Enem: Aumentar banco de questões deve ser prioridade no novo governo, diz especialista


Prova tratou de temas importantes, como igualdade de gênero e democracia, mas falta de calibragem das perguntas preocupa

Por Ítalo Lo Re
Atualização:

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) começou nesse domingo, 13, com as provas de Redação, Ciências Humanas e Linguagens. As questões seguiram a tradição da prova, que cobra temas ligados a debates sociais, direitos humanos e sustentabilidade.

Isso ocorreu após tentativas de interferência durante a gestão Jair Bolsonaro no conteúdo do Enem, com a criação de uma comissão para vigiar itens considerados problemáticos e denúncias de técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo teste.

Para o professor Ocimar Alavarse, renovar questões da prova é desafio central para os próximos anos Foto: Divulgação/USP
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Professores de cursinho elogiaram o nível das perguntas e o grau de atualidade da prova, que trouxe assuntos e personagens atuais, como a luta dos indígenas na Cúpula do Clima de 2021 e a vitória da skatista Rayssa Leal na Olimpíada do ano passado. Também destacaram a importância de fazer com que os jovens discutam temas relevantes, como a valorização dos povos tradicionais, democracia e igualdade de gênero. Chamou a atenção, por outro lado, a ausência de referência à ditadura militar por mais um ano.

O professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Ocimar Alavarse, porém, diz que a prova deste domingo revela outro desafio para o Inep: renovar o banco de questões do exame. Uma parte dos itens usados não passou por pré-teste, o que dificulta a calibragem da distribuição de questões fáceis, médias e difíceis, o que ajuda a definir a nota.

“Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir”, destaca ele, especialista em avaliação educacional. Leia os principais pontos da entrevista:

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O Enem abordou temas como povos originários, democracia, ambiente e gênero. Após denúncias sobre tentativas de interferência da gestão Jair Bolsonaro na prova, o que o exame deste domingo mostra?

Antes, é importante dizer que o governo Bolsonaro tentar impedir um tópico sobre ditadura, por exemplo, não é uma questão ideológica, é uma questão de restringir um tópico que está na matriz de referência do Enem. Além disso, não pode fazer uma pergunta cuja resposta depende do posicionamento ideológico do candidato, uma pergunta que o candidato deve concordar ou não. Não pode fazer uma pergunta cuja posição ideológica o faz acertar o item. Quando a prova traz uma questão de gênero e de povos originários, ela está ampliando a matriz temática. É a amplitude da temática que, por sua vez, deveria estar sendo trabalhada.

Qual é a sua avaliação sobre as questões mais novas usadas nesta edição da prova? Houve uma renovação?

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Questões que não foram aprovadas no pré-teste são um risco. Isso reflete a ausência de uma política para ter um banco de itens no Inep. Tem de ter uma prova que não só cubra toda a matriz, mas também itens de várias dificuldades. Pode haver um item perfeito do ponto de vista pedagógico, mas a dificuldade é de, por exemplo, 720 na escala do Enem. Então, esse item, apesar de ter boas características, não tem a dificuldade que se precisa. Para atingir esse patamar tem de fazer muitos pré-testes, ter a elaboração de muitos itens, e isso toma tempo. Foi algo que o Inep não faz nos últimos quatro anos: uma política para alimentar itens. Diferentemente do Saeb (avaliação de aprendizagem do Ministério da Educação), que a prova não é pública, no Enem você não pode ter isso (as questões no banco são usadas e não podem ser repetidas na edição seguinte). Com o banco, você passa a ter questões que cobrem melhor a matriz. Não é que agora quem é contra a ditadura vai melhor no exame. Quando faço um item, a resposta não pode depender dessa subjetividade. Tem de atender a outras características. Uma delas é que a resposta considerada correta corresponde ao entendimento dos estudiosos. Se fizer uma pergunta sobre o movimento sem terra tanto para um aluno filho de fazendeiro ou para um que é filho de um camponês, a chance de eles acertarem o item tem de depender do estudo, não da opinião.

Não fazer pré-teste, em meio a isso, faz com que o nível de dificuldade fique descalibrado?

Quando vai montar a prova, tem de fazer dois tipos de cobertura. Uma da matriz e outra da dificuldade. No Enem, como é para medir o nível dos estudantes, tem de ter uma concentração de itens mais na parte de cima da escala. Tem de ter mais itens acima de 700 (de uma escala de 0 a 1000). O pré-teste não dá toda a resposta, mas é um risco não fazer. Rigorosamente, o pessoal do Inep só vai saber (se a prova foi difícil ou fácil para os alunos) no processamento. O Inep informou que alguns itens aproveitaram de pré-testes antigos, mas não houve renovação. Um elaborador produz um item, que vai passar por três revisores, e ele vai a pré-teste. Escolhe uma população assemelhada àquela que vai fazer a prova. Aqueles que têm muitos defeitos são jogados fora. Normalmente, pega-se esses itens, faz uma revisão. O Inep divulgou que não estaria fazendo isso, mas estaria fazendo revisão. Estão fazendo isso porque não têm banco à altura (para “queimar” questões). Não teve uma política para isso, o governo Bolsonaro parece que estava brigando com o Enem. Muitos desses jovens já passaram por um período crítico na pandemia, privados de ter contato com os professores. Imagina ter de torcer para que não apareça uma prova que não fuja tanto do padrão?

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Dá para se dizer, até levando em conta o histórico do governo Bolsonaro com a elaboração do Enem, que a prova deste ano se alinhou à tradição de cobrança de conteúdos?

No último período, por conta da crise do Inep, optaram por uma solução intermediária e caseira. Deixaram o (Carlos) Moreno dirigindo o Inep, um funcionário de carreira, o que teria dado um clima mais favorável. Teve certo bom senso, não tem de fazer perseguição ideológica. Mas não nos iludamos: esse Enem foi feito rigorosamente sem itens pré-testados, isso é declaração do Inep.

Quais são os desafios para quem assumir o Inep? O que esperar do próximo Enem?

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Quem assumir a presidência do Inep, no dia seguinte, tem de retomar esse processo de pré-teste. Hoje você elabora um item, mas não sabe qual vai ser a dificuldade do item. Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir. O ideal é que faça um pré-teste para usar lá em 2024, 2025. Daqui um ano, vai ter outra vez o Enem, e terá de existirem itens novos. Já antecipo um problema no horizonte. Com quatro anos sem ter feito pré-testes, quem assumir a presidência do Inep vai ter que ter isso como prioridade menos 2.

Há outros desafios no radar?

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Tem uma outra questão que não tem a ver exatamente com a prova: o quadro de queda drástica de jovens se inscrevendo para fazer o Enem (a prova teve 3,4 milhões de inscritos, e enfrenta redução desde a metade da década passada, quando chegou a ter quase 9 milhões de interessados no exame) . Isso é preocupante. Quando as pessoas sequer se inscrevem, há uma crise de expectativas. Não tem a ver com a prova em si, mas com uma questão mais ampla.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) começou nesse domingo, 13, com as provas de Redação, Ciências Humanas e Linguagens. As questões seguiram a tradição da prova, que cobra temas ligados a debates sociais, direitos humanos e sustentabilidade.

Isso ocorreu após tentativas de interferência durante a gestão Jair Bolsonaro no conteúdo do Enem, com a criação de uma comissão para vigiar itens considerados problemáticos e denúncias de técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo teste.

Para o professor Ocimar Alavarse, renovar questões da prova é desafio central para os próximos anos Foto: Divulgação/USP

Professores de cursinho elogiaram o nível das perguntas e o grau de atualidade da prova, que trouxe assuntos e personagens atuais, como a luta dos indígenas na Cúpula do Clima de 2021 e a vitória da skatista Rayssa Leal na Olimpíada do ano passado. Também destacaram a importância de fazer com que os jovens discutam temas relevantes, como a valorização dos povos tradicionais, democracia e igualdade de gênero. Chamou a atenção, por outro lado, a ausência de referência à ditadura militar por mais um ano.

O professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Ocimar Alavarse, porém, diz que a prova deste domingo revela outro desafio para o Inep: renovar o banco de questões do exame. Uma parte dos itens usados não passou por pré-teste, o que dificulta a calibragem da distribuição de questões fáceis, médias e difíceis, o que ajuda a definir a nota.

“Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir”, destaca ele, especialista em avaliação educacional. Leia os principais pontos da entrevista:

O Enem abordou temas como povos originários, democracia, ambiente e gênero. Após denúncias sobre tentativas de interferência da gestão Jair Bolsonaro na prova, o que o exame deste domingo mostra?

Antes, é importante dizer que o governo Bolsonaro tentar impedir um tópico sobre ditadura, por exemplo, não é uma questão ideológica, é uma questão de restringir um tópico que está na matriz de referência do Enem. Além disso, não pode fazer uma pergunta cuja resposta depende do posicionamento ideológico do candidato, uma pergunta que o candidato deve concordar ou não. Não pode fazer uma pergunta cuja posição ideológica o faz acertar o item. Quando a prova traz uma questão de gênero e de povos originários, ela está ampliando a matriz temática. É a amplitude da temática que, por sua vez, deveria estar sendo trabalhada.

Qual é a sua avaliação sobre as questões mais novas usadas nesta edição da prova? Houve uma renovação?

Questões que não foram aprovadas no pré-teste são um risco. Isso reflete a ausência de uma política para ter um banco de itens no Inep. Tem de ter uma prova que não só cubra toda a matriz, mas também itens de várias dificuldades. Pode haver um item perfeito do ponto de vista pedagógico, mas a dificuldade é de, por exemplo, 720 na escala do Enem. Então, esse item, apesar de ter boas características, não tem a dificuldade que se precisa. Para atingir esse patamar tem de fazer muitos pré-testes, ter a elaboração de muitos itens, e isso toma tempo. Foi algo que o Inep não faz nos últimos quatro anos: uma política para alimentar itens. Diferentemente do Saeb (avaliação de aprendizagem do Ministério da Educação), que a prova não é pública, no Enem você não pode ter isso (as questões no banco são usadas e não podem ser repetidas na edição seguinte). Com o banco, você passa a ter questões que cobrem melhor a matriz. Não é que agora quem é contra a ditadura vai melhor no exame. Quando faço um item, a resposta não pode depender dessa subjetividade. Tem de atender a outras características. Uma delas é que a resposta considerada correta corresponde ao entendimento dos estudiosos. Se fizer uma pergunta sobre o movimento sem terra tanto para um aluno filho de fazendeiro ou para um que é filho de um camponês, a chance de eles acertarem o item tem de depender do estudo, não da opinião.

Não fazer pré-teste, em meio a isso, faz com que o nível de dificuldade fique descalibrado?

Quando vai montar a prova, tem de fazer dois tipos de cobertura. Uma da matriz e outra da dificuldade. No Enem, como é para medir o nível dos estudantes, tem de ter uma concentração de itens mais na parte de cima da escala. Tem de ter mais itens acima de 700 (de uma escala de 0 a 1000). O pré-teste não dá toda a resposta, mas é um risco não fazer. Rigorosamente, o pessoal do Inep só vai saber (se a prova foi difícil ou fácil para os alunos) no processamento. O Inep informou que alguns itens aproveitaram de pré-testes antigos, mas não houve renovação. Um elaborador produz um item, que vai passar por três revisores, e ele vai a pré-teste. Escolhe uma população assemelhada àquela que vai fazer a prova. Aqueles que têm muitos defeitos são jogados fora. Normalmente, pega-se esses itens, faz uma revisão. O Inep divulgou que não estaria fazendo isso, mas estaria fazendo revisão. Estão fazendo isso porque não têm banco à altura (para “queimar” questões). Não teve uma política para isso, o governo Bolsonaro parece que estava brigando com o Enem. Muitos desses jovens já passaram por um período crítico na pandemia, privados de ter contato com os professores. Imagina ter de torcer para que não apareça uma prova que não fuja tanto do padrão?

Dá para se dizer, até levando em conta o histórico do governo Bolsonaro com a elaboração do Enem, que a prova deste ano se alinhou à tradição de cobrança de conteúdos?

No último período, por conta da crise do Inep, optaram por uma solução intermediária e caseira. Deixaram o (Carlos) Moreno dirigindo o Inep, um funcionário de carreira, o que teria dado um clima mais favorável. Teve certo bom senso, não tem de fazer perseguição ideológica. Mas não nos iludamos: esse Enem foi feito rigorosamente sem itens pré-testados, isso é declaração do Inep.

Quais são os desafios para quem assumir o Inep? O que esperar do próximo Enem?

Quem assumir a presidência do Inep, no dia seguinte, tem de retomar esse processo de pré-teste. Hoje você elabora um item, mas não sabe qual vai ser a dificuldade do item. Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir. O ideal é que faça um pré-teste para usar lá em 2024, 2025. Daqui um ano, vai ter outra vez o Enem, e terá de existirem itens novos. Já antecipo um problema no horizonte. Com quatro anos sem ter feito pré-testes, quem assumir a presidência do Inep vai ter que ter isso como prioridade menos 2.

Há outros desafios no radar?

Tem uma outra questão que não tem a ver exatamente com a prova: o quadro de queda drástica de jovens se inscrevendo para fazer o Enem (a prova teve 3,4 milhões de inscritos, e enfrenta redução desde a metade da década passada, quando chegou a ter quase 9 milhões de interessados no exame) . Isso é preocupante. Quando as pessoas sequer se inscrevem, há uma crise de expectativas. Não tem a ver com a prova em si, mas com uma questão mais ampla.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) começou nesse domingo, 13, com as provas de Redação, Ciências Humanas e Linguagens. As questões seguiram a tradição da prova, que cobra temas ligados a debates sociais, direitos humanos e sustentabilidade.

Isso ocorreu após tentativas de interferência durante a gestão Jair Bolsonaro no conteúdo do Enem, com a criação de uma comissão para vigiar itens considerados problemáticos e denúncias de técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo teste.

Para o professor Ocimar Alavarse, renovar questões da prova é desafio central para os próximos anos Foto: Divulgação/USP

Professores de cursinho elogiaram o nível das perguntas e o grau de atualidade da prova, que trouxe assuntos e personagens atuais, como a luta dos indígenas na Cúpula do Clima de 2021 e a vitória da skatista Rayssa Leal na Olimpíada do ano passado. Também destacaram a importância de fazer com que os jovens discutam temas relevantes, como a valorização dos povos tradicionais, democracia e igualdade de gênero. Chamou a atenção, por outro lado, a ausência de referência à ditadura militar por mais um ano.

O professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Ocimar Alavarse, porém, diz que a prova deste domingo revela outro desafio para o Inep: renovar o banco de questões do exame. Uma parte dos itens usados não passou por pré-teste, o que dificulta a calibragem da distribuição de questões fáceis, médias e difíceis, o que ajuda a definir a nota.

“Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir”, destaca ele, especialista em avaliação educacional. Leia os principais pontos da entrevista:

O Enem abordou temas como povos originários, democracia, ambiente e gênero. Após denúncias sobre tentativas de interferência da gestão Jair Bolsonaro na prova, o que o exame deste domingo mostra?

Antes, é importante dizer que o governo Bolsonaro tentar impedir um tópico sobre ditadura, por exemplo, não é uma questão ideológica, é uma questão de restringir um tópico que está na matriz de referência do Enem. Além disso, não pode fazer uma pergunta cuja resposta depende do posicionamento ideológico do candidato, uma pergunta que o candidato deve concordar ou não. Não pode fazer uma pergunta cuja posição ideológica o faz acertar o item. Quando a prova traz uma questão de gênero e de povos originários, ela está ampliando a matriz temática. É a amplitude da temática que, por sua vez, deveria estar sendo trabalhada.

Qual é a sua avaliação sobre as questões mais novas usadas nesta edição da prova? Houve uma renovação?

Questões que não foram aprovadas no pré-teste são um risco. Isso reflete a ausência de uma política para ter um banco de itens no Inep. Tem de ter uma prova que não só cubra toda a matriz, mas também itens de várias dificuldades. Pode haver um item perfeito do ponto de vista pedagógico, mas a dificuldade é de, por exemplo, 720 na escala do Enem. Então, esse item, apesar de ter boas características, não tem a dificuldade que se precisa. Para atingir esse patamar tem de fazer muitos pré-testes, ter a elaboração de muitos itens, e isso toma tempo. Foi algo que o Inep não faz nos últimos quatro anos: uma política para alimentar itens. Diferentemente do Saeb (avaliação de aprendizagem do Ministério da Educação), que a prova não é pública, no Enem você não pode ter isso (as questões no banco são usadas e não podem ser repetidas na edição seguinte). Com o banco, você passa a ter questões que cobrem melhor a matriz. Não é que agora quem é contra a ditadura vai melhor no exame. Quando faço um item, a resposta não pode depender dessa subjetividade. Tem de atender a outras características. Uma delas é que a resposta considerada correta corresponde ao entendimento dos estudiosos. Se fizer uma pergunta sobre o movimento sem terra tanto para um aluno filho de fazendeiro ou para um que é filho de um camponês, a chance de eles acertarem o item tem de depender do estudo, não da opinião.

Não fazer pré-teste, em meio a isso, faz com que o nível de dificuldade fique descalibrado?

Quando vai montar a prova, tem de fazer dois tipos de cobertura. Uma da matriz e outra da dificuldade. No Enem, como é para medir o nível dos estudantes, tem de ter uma concentração de itens mais na parte de cima da escala. Tem de ter mais itens acima de 700 (de uma escala de 0 a 1000). O pré-teste não dá toda a resposta, mas é um risco não fazer. Rigorosamente, o pessoal do Inep só vai saber (se a prova foi difícil ou fácil para os alunos) no processamento. O Inep informou que alguns itens aproveitaram de pré-testes antigos, mas não houve renovação. Um elaborador produz um item, que vai passar por três revisores, e ele vai a pré-teste. Escolhe uma população assemelhada àquela que vai fazer a prova. Aqueles que têm muitos defeitos são jogados fora. Normalmente, pega-se esses itens, faz uma revisão. O Inep divulgou que não estaria fazendo isso, mas estaria fazendo revisão. Estão fazendo isso porque não têm banco à altura (para “queimar” questões). Não teve uma política para isso, o governo Bolsonaro parece que estava brigando com o Enem. Muitos desses jovens já passaram por um período crítico na pandemia, privados de ter contato com os professores. Imagina ter de torcer para que não apareça uma prova que não fuja tanto do padrão?

Dá para se dizer, até levando em conta o histórico do governo Bolsonaro com a elaboração do Enem, que a prova deste ano se alinhou à tradição de cobrança de conteúdos?

No último período, por conta da crise do Inep, optaram por uma solução intermediária e caseira. Deixaram o (Carlos) Moreno dirigindo o Inep, um funcionário de carreira, o que teria dado um clima mais favorável. Teve certo bom senso, não tem de fazer perseguição ideológica. Mas não nos iludamos: esse Enem foi feito rigorosamente sem itens pré-testados, isso é declaração do Inep.

Quais são os desafios para quem assumir o Inep? O que esperar do próximo Enem?

Quem assumir a presidência do Inep, no dia seguinte, tem de retomar esse processo de pré-teste. Hoje você elabora um item, mas não sabe qual vai ser a dificuldade do item. Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir. O ideal é que faça um pré-teste para usar lá em 2024, 2025. Daqui um ano, vai ter outra vez o Enem, e terá de existirem itens novos. Já antecipo um problema no horizonte. Com quatro anos sem ter feito pré-testes, quem assumir a presidência do Inep vai ter que ter isso como prioridade menos 2.

Há outros desafios no radar?

Tem uma outra questão que não tem a ver exatamente com a prova: o quadro de queda drástica de jovens se inscrevendo para fazer o Enem (a prova teve 3,4 milhões de inscritos, e enfrenta redução desde a metade da década passada, quando chegou a ter quase 9 milhões de interessados no exame) . Isso é preocupante. Quando as pessoas sequer se inscrevem, há uma crise de expectativas. Não tem a ver com a prova em si, mas com uma questão mais ampla.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) começou nesse domingo, 13, com as provas de Redação, Ciências Humanas e Linguagens. As questões seguiram a tradição da prova, que cobra temas ligados a debates sociais, direitos humanos e sustentabilidade.

Isso ocorreu após tentativas de interferência durante a gestão Jair Bolsonaro no conteúdo do Enem, com a criação de uma comissão para vigiar itens considerados problemáticos e denúncias de técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo teste.

Para o professor Ocimar Alavarse, renovar questões da prova é desafio central para os próximos anos Foto: Divulgação/USP

Professores de cursinho elogiaram o nível das perguntas e o grau de atualidade da prova, que trouxe assuntos e personagens atuais, como a luta dos indígenas na Cúpula do Clima de 2021 e a vitória da skatista Rayssa Leal na Olimpíada do ano passado. Também destacaram a importância de fazer com que os jovens discutam temas relevantes, como a valorização dos povos tradicionais, democracia e igualdade de gênero. Chamou a atenção, por outro lado, a ausência de referência à ditadura militar por mais um ano.

O professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Ocimar Alavarse, porém, diz que a prova deste domingo revela outro desafio para o Inep: renovar o banco de questões do exame. Uma parte dos itens usados não passou por pré-teste, o que dificulta a calibragem da distribuição de questões fáceis, médias e difíceis, o que ajuda a definir a nota.

“Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir”, destaca ele, especialista em avaliação educacional. Leia os principais pontos da entrevista:

O Enem abordou temas como povos originários, democracia, ambiente e gênero. Após denúncias sobre tentativas de interferência da gestão Jair Bolsonaro na prova, o que o exame deste domingo mostra?

Antes, é importante dizer que o governo Bolsonaro tentar impedir um tópico sobre ditadura, por exemplo, não é uma questão ideológica, é uma questão de restringir um tópico que está na matriz de referência do Enem. Além disso, não pode fazer uma pergunta cuja resposta depende do posicionamento ideológico do candidato, uma pergunta que o candidato deve concordar ou não. Não pode fazer uma pergunta cuja posição ideológica o faz acertar o item. Quando a prova traz uma questão de gênero e de povos originários, ela está ampliando a matriz temática. É a amplitude da temática que, por sua vez, deveria estar sendo trabalhada.

Qual é a sua avaliação sobre as questões mais novas usadas nesta edição da prova? Houve uma renovação?

Questões que não foram aprovadas no pré-teste são um risco. Isso reflete a ausência de uma política para ter um banco de itens no Inep. Tem de ter uma prova que não só cubra toda a matriz, mas também itens de várias dificuldades. Pode haver um item perfeito do ponto de vista pedagógico, mas a dificuldade é de, por exemplo, 720 na escala do Enem. Então, esse item, apesar de ter boas características, não tem a dificuldade que se precisa. Para atingir esse patamar tem de fazer muitos pré-testes, ter a elaboração de muitos itens, e isso toma tempo. Foi algo que o Inep não faz nos últimos quatro anos: uma política para alimentar itens. Diferentemente do Saeb (avaliação de aprendizagem do Ministério da Educação), que a prova não é pública, no Enem você não pode ter isso (as questões no banco são usadas e não podem ser repetidas na edição seguinte). Com o banco, você passa a ter questões que cobrem melhor a matriz. Não é que agora quem é contra a ditadura vai melhor no exame. Quando faço um item, a resposta não pode depender dessa subjetividade. Tem de atender a outras características. Uma delas é que a resposta considerada correta corresponde ao entendimento dos estudiosos. Se fizer uma pergunta sobre o movimento sem terra tanto para um aluno filho de fazendeiro ou para um que é filho de um camponês, a chance de eles acertarem o item tem de depender do estudo, não da opinião.

Não fazer pré-teste, em meio a isso, faz com que o nível de dificuldade fique descalibrado?

Quando vai montar a prova, tem de fazer dois tipos de cobertura. Uma da matriz e outra da dificuldade. No Enem, como é para medir o nível dos estudantes, tem de ter uma concentração de itens mais na parte de cima da escala. Tem de ter mais itens acima de 700 (de uma escala de 0 a 1000). O pré-teste não dá toda a resposta, mas é um risco não fazer. Rigorosamente, o pessoal do Inep só vai saber (se a prova foi difícil ou fácil para os alunos) no processamento. O Inep informou que alguns itens aproveitaram de pré-testes antigos, mas não houve renovação. Um elaborador produz um item, que vai passar por três revisores, e ele vai a pré-teste. Escolhe uma população assemelhada àquela que vai fazer a prova. Aqueles que têm muitos defeitos são jogados fora. Normalmente, pega-se esses itens, faz uma revisão. O Inep divulgou que não estaria fazendo isso, mas estaria fazendo revisão. Estão fazendo isso porque não têm banco à altura (para “queimar” questões). Não teve uma política para isso, o governo Bolsonaro parece que estava brigando com o Enem. Muitos desses jovens já passaram por um período crítico na pandemia, privados de ter contato com os professores. Imagina ter de torcer para que não apareça uma prova que não fuja tanto do padrão?

Dá para se dizer, até levando em conta o histórico do governo Bolsonaro com a elaboração do Enem, que a prova deste ano se alinhou à tradição de cobrança de conteúdos?

No último período, por conta da crise do Inep, optaram por uma solução intermediária e caseira. Deixaram o (Carlos) Moreno dirigindo o Inep, um funcionário de carreira, o que teria dado um clima mais favorável. Teve certo bom senso, não tem de fazer perseguição ideológica. Mas não nos iludamos: esse Enem foi feito rigorosamente sem itens pré-testados, isso é declaração do Inep.

Quais são os desafios para quem assumir o Inep? O que esperar do próximo Enem?

Quem assumir a presidência do Inep, no dia seguinte, tem de retomar esse processo de pré-teste. Hoje você elabora um item, mas não sabe qual vai ser a dificuldade do item. Esse problema do banco de itens vai ser um aspecto crítico para o Enem de 2023, e não é tão fácil de corrigir. O ideal é que faça um pré-teste para usar lá em 2024, 2025. Daqui um ano, vai ter outra vez o Enem, e terá de existirem itens novos. Já antecipo um problema no horizonte. Com quatro anos sem ter feito pré-testes, quem assumir a presidência do Inep vai ter que ter isso como prioridade menos 2.

Há outros desafios no radar?

Tem uma outra questão que não tem a ver exatamente com a prova: o quadro de queda drástica de jovens se inscrevendo para fazer o Enem (a prova teve 3,4 milhões de inscritos, e enfrenta redução desde a metade da década passada, quando chegou a ter quase 9 milhões de interessados no exame) . Isso é preocupante. Quando as pessoas sequer se inscrevem, há uma crise de expectativas. Não tem a ver com a prova em si, mas com uma questão mais ampla.

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