“Totalmente drogada!”. A frase que virou meme poderia tascar uma pecha difícil de ser retirada de Fernanda Torres, a Nanda, agora, aos 59 anos, indicada ao Oscar 2025 de Melhor Atriz por sua comovente e segura interpretação da mãe e advogada Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, filme de Walter Salles, igualmente indicado ao prêmio maior do cinema mundial como Melhor Filme e Melhor Filme Internacional.
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Fernanda Torres, Demi Moore, Mikey Madison, Cynthia Erivo, Karla Sofia Gascón foram indicadas e disputam a estatueta de melhor atriz no Oscar deste ano
A frase dita por uma senhora à beira de uma piscina de um hotel em reação a uma efusiva e desafinada apresentação de Fernanda cantando Vapor Barato no programa Altas Horas foi ressignificada e se tornou em uma torcida que se formou no País em torno da indicação da atriz: “Totalmente indicada!”.
Fernanda mesmo já havia tirado de letra a insinuação. Contou a história do “totalmente drogada” no programa Que História é Essa Porchat ?, do comediante Fábio Porchat, aos risos. No mesmo programa, fez graça ao falar sobre seu medo de avião, que a leva a ‘segurar’ a aeronave com os pés.
A televisão, aliás, - veículo ainda com capacidade de alcançar os mais diversos cantos do País e tornar um ator realmente popular - desperta em Fernanda uma relação de amor e ódio. Amor pelas séries de sucesso das quais participou. Ódio pelas novelas, limitadas para sua autenticidade, qualidade que a levou a não apenas a ter sucesso como atriz, mas também como escritora, cronista e até mesmo entrevistada.
Fernanda fez seus primeiros trabalhos na TV no final dos anos 1970, na TVE, dirigida por Sérgio Britto, grande amigo e companheiro de palco de seus pais, Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Aos 15 anos, fez sua primeira novela, Baila Comigo, de Manoel Carlos. A personagem era Fauna França. A irmã, Flora, era interpretada pela também adolescente Narjara Turetta. Nessa mesma novela, Fernanda, a Fernandona, estreou na TV Globo. Sua personagem, a ex-atriz Silvia Toledo, foi escrita especialmente para ela.
Logo em seguida, fez Brilhante, de Gilberto Braga. Interpretou Marília, uma menina mimada e voluntariosa, filha de Paulo César, interpretado pelo ator Tarcísio Meira, e de Maria Isabel, defendida por Renée de Vielmond. Mais uma vez, Fernandona fazia parte do elenco. A novela foi um grande fracasso.
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Depois de atuar em Eu Prometo, última trama criada por Janete Clair, Fernanda protagonizou sua primeira telenovela, o remake de Selva de Pedra, levada ao ar em 1986. A história de Janete, exibida originalmente em 1972, foi adaptada por Regina Braga e Eloy Araújo.
Fernanda interpretou Simone Marques, uma artista plástica que se apaixona por Cristiano Vilhena, personagem de Tony Ramos. Uma típica mocinha sofredora das tramas de Janete que, na versão anterior, havia cabido muito bem em Regina Duarte, a ‘namoradinha do Brasil’.
No entanto, para Fernanda, a personagem foi um fardo, como ela já declarou inúmeras vezes. Ficou famosa a cena em que a personagem, vítima de uma paralisia temporária, rola por uma rampa de garagem para fugir de um cativeiro. Tudo o que Fernanda nunca quis ser foi a tal ‘namoradinha do Brasil’.
Fauna França, o fracasso de Brilhante e o mar de lágrimas derramado em Selva de Pedra foram o suficiente para Fernanda desistir das telenovelas. A relação da atriz com a televisão, a partir dos anos 1990, se deu por meio de seriados, sobretudo os de comédia.
Os Normais, levado ao ar entre 2001 e 2003, popularizou definitivamente a figura de Fernanda na TV. Ela era Vani, mulher neurótica que era noiva do pacato Rui, personagem de Luiz Fernando Guimarães. A história de humor criada por Fernanda Young e Alexandre Machado virou dois filmes, Os Normais - O Filme (2003) e Os Normais 2 - A Noite mais Maluca de Todas (2009).
Entre 2011 e 2015, Fernanda protagonizou, ao lado de Andrea Beltrão, o sitcom Tapas & Beijos, de Claudio Paiva. Nele, ela era Fátima, que ao lado da amiga Sueli enfrenta as agruras de um relacionamento com um homem imaturo e sedutor, Armane (Vladimir Brichta).
Para muitos que se fixaram em Vani e Fátima, a interpretação de Fernanda para Eunice Paiva no filme Ainda Estou Aqui pode parecer ainda mais surpreendente. Mas, oras. Nanda é filha de Fernandona. A atriz que pode levar torta na cara em uma comédia pastelão como a novela Guerra dos Sexos (1983) ou comover como Dora em Central do Brasil (1998), filme de Walter Salles.
Para esses espectadores, talvez, passou despercebido o seriado Amor e Sorte, feito durante a pandemia. Nessa produção, dirigida por Andrucha Waddington, seu marido, Fernanda atuou ao lado da mãe e do filho Joaquim Waddington no seriado.
Um núcleo pequeno de atores, que incluía ainda Arlete Salles e Ricardo Pereira, narraram, pelo ponto de vista da criação de Jorge Furtado, a rotina do isolamento social. Mais uma faceta de Nanda. Um interpretação refinada. Apurada também foi a série Fim, baseada no livro de mesmo nome lançado por Nanda em 2013, produzida para o Globoplay em 2023.
Nanda é fruto de uma árvore que cresceu no teatro. Nele, fez Cordélia, em Rei Lear, a grande tragédia teatral de William Shakespeare. E fez, por cinco anos, o monólogo A Casa dos Budas Ditosos, adaptação de Domingos de Oliveira para o livro João Ubaldo Ribeiro. Em cena, uma mulher satisfeita e em paz pela vida libertina que levou. Nanda, como ensina o teatro, pode ser todas.
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No cinema, aos 20 anos, em 1986, ganhou a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes por sua atuação no filme Eu Sei Que Vou Te Amar, com roteiro e direção de Arnaldo Jabor. Não pôde receber o prêmio. Na época, estava às voltas com os dramas de Simone em Selva de Pedra. Que roteiro!
Com Walter Salles, o mesmo diretor que a conduziu a uma irretocável Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui, filmou Terra Estrangeira, em 1996. Um drama que fala da solidão dos imigrantes no triste Brasil pós ditadura, mergulhado em inflação, corrupção e confisco de poupança. O Brasil nunca saiu do radar de Nanda.
Nascida em Grajaú, no subúrbio carioca, Fernanda já disse que é “burguesa”, gosta de trabalhar menos. Já a mãe, Fernandona, segundo ela, é “operária”, “estivadora”. As duas se encontram na arte e na falta de pudores diante de suas personagens.
Fazer a relação entre uma e outra, em um momento em que os holofotes são de Nanda, não é problema algum. Uma prova: às vésperas da 71ª edição do Oscar, em 1999, aquele no qual Fernandona concorreu ao prêmio de melhor atriz por Central do Brasil, Nanda, em uma entrevista à TV, respondeu, ao ser questionada se era ela ou o irmão, o cineasta Cláudio Torres, quem estava “roendo as unhas” por conta da mãe.
“Ninguém. Graças a Deus tivemos uma educação sem deslumbre em casa. Sabemos o que é Oscar. O Oscar é a festa da injustiça”, respondeu. Depois, confidenciou um pensamento da mãe: “Nós somos maiores do que o Oscar. O Oscar é uma festa típica americana. Como o carnaval é nosso”.
Por ironia, bem ao estilo Fernanda Torres, neste ano, o Oscar cai no Carnaval. Se Fernanda levar a estatueta, ou, se o filme for premiado, o Oscar terá que se render aos brasileiros. Um País de pé, criativo, pulsante e sem se render. O Brasil que as Fernandas sempre desejaram.