Aos 25 anos, a norte-americana Mikey Madison se tornou na noite deste domingo, 2, uma das mulheres mais jovens a ganhar o Oscar de Melhor Atriz. Ela concorreu ao prêmio por seu papel em Anora, onde interpreta uma stripper de Nova York que acaba se envolvendo com o filho de um oligarca russo. O longa, descrito como um “conto de fadas às avessas”, subverte a história da Cinderela e brinca com a desilusão moderna do Sonho Americano.
Se a obra de Sean Baker é considerada a favorita para levar Melhor Filme ao final da noite, isso se deve em boa parte ao brilho de Madison no longa. “Esse papel exige que ela vá ao extremo, com elementos de pastelão, romance, comédia e tragédia, além de dançar com pouquíssima roupa e dar uns socos poderosos”, escreveu a crítica Alissa Wilkinson em sua resenha no The New York Times. “E a cada momento Madison fica mais fascinante.”

Descrita como uma “estrela em ascensão” no texto de Wilkinson, a artista certamente parece pronta para conquistar Hollywood. Em sua primeira aparição como protagonista de um filme, já foi indicada a Melhor Atriz no Oscar. Ela, no entanto, busca manter a humildade.
“Muitas pessoas não fazem ideia de quem eu sou”, afirmou em entrevista à edição britânica da revista GQ. “Tudo é muito surreal”, ela revelou. “Acho que estou tão imersa no meu próprio mundo que estou absorvendo tudo em um ritmo mais lento, e depois terei uma compreensão do tipo: ‘Uau, eu realmente fiz isso.’”
Natural de Los Angeles, Madison atua desde os 14 anos. Ela, no entanto, passou parte da adolescência dividindo sua atenção profissional com outra atividade — o hipismo. A família da atriz tem tradição no esporte e a jovem sonhava em se tornar uma amazona. Conciliar ambas as carreiras, entretanto, se mostrou impossível. Para a sorte da sétima arte, Madison escolheu a atuação.
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Seu primeiro papel de destaque ocorreu na série Better Things, da FX. Entre 2016 e 2022, interpretou Max, uma adolescente desbocada e rabugenta. Sua atuação foi bastante elogiada pela crítica e lhe rendeu um papel em Era uma Vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino, em 2019.
No longa, interpretou Sadie, um dos membros do culto de Charles Manson. Depois, foi Amber em Pânico 5, em 2022. As atuações de Madison chamaram atenção de Baker, que a convidou para participar de Anora. “Eu disse ‘sim’ antes mesmo de ler o roteiro”, afirmou a atriz à revista norte-americana The Cut. “Eu sabia que, o que quer que ele criasse, seria algo do qual eu gostaria de fazer parte”.
Se na telona a atriz era uma adolescente cheia de atitude, petulante e com senso de humor, na realidade, ela era diferente. “Ao vivo, ela era reservada, quieta, quase tímida. Deu para perceber que na tela realmente era uma performance, o que me deu confiança de estar fazendo a escolha certa”, contou o diretor ao Estadão.
“As pessoas esperam algo de mim e, quando me conhecem, me pergunto se ficam desapontadas”, desabafou a atriz à GQ britânica. “Mas eu não posso ser ninguém além de mim mesma, certo?”.
Para Madison, interpretar papéis extremos é uma forma de explorar diferentes possibilidades. “Se eu interpretar esses personagens, vou poder experimentar vidas diferentes e viver através deles. E não precisa ser eu, sabe? Há uma rede de segurança.”
‘Anora’ e o trabalho sexual
Ao longo de sua filmografia, Sean Baker trabalhou inúmeras temáticas. Uma das mais presentes, no entanto, é o trabalho sexual. Seja diretamente, como em Tangerine e Red Rocket, ou indiretamente, como em Projeto Flórida e Starlet, a vida e os desafios de strippers, prostitutas e atores pornôs costumam ser exploradas em suas obras. Em Anora, não foi diferente.
A protagonista interpretada por Mikey Madison é uma dançarina exótica, mas aceita se prostituir após receber uma oferta generosa de Ivan, filho do oligarca russo. Ao longo do filme, são inúmeras as cenas de nudez e sexo. Madison nunca havia ficado nua em frente as câmeras, mas não se intimidou com isso. “Notei que havia muito humor e bobeira em algumas cenas de sexo”, revelou à GQ.

Madison, inclusive, optou por não utilizar um coordenador de intimidade durante as gravações do filme. O cargo é responsável por supervisionar cenas íntimas que envolvam sexo simulado e nudez. Em Anora, tais cenas compõem uma boa parte do filme.
“Foi uma escolha que fiz. A produção me ofereceu, se eu quisesse, um coordenador de intimidade”, afirmou Madison no quadro Actors on Actors, da Variety. Apesar da polêmica, Madison descreveu a experiência como “extremamente positiva”.
Para interpretar Ani, a atriz leu e viu documentários sobre trabalhadoras do sexo, visitou boates e conversou com algumas profissionais. Aprendeu a dançar e fez aulas de russo. Morou em Brighton Beach, Nova York, por um tempo para praticar o sotaque. Na trama, Anora é descendentes de russos.
“Foi importante para mim pesquisar o máximo possível. Queria entender a comunidade de uma forma profunda, para poder retratar a vida de Ani da forma mais realista possível. Não queria que fosse sensacionalizado ou dramatizado negativamente”, afirmou à GQ.
“Fiz amigas que são dançarinas. Queria que todos os aspectos da carreira profissional de Ani fossem realistas. Ao mesmo tempo, sei que aquilo não é toda a sua vida. É apenas o seu trabalho”, disse à The Cut.
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O respeito pelo trabalho sexual, inclusive, se fez presente em todas suas falas de promoção do longa. Ao ganhar o Bafta de Melhor Atriz, Madison encerrou o seu discurso dedicando sua vitória a comunidade de trabalhadores sexuais e dizendo que eles merecem “ser respeitados e tratados com decência”.





