diversidade. Só o Alto Rio Negro tem 23 etnias.

E também tem o lado muito triste dessa história, que é ver o abandono em que vivem essas populações. Quando se fala em Floresta Amazônica, as pessoas têm um monte de mitos: tapete verde, pulmão do mundo. Tudo besteira. Há uma tremenda diversidade na floresta, a vida amazônica é ao mesmo tempo exuberante e frágil. A vida das pessoas lá é muito frágil. Às vezes, elas morrem porque caíram da canoa. Você vê o problema do alcoolismo. O álcool era a ferramenta usada pelos colonizadores e escravizadores. Acho que é o principal problema de saúde pública na Amazônia. Você vê os homens jogados, dormindo na rua, é uma tragédia. Não há como não se envolver com esses problemas. Se fico três meses sem ir, me dá uma saudade...

Drauzio Varella tem 20 livros publicados; o mais recente é 'O sentido das águas: histórias do Rio Negro' Foto: Renato Parada/Companhia das Letras

Tem outra linha de pesquisa do senhor, com a vacina BCG. Em uma entrevista antiga ao Estadão, o senhor disse que testar o uso da BCG em pacientes com melanoma foi um dos momentos mais tensos de sua carreira. Por quê?

Eu me formei na USP, em 1967, e queria fazer saúde pública. A Secretaria da Saúde de São Paulo estava organizando a carreira de sanitarista e me interessei muito, mas o salário era baixo. Eu tinha duas filhas. Como ia sustentar as crianças? Nem pensar. E aí trabalhei com doenças infecciosas. Me interessei pela imunologia porque estavam surgindo os transplantes de órgão. O problema não era fazer a cirurgia, era evitar a rejeição. Todos os doentes morriam por rejeição do órgão transplantado. Isso criou a necessidade de conhecer mais profundamente a imunologia e veio muita verba para esse campo.

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Nessa época, havia uma tentativa de tratamento do melanoma maligno, um tumor que surge nas pintas e que quando se dissemina é muito resistente. Ele não respondia à radioterapia e à quimioterapia que existiam, e o BCG era injetado nas lesões. Eu tinha um paciente no Hospital do Câncer com um melanoma no antebraço que tinha dado metástases no braço e na parede do tórax, e fui atrás do BCG injetável. Só que naquela época o Brasil usava o BCG oral. Eu não conseguia importar o injetável e não aguentava mais ver a angústia daquele paciente, então decidi dar BCG oral. Ele começou a tomar e voltou depois de três semanas, com as lesões nitidamente quentes. Fui vendo essas lesões ficarem mais amolecidas e fui biopsiando. Tirava um fragmento e documentava a regressão no laboratório. E ele ficou livre da doença completamente.

Depois desse caso surgiram outros. Sabia que não era a cura do câncer, mas fiquei muito entusiasmado. Abandonei a infectologia e me dediquei ao estudo do câncer. O artigo sobre BCG oral saiu na maior revista de câncer da época, a Cancer, publicação oficial da American Cancer Society. Fui o primeiro brasileiro a publicar lá, junto com o grupo todo do A.C. Camargo. Foi um trabalho que me deu muita satisfação.

O senhor tem um trabalho notável em relação ao HIV e ao tabagismo. Hoje, vemos jovens usando menos camisinha e o crescimento do uso do cigarro eletrônico. Como o senhor avalia essas mudanças no cenário?

Em relação ao HIV, o progresso que nós fizemos foi absurdo. No começo não tinha remédio para HIV. Tinha o AZT, que como droga isolada era muito irrelevante e tinha muita toxicidade. Aí vieram as drogas potentes e o Brasil teve sabedoria, justiça seja feita, graças a um ministro da Saúde chamado José Serra. Ele falou: “Nós vamos tratar todo mundo”. Tinha medicamentos que custavam US$ 1 mil por mês. Ele chamou as companhias farmacêuticas para conversar e conseguiu abatimentos de até 90% do preço. Quebrou patente, ameaçou todo mundo. Nós devemos a ele dois favores inestimáveis: o combate ao HIV e proibir a propaganda de cigarro nos meios de comunicação. Porque isso foi definitivo. À medida que as empresas não podiam mais anunciar, perderam o poder de barganha com a imprensa. A imprensa era sustentada pelas companhias de cigarro. Eram propagandas maravilhosas. Ele proibiu. Na hora que proibiu, nós caímos matando, porque antes você não podia falar um “a” sobre o cigarro. É como hoje. Vai falar da cerveja. Veja qual meio de comunicação dará ouvidos, abrirá espaço para falar disso seriamente.

O que aconteceu com o HIV? Nós começamos a tratar todo mundo. Eu peguei um tempo em que, nas conferências internacionais de aids, se dizia que não podia distribuir medicamentos gratuitos para “pessoas ignorantes”, porque elas não iam tomar esses medicamentos com regularidade, iam induzir resistência no vírus e o vírus resistente ia se espalhar e causar uma epidemia muito pior. O Brasil provou que dá para distribuir para as pessoas, mesmo aquelas que não tiveram acesso à educação. Elas tomam porque não querem morrer. E com isso conseguimos que as organizações internacionais passassem a distribuir medicamentos na África abaixo do Saara, onde a epidemia estava matando o maior número de pessoas. Essa foi a primeira lição que demos para o mundo. A segunda é que, tratando todo mundo, o Brasil provou que aqueles nos quais a carga viral ficava indetectável não transmitiam mais o vírus. Isso ninguém sabia, nós que provamos.

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Brasil deu ao mundo duas lições sobre o HIV, diz Drauzio Varella

Medidas adotadas no País serviram de exemplo para o combate ao vírus em outros locais.

E o cigarro?

Pessoas com mais de 15 anos fumam menos no Brasil do que em qualquer país da Europa. A gente viaja para esses países e fica abismado com o número de fumantes. O Brasil deu essa lição. Aí o que aconteceu? Entraram em ação as quadrilhas que vivem de explorar a dependência de nicotina e que têm o nome de multinacionais. Ao sentir que o cigarro ia perdendo terreno, elas inventaram o cigarro eletrônico. Essas crianças que hoje fumam cigarro eletrônico fumam como a minha geração fumava o cigarro comum. A gente não sabia que fazia mal, que provocava dependência química. A meninada fuma sem saber que tem nicotina em doses mais altas do que o cigarro comum. Eu chamo essa gente de criminosos. Eles cometem o maior crime da história do capitalismo universal. Descontada a escravidão, o maior crime é viciar crianças numa droga que traz junto com ela substâncias muito perniciosas que vão gerar sofrimento e morte.

Descontada a escravidão, o maior crime é viciar crianças numa droga que traz junto com ela substâncias muito perniciosas que vão gerar sofrimento e morte

E como fica o SUS numa situação como essa, em que problemas como o vape crescem entre os jovens ao mesmo tempo em que a população envelhece mal?

Coitado do SUS, tudo nas costas dele, né? Quando dou aula, digo aos estudantes: “A geração de vocês não vai viver a revolução que a minha viveu porque não vai existir outra revolução como o SUS”. O SUS foi a coisa mais importante que aconteceu na história da medicina brasileira. Eu pratiquei medicina 20 anos antes do SUS e mais 30 depois. Antes, uma pessoa pobre ficava doente e ia depender da caridade. Não tinha hospitais suficientes, tinha postos de saúde que o prefeito montava e, em alguns lugares, Santas Casas, que até hoje lutam com muita dificuldade. De repente, apareceram os visionários e disseram: “Temos que criar um sistema único, todo mundo deve ter direito à saúde no Brasil”.

O senhor participou da 8ª Conferência Nacional de Saúde (evento que definiu a base para o capítulo sobre saúde na Constituição Federal de 1988 e a criação do SUS)?

Não. Achava que era um sonho. Como íamos ter dinheiro para tratar tanta gente? Eu era muito ignorante. Mas começamos. Não tinha dinheiro mesmo, ele apareceu depois que o SUS foi formado, colocando na Constituição que “todo mundo tem direito”. Nenhum país com mais de 100 milhões de habitantes teve essa ousadia até hoje. A Inglaterra tem 56 milhões. Você pega um país com bom nível econômico e educacional, sem desigualdades regionais significativas, e vai organizar um sistema público de saúde. Eu sou capaz de fazer isso mesmo com a minha ignorância administrativa. Agora vai fazer isso aqui, com 213 milhões de pessoas e uma tremenda desigualdade. É muito complicado. E os ingleses têm o maior orgulho do NHS. Você se lembra da Olimpíada de Londres?

Sim, aquela cena das macas na cerimônia de abertura.

Nós pusemos o SUS na Olimpíada do Rio de Janeiro? Nós brasileiros somos muito vira-latas. Semana passada, eu recebi um texto do The Telegraph: The NHS is close to collapse – could a radical scheme from Brazil’s favelas save it? (O NHS está à beira do colapso – será que um projeto radical das favelas brasileiras poderia salvá-lo?, em tradução livre). É o vira-lata mordendo o pitbull. Eles percebem esse valor e a gente, não.

O SUS foi a coisa mais importante que aconteceu na história da medicina brasileira

E o SUS tem tudo o que precisa. É isso que mais me dói, porque não precisa inventar nada. Está tudo pronto, é só fazer funcionar direito. Além de termos o maior sistema de saúde pública do mundo, temos o mais importante programa de saúde, que é a Estratégia Saúde da Família. Esses agentes comunitários são as figuras mais importantes da saúde pública brasileira. Não são os médicos, não são as enfermeiras, são eles. Eles são da comunidade, têm que passar de casa em casa e impedem uma porção de problemas não só em crianças, em adultos também. Nos lugares onde o programa funciona, ele reduz 34% das doenças cardiovasculares.

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Nós temos que impedir que as pessoas fiquem doentes, tanto na saúde pública quanto na saúde suplementar. E o pessoal da saúde suplementar não entendeu isso até hoje. Fiz uma palestra outro dia com muita gente da saúde suplementar e perguntei: “Quanto vocês investiram em prevenção em 2024?”. Silêncio total, ninguém tinha investido 10 centavos. O que vai acontecer com eles? Vão quebrar. A população envelhece, os problemas vão ficando cada vez mais graves, o custo sobe. A medicina talvez seja a única área em que a introdução de tecnologia aumenta os custos em vez de diminuir. Quem é que vai pagar a conta com uma população que envelhece? Qual é a alternativa? É o agente comunitário. Esse muda a história da saúde no Brasil. Em todo lugar que tem prefeito eu falo: “Você tem que investir nessa área, aumentar o número de equipes, prestigiar essas pessoas”.

Imagino que ao longo da sua carreira não tenham faltado convites para assumir cargos políticos. O senhor já foi convidado para ser ministro da Saúde? Por que nunca aceitou?

Fui convidado para ser ministro no primeiro governo do Lula (2003-2006). Eu não fui por uma razão: não é o que eu entendo. Tem que ser um bom administrador porque você herda uma máquina muito pesada, que envolve da compra de dipirona até importações de grandes máquinas, medicamentos caríssimos. Isso exige treinamento e uma formação adequada. Sabe o que falta para nós? Uma política pública decente. Tivemos muitas trocas de ministros nos últimos anos. Quando a pessoa começa a entender a complexidade do SUS, é posta para fora. E não entra outro porque é mais competente, mas por um arranjo político qualquer. Isso acontece no governo federal, no estadual e nas prefeituras. Nas cidades pequenas, quem é o secretário da Saúde? A prima do prefeito, o pai. Isso é que mata. A saúde tem que ser levada a sério, tem que considerar crime hediondo desviar dinheiro da saúde.

O senhor falou da falta de investimento em prevenção na saúde suplementar. Em uma entrevista concedida ao Estadão em 2014, o senhor disse que o cenário na saúde suplementar era de “todos contra todos”. Continua assim?

Continua. Você tem plano de saúde e pede autorização para uma cirurgia. Eles demoram e você fica com raiva. Quando liberam, o hospital está muito cheio, aí você fica contra o plano e contra o hospital. O plano fica contra você porque você reclama e, se bobear, vai entrar na Justiça para operarem mais depressa. Também fica contra o hospital porque a conta é salgada. E o hospital fica contra você e contra o plano, que atrasa o pagamento. Tem que haver um entendimento geral, tem que sentar todo mundo. O que significa ter um plano de saúde exatamente? É preciso deixar claro, porque o corretor não conta o que o plano não cobre. A pessoa de classe média baixa que consegue comprar um pequeno plano acha que ele vai dar direito a tudo. Isso não pode ser assim.

Há um discurso muito forte em relação à teleconsulta e agora também à telecirurgia. Como o senhor avalia esse uso da tecnologia?

Vejo muito mais vantagens do que problemas. Estou lá na cadeia e vejo problemas dermatológicos que não conheço, não sou dermatologista. Seria uma delícia se nessas horas eu pegasse uma máquina fotográfica, mandasse a imagem para um colega que está em Manaus e ele dissesse “é tal coisa”, “trata assim”. Ou ter um paciente que vai fazer uma cirurgia robótica em Manaus comandada por um cirurgião de São Paulo com grande experiência nesse procedimento. Isso é inevitável.

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Quando o Conselho Regional foi contra a telemedicina, achei um desserviço à população. Nós temos essa distribuição desigual dos especialistas. Como distribuir essa gente? Pode formar de monte, como estão formando agora. Você acha que essas meninas e meninos com pais que podem pagar R$ 12 mil por mês vão querer, depois de formados, se meter no sertão do Ceará? Não vão nunca. Eles vão fazer estética, alguns vão para a internet inventar teorias... As cidades pequenas ficam desguarnecidas. O médico ou médica vai para esses lugares e coloca o filho para estudar onde? É difícil. Nessas horas a telemedicina pode ajudar muito. Claro que tem problemas. Evita o contato pessoal, que é sempre o ideal. Mas esse contato direto é um privilégio de poucos. As pessoas dizem: “Que saudade dos médicos de família”. É, para quem tinha médico. Minha família não tinha.

A saúde tem de ser levada a sério, tem de considerar crime hediondo desviar dinheiro da saúde

O senhor começou seu trabalho como comunicador nos anos 80, na Jovem Pan, e já era um influencer da área da saúde antes mesmo de existirem as redes sociais.

Comecei fazendo esse tipo de comunicação na epidemia de aids. A aids era chamada de “peste gay” e eu achava um absurdo. As doenças sexualmente transmissíveis pegam mulheres, heterossexuais, todos. Durante um congresso sobre a doença em Estocolmo, imaginei que meus netos me perguntariam: “Você sabia disso e não falava para a população?”. Pensei que tinha de fazer algo e procurei um grande amigo, o Fernando Vieira de Mello (1929-2001), jornalista brilhante. Contei que a doença iria se espalhar, que seria uma tragédia. Ele disse: “Grava isso”. E gravamos.

O Fernando fragmentou a entrevista e ficou rodando na programação. Naquela época, médico que falava em meios de comunicação de massa ficava muito malvisto com os colegas porque isso era interpretado como autopromoção. Mas eu não estava pensando em me promover. Eu era oncologista, já tinha uma clínica grande. Falei: “Fernando, você vai acabar com a minha carreira”. Ele respondeu: “Você tem que decidir se quer ficar bem com seus colegas ou transmitir informação sobre essa epidemia”.

Não respondi nada. Depois voltei lá e perguntei como ele achava que eu devia fazer. Ele me disse que precisava me apresentar, dar meu nome, e que a mensagem tinha de ser curta. Se demorasse mais de dois, três minutos, a pessoa desligaria o rádio. E aí começamos a fazer essas vinhetas. O Fernando bolou, ele defendeu esse método que eu usei a vida inteira, uso no TikTok hoje. E ele falou: “Um dia você vai fazer isso na TV Globo porque tudo o que dá certo no rádio vai parar na televisão”.

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Os conselhos têm de ser mais rígidos no combate aos médicos que espalham desinformação?

Não podemos ter médicos que usam a internet para enganar, fazer negócios à custa de pessoas ingênuas. Isso não pode ser admitido em hipótese alguma e é papel do conselho e da polícia também, em determinados casos. A internet tem centenas de publicidades com a minha cara e a minha voz gerada por inteligência artificial. Eu já denunciei para o Ministério Público, tive de contratar advogados para tentar acabar com essa história. É um horror esse tipo de crime porque não é contra mim, é contra a saúde pública. Sabe-se lá o que essa gente vende. Tem bandido que dá curso de como fazer vídeo para vender remédio falso com a minha voz.

Além da concisão, quais conselhos dá aos médicos que desejam informar pelas redes sociais?

Vejo médicos jovens dando informações precisas e fico feliz. Eu vou morrer, estou com muita idade, daqui a pouco eu sumo, mas tem uma geração que vai renovar esse processo. É bonito ver que as coisas vão para frente. O problema é que quem quer se meter nisso precisa pensar o seguinte: qual é o seu interesse? Fazer comércio? Cai fora. Não faz isso. É antiético e você vai acabar desacreditado por todos.

Segundo lugar: você está certo de que quer informar? Você vai ter que falar olhando para a câmera e a câmera entrega os teus olhos. E os teus olhos entregam a tua alma. E as pessoas percebem quando você tem uma jogada por trás. Vá para a televisão para falar quando estiver interessado mesmo em transmitir aquela informação que você julga importante e em relação à qual você está seguro, aquilo é verdade, você leu, estudou, está preparado. Não fala qualquer coisa, não repete o que leu em fontes não confiáveis. Leva a tua experiência pessoal. Transmite isso como você faz com seus pacientes. Explicar, porque os médicos têm muita dificuldade para explicar para os pacientes a doença que eles têm.

Eu tive clínica particular até cinco anos atrás. Fechei o consultório para poder me dedicar a essa área de educação em saúde. É medicina do mesmo jeito. Me mandam WhatsApp, eu dou consulta até em banheiro público. É aquela história: você sai do interior, o interior não sai de você. A medicina é assim. Você sai dela, mas ela não te abandona de jeito nenhum. Aí você começa a receber consulta de tudo que é lado. A medicina é um compromisso que você tem pela vida inteira. Assim que vivem os médicos, aqueles que escolheram essa profissão. Então você só pode usar a internet quando está seguro de que quer transmitir aquela informação e ela é importante, você julga que ela vai ajudar as pessoas. Porque a finalidade da nossa profissão qual é? A medicina existe para aliviar o sofrimento humano. É isso. Não serve para curar. Você não cura hipertenso, gente com diabetes, não cura muitos casos de câncer, não cura a demência. Mas o médico sempre consegue aliviar o sofrimento com a ação dele. A ação física ou esse tipo de ação, instruindo as pessoas.

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A medicina existe para aliviar o sofrimento humano. Não serve para curar

O senhor compartilhou em suas redes sociais que, em setembro, teve de abandonar uma maratona pela primeira vez. Como lida com essas mudanças impostas pelo envelhecimento?

Eu não sou ridículo, daqueles que falam “estou melhor do que um menino de 20 anos”. Não sou desses velhos cretinos. Eu corri 30 quilômetros e tive uma dor junto à cabeça do fêmur. Eu andava e melhorava, mas voltava quando eu corria. Pensei se poderia ser um problema na articulação, já me vi fazendo prótese de quadril... Falei: “Vou parar”. Quem se mete a besta numa prova como essa, tenha a idade que tiver, tem de ir preparado para parar, que é o que fazem os corredores profissionais. Então não fiquei chocado com isso, mas foi a primeira vez que tomei essa decisão. De um lado, fiquei feliz. Todo mundo diz: “Você é louco, na sua idade vai morrer no caminho”. E digo: “Se eu não aguentar, eu paro”. Mas na hora de parar é ruim. Minhas netas estavam lá, eu queria chegar. Mas a vida impõe esses limites. A maratona me fez muito bem a vida inteira. Não tenho nenhuma doença e o mais importante: eu tenho disposição. Viajo com o pessoal que trabalha comigo e de vez em quando eles falam que estão exaustos. Aí eu brinco que não sei o que é isso. Fico cansado, exausto eu só fico quando corro maratona (risos).

Minha geração foi muito privilegiada. Primeiro, começou a ter a adolescência respeitada. Adolescência na geração dos meus pais praticamente não existia, as crianças trabalhavam. Minha geração pôde estudar, chegar à universidade. Passamos a viver com a “moda jovem”, a pílula anticoncepcional deu liberdade de relacionamentos sexuais, as mulheres começaram a se libertar. Depois, fomos envelhecendo com saúde. Eu peguei o tempo em que quem tinha 60 anos aparecia no jornal como sexagenário. Falei sobre isso com o Paulinho da Viola outro dia: “Nós demos sorte”. Ele está aí maravilhoso, com aquela voz doce, e tantos outros com 80 anos que estão trabalhando nas suas carreiras, produzindo.

Eu acho que, na vida, o mais importante é estar ativo. Tem problemas? Claro. Mas estão produzindo, fazendo. A gente não pode perder esse espírito de jeito nenhum. Às vezes o pessoal me pergunta: “Você não vai se aposentar?”. Eu falo: “Vou, quando eu morrer. Aí eu terei a eternidade para descansar” (risos).

No lançamento do livro O sentido das águas, no início deste ano, o senhor disse que ainda tinha muita coisa que achava que devia fazer. Quais são as histórias que ainda não contou e vai contar?

Uma vez, eu estava com os carcereiros do Carandiru num restaurante e passou um advogado. Um deles conhecia esse advogado. Ele passou, cumprimentou e alguém falou: “Esse é o Drauzio”. Então ele olhou para o amigo e falou: “Esse tem mais história que duas manicures” (risos).

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Com todas as atividades que eu tive, claro que vi muitas histórias, mas acho que as principais eu já contei. Quando acabei esse livro sobre as histórias que vi e ouvi no Rio Negro, pensei “chegou por aí”. Porque você não pode escrever por escrever. Você tem que escrever quando tem necessidade de contar a história que tem na cabeça. Neste momento, acho que está bom. Acabei de publicar um livro. Vamos devagar. Porque escrever livro é um problema, leva tempo. Meus livros levam dois a três anos. E o pior: o livro impõe uma disciplina. Ele cria uma obrigação parecida com a de quando cabulávamos aula. Quando você cabulava aula, ia passear, jogar futebol, mas tinha sempre aquele incômodo: “Você devia estar na aula”. E o livro é assim. Você sai com os amigos e pensa que, se tivesse ficado em casa, estaria escrevendo. Escraviza num certo sentido. É uma escravidão que dá muito prazer, é claro. Quem escreve nunca fica sozinho.

Quem escreve nunca fica sozinho

Se naquela época o senhor tinha mais história do que duas manicures, hoje acho que poderíamos falar em três (risos).

São engraçadas essas coisas que a gente ouve na rua. Ouvindo a voz do povo na rua você aprende muito... Tinha um homem lá na detenção que foi meu amigo até a morte. Tinha o maior respeito por ele, ele segurava a cadeia, tinha uma habilidade, uma verdade interna. E ele fazia todo ano uma festa na casa dele, uma casinha pequena. Um ano eu não pude ir. Na segunda, cheguei à cadeia e perguntei: “E aí, Araújo, como foi a festa?”. Ele começou a descrever com uma alegria... Esse cara perdeu dois filhos em um ano, viveu no meio da cadeia, estava lá no massacre (do Carandiru, em 1992, que terminou com 111 mortos). Eu falei: “Você é um homem feliz, não é?”. Ele disse: “Doutor, a vida, sabendo levar, é uma festa”. Uma bobagem, não é? Mas quando você entra em profundidade em uma frase como essa, é um pensamento da mais alta filosofia. Sabendo levar. Se não souber levar, pode ser uma tragédia.

O senhor concorda com ele?

Eu concordo, claro. Eu acho que a minha vida tem sido uma festa, apesar de todos os problemas. Tem sido uma festa permanente. E esse conceito da festa é importante porque toda festa uma hora acaba. Você vai numa festa maravilhosa, mas chega uma hora que a festa acaba, tudo bem. Você não vai ficar chorando porque a festa acabou.