Gerando resumo
Quando a peça Meno Male, escrita pelo ator e dramaturgo Juca de Oliveira (1935-2026), entrou em cartaz pela primeira vez, há 40 anos, Nuno Leal Maia ainda vivia a ressaca de um de seus personagens mais famosos na TV, o impetuoso professor Fábio de A Gata Comeu. Agora, protagonista da nova montagem do espetáculo, em cartaz no Teatro Renaissance, em São Paulo, Maia tem a oportunidade de interpretar um tipo inédito em sua carreira, o taxista italiano Nicola, uma das pontas do enredo da comédia política criada por Oliveira.
“Não vi a primeira versão de otário, de burro. Eu gravava muito na época”, diz Maia, com uma franqueza que permeou toda a entrevista com o Estadão, realizada em um teatro de São Paulo onde o ator ensaiava. “Gosto de fazer peças brasileiras. Os personagens são mais próximos de nós”, completa o ator, aos 78 anos. Ele não subia aos palcos desde que esteve em O Abajur Lilás, de Plínio Marcos (1935-1999), encenada em 2012. “A carpintaria teatral do Juca é sensacional. Me surpreendi”, afirma Maia. O ator revela ter tido muito pouco contato com o autor durante a carreira. “Ele era mais...”, expressa, dando a entender que Oliveira mantinha certa distância, quase uma imponência.
Embaralhando relações pessoais, afetivas e políticas para mostrar como a proximidade entre o público e privado pode ser um barril de pólvora sempre prestes a explodir, a peça acompanha a trajetória do jovem político corrupto Alberto, interpretado por Joaquim Lopes, que se vale do cargo para, em relações de irmandade, obter vantagens para si e aliados. Alberto entra na vida de Nicola quando colide com o táxi dele. E mais: casado, o político se envolve com a neta do italiano, Angelina. O choque de valores é inevitável.
Dirigida no passado por Bibi Ferreira (1922-2019), Meno Male, expressão italiana que pode ser traduzida para algo como ‘ainda bem’ ou ‘felizmente’, agora tem Léo Stefanini no comando. Suzy Rêgo, Marcelo Faria, Antoniela Canto e Naiara de Castro completam o elenco.
O texto passou por adaptações e atualizações. Há 40 anos, o alvo principal de Juca de Oliveira era o PMDB e alguns dos nomes mais proeminentes do partido na época, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra (que depois fundariam o PSDB). Nuno Leal Maia, que foi aluno de FHC quando cursou Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, reconhece que o momento atual é de agitação política.
“Vejam só, agora tem a extrema direita e a extrema esquerda!”, diz, com manifestação de surpresa, para, depois, fazer, à sua maneira, um breve resumo do que ocorreu no País nos últimos anos. “[Jair, ex-presidente] Bolsonaro veio para tacar fogo em tudo. Ele é de Áries, né? O PT, que também gosta de uma confusão, puxou a coisa para si. Aí fica nisso, para lá e para cá.”

Entre um lado e outro, Maia prefere nenhum. “Não gosto. Acho que todos que estão lá são só para pegar dinheiro. Não constroem nada para nós. Nunca vi um político que trabalhasse por amor”, opina, dando igualmente o tom do espetáculo.
Além de Ciências Sociais, ele também passou pelo curso de História, no qual frequentou as aulas de história grega, mas se formou em Cinema, na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA). A sétima arte é a grande paixão do ator.
Na grande tela, esteve em clássicos como A Dama do Lotação (1978), de Neville d’Almeida, ao lado de Sônia Braga, com quem trabalhou no revolucionário musical Hair, no início da década de 1970, e ainda trabalharia no longa Gabriela, Cravo e Canela, de 1983, adaptação de Bruno Barreto para o romance de Jorge Amado. Nos bastidores deste filme, conviveu com o astro italiano Marcello Mastroianni (1924-1996). “Algo inimaginável para mim. Era época da Copa do Mundo de 1982 e ele ficava tirando sarro de nós por causa do Brasil [eliminado após derrota para a Itália].”
Na Boca do Lixo, cinema libertário e independente produzido em São Paulo entre os anos 1960 e 1980, a busca foi por experiência. “Eu precisava aprender a fazer cinema, algo que a faculdade não ensinava”. Em O Bem Dotado - O Homem de Itu (1978), seu maior sucesso nas telas, teve a oportunidade de fazer sua primeira grande caracterização de um personagem. “Puxei para o lado do humor. Fiz uma homenagem ao Mazzaropi, bem caipira.”
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Nuno Leal Maia também é reconhecido como um ator de novela - embora esse não seja seu campo de atuação preferido. “Eu gosto de cinema”, repete. “O [Antônio] Fagundes é do teatro. O Tony [Ramos] adora novela”, diz o ator. Nem parece que esteve em mais de 20 produções, entre trabalhos na Bandeirantes, Rede Manchete e TV Globo, emissora com a qual ele manteve vínculo contratual até 2015.
Na Globo, foi Fábio, de A Gata Comeu, criação de Ivani Ribeiro, novela até hoje cultuada por fãs do gênero. Ao lado de Christiane Torloni, a Jô na trama, protagonizou cenas de romance e arranca-rabos com direito a agressões físicas. O lema era “bateu, levou”. Maia não acha que cenas assim devam ser cortadas de reprises ou de conteúdos on demand. “Vamos cortar [o samba] ‘oh mulata assanhada que passa com graça fazendo pirraça’? Isso é arte. Pura arte. Naquela época, a cabeça era outra.”

Top Model, de Walther Negrão e Antônio Calmon, exibida entre 1989 e 1990, ele classifica como “encantada”. Na história, ele era Gaspar Kundera, o surfista pai de cinco filhos, que levava a vida longe da ambição desenfreada do irmão Alex (Cecil Thiré). O personagem boa-praça virou o ideal de ‘paizão’ de uma geração.
Maia não vê a profissão com esse peso - e nem tem grande pretensão de influenciar quem quer que seja. “O ator interpreta o texto. Meu objetivo é dar o melhor que eu posso para o telespectador sair satisfeito. Procuro colorir, buscar verdades. Nem sempre isso é permitido. Eles [diretores] não confiam em nós”, afirma.
Em relação aos autores, encontrou liberdade com Calmon, em Top Model, e Marcílio Moraes, em Mandala (1987). Benedito Ruy Barbosa, de quem fez Pé de Vento (1980), na Bandeirantes, ele classifica como “muito bom autor”, mas “um chato, uma mala”. “Você não pode colocar um pio que ele reclama”, conta. Ele lembra quando abordou Barbosa para se pôr à disposição, em um papo informal no café da emissora. “Ele me respondeu: ‘Fica na sua! Faz o seu e não se mete no meu’. Levei um susto.”
A mais recente - e talvez a última - novela na qual o ator esteve foi Amor, Eterno Amor, drama espírita de Elizabeth Jhin, em 2012. “Cortavam a maioria das minhas cenas. Me aborreceu”, diz.
“A Globo é burra para caramba. Jogou fora todos os atores e apostou nos influenciadores digitais [atores com muitos seguidores nas redes sociais]. Aliás, não a Globo, as pessoas que a comandam. Limparam, trocaram todo mundo”, afirma, referindo-se à política que a emissora adotou nos últimos anos de mudar a relação de trabalho com seus talentos de contrato para vínculo por obra. Um outro tempo, como Maia reconhece.
“Depois que o Boni saiu, ainda ficou o espírito [de trabalho] dele lá por certo tempo. Quando o Ricardo Waddington assumiu [o comando, em 2020], mudou tudo”, analisa, ao citar José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que deixou a liderança operacional da emissora em 1997, e Waddington, que anos antes de assumir a direção dos Estúdios Globo, dirigiu Maia em História de Amor, novela de Manoel Carlos na qual ele interpretou outro de seus principais personagens, o treinador Assunção.
Aos 78 anos, Maia afirma que não pretende mais fazer telenovelas. “Nessa peça [Meno Male] estou com um personagem bacana, o pessoal é novo, legal, aí dá vontade de colaborar. Sinceramente? Hoje, prefiro sombra e água fresca. Se aparecer um filme bom, eu topo. Novela não sei se daria certo. Eles não vão me aguentar mais”, finaliza.
Serviço - Meno Male
- Autor: Juca de Oliveira
- Diretor: Léo Stefanini
- Elenco: Nuno Leal Maia, Joaquim Lopes, Suzy Rêgo, Marcelo Faria, Antoniela Canto e Naiara de Castro
- Quando: De 12/6 a 30/8. Sextas às 20h; Sábados às 21h e Domingos às 18h45
- Onde: Teatro Renaissance - Alameda Santos, 2.233, Cerqueira César - São Paulo
- Quanto: R$ 150






